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A PRODUTIVIDADE DE PAUL BUNYAN

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Por Luís Adonis Correia

 

O desenho animado de curta-metragem “Paul Bunyan” é uma produção da Disney que, no Brasil, passou na televisão no início da década de 70. Faz muito tempo, sim, mas ainda me lembro. A infância deixa marcas, além daquelas dos tombos.

 

O desenho conta a história de Paul Bunyan, um lenhador gigante, que faz prosperar e crescer a região usando a própria força e seu machado. Conta com a ajuda e a companhia de Babe, o boi azul, também gigantesco, para irrigar cidades, realizar benfeitorias, evitar calamidades. Paul é simpático, humilde, despojado e vive nas montanhas. Encarna o espírito livre.

 

Eis que chega na região a modernidade, na figura de um homenzinho, Joe Muffaw, munido de grande avanço tecnológico: uma serra elétrica. Ele é antipático, arrogante, janota e vive na cidade. Encarna o espírito do progresso.

 

Nasce da descrença o desafio para verificar se aquela invenção é realmente tão poderosa quanto trombeteada pelo arauto da tecnologia. A disputa visa estabelecer quem é mais produtivo cortando madeira. De um lado, Paul Bunyan e Babe; do outro, Joe com a serra elétrica e a  locomotiva.

 

A disputa começa. Em função dos contrastes que o desenho apresenta, ou de qualquer fator subconsciente, eu e todos que conheci torcemos por Paul Bunyan. Um apito encerra a competição. Os juízes, que não eram auditores da Enron, olham para as intermináveis pilhas de madeira (sem questionamento sobre desmatamento). Não  sendo possível definir um vencedor por contraste, decidem medir. De posse de uma  fita métrica, um dos juízes começa. O vencedor, por meio centímetro (na tradução), confessado com um soluço pelo incrédulo porém honesto auditor, foi…Joe! Ele pula e comemora, quebrando o silêncio da consternação geral. Não era só a plateia do desenho que torcia por Paul, a julgar pelos semblantes dos moradores da região. Paul se afasta cabisbaixo, imitado por seu boi azul.

 

Fiquei apoplético. Quando o juiz do alto da pilha de madeira concluiu a medição, dando a vitória ao “homem da serra elétrica”, um outro massacre ocorria. Pela primeira vez eu testemunhara a derrota do “mocinho”. O “bem” perdera. Eu negava internamente aquele resultado: “deve ser um pesadelo, ele vai acordar”, “vão descobrir algum erro na medição”. Apelava a uma instância inexistente: “não existe árvore de meio centímetro. Eles cortaram o mesmo número de árvores! Não interessa se a madeira era mais grossa”. Mas a argumentação não se sustentava: “quem é que escreveu essa história?”. Não havia a quem reclamar. O desenho finalizava com uma voz em off dizendo que nunca mais Paul Bunyan e Babe foram vistos, mas que ainda se ouviam seus sons e que as geleiras ainda quebravam com suas brincadeiras. Na cena final, eles pareciam felizes. Souberam superar a derrota. Eu não.

 

Essa lenda sobre o afastamento pelo progresso, o sentimento de não ter espaço no novo mundo (as dimensões de Paul e Babe “atrapalham” a expansão da cidade) e de não ser mais necessário, independentemente do passado, das realizações, encena a história de muitos. São também personagens à procura de um papel.

 

Em que pese à nostalgia, a mim tão pungente, que quase me obriga a um revanchismo, declaro conscientemente que, após esses anos, Paul Bunyan ganhou a competição de produtividade. Em termos de resultados operacionais, a capacidade da força (humana) de trabalho é mais crítica do que a capacidade de máquinas e sistemas. O diferencial em maquinário ou em sistemas tecnológicos é cada vez menos competitivo, porque pode ser mais rapidamente copiado, replicado. Não é propriamente um diferencial estratégico: é processual.

 

Um programa de melhoria de performance elevaria Mr. Bunyan à categoria de fator chave de sucesso. Difícil seria fazê-lo se interessar por isso: já tem seu próprio bônus que é caminhar e brincar por montanhas e rios, na certeza de que não é mais um treinamento ao ar livre.

 

O desenho apresentava suas polarizações: valores de socialização versus progresso tecnológico; o sentimento libertário da vida no campo versus o confinamento à vida nas metrópoles; o homem versus a máquina. Esses antagonismos, em especial o último, se encontram até hoje em muitas organizações, que se dizem com uma “visão humanista”. Mas estão míopes, certamente. Não percebem o novo ambiente tecnológico, a ubiquidade gerada.

 

A revolução tecnológica a qual vivenciamos não contempla nenhuma dessas polarizações. Na verdade, são fatores que se integram: um progresso tecnológico que permite socializações de diversos segmentos, a mobilidade em grande escala, a interação do homem no ambiente tecnológico onipresente.

 

Frente a novas possibilidades que se descortinam a cada dia, torço para que  busquemos a sensatez, mas sem perder o sonho, como em um dos versos da canção de Paul Bunyan: “com os pés no chão e a cabeça no  céu”.

 

 

 

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