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QUESTÃO CULTURAL É O MAIOR DESAFIO DO BRASIL NO SETOR DE INOVAÇÃO

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O maior desafio da indústria brasileira em relação à inovação é reconhecer a importância das atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) como ferramenta competitiva. Além disso, por não ter uma cultura empresarial inovadora, o progresso brasileiro nessa área acaba se prejudicando. Prova disso é que o país ficou em 43º lugar na classificação mundial de competitividade, de acordo com um estudo publicado em maio deste ano pela escola suíça de negócios Institute for Management Development (IMD). Embora tenha conquistado seis posições em relação a 2007, o Brasil tem muito que caminhar para alcançar outros emergentes da lista, como a China, a Malásia e a Índia, que ocupam respectivamente a 17ª, 19ª e 29ª posições. O ranking é liderado, mais uma vez, pelos Estados Unidos. Para especialistas da área, se o país deseja se tornar competitivo é preciso consolidar as atividades de P&D e promover a inovação. E para inovar o governo precisa compartilhar com as empresas o risco tecnológico envolvido. De acordo com o mais recente estudo da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei), apenas 5% das empresas que realizaram atividades inovativas receberam financiamento público. No Japão, por exemplo, o governo financia 18% das atividades de P&D, nos Estados Unidos e na Alemanha o número é de 31%, na Coréia do Sul, 24%, e na Espanha esse percentual chega a 40%. Em entrevista exclusiva ao TIC Mercado, Paulo Benetti, especialista Internacional em Criatividade, Inovação e Estratégias e vice-presidente da Associação Brasileira de Criatividade e Inovação (CRIABRASILIS), disse que o desafio do Brasil com a inovação é cultural. Para o autor de "MITOdoLOGIA - Pessoas e empresas criativas e inovadoras. Por que não?", não há uma cultura voltada para a inovação no país, principalmente, porque o brasileiro não gosta de enfrentar riscos.

TIC - Como você enxerga o cenário de inovação no Brasil?

Paulo Benetti - Tenho trabalhado fora do Brasil e, por isso, vou comparar com países como o México, Estados Unidos, Irlanda e China. Vejo nestes países um interesse maior na questão da inovação para o mercado. Isso quer dizer em lançar novos produtos, novos serviços, desenvolver novos processos, procurar por estratégias inovadoras. Vejo também que ainda estamos muito distante destes países. Além disso, nos países mais avançados - leia-se empresas mais avançadas e inovadoras -, a preocupação agora é com a criatividade. As empresas avançadas já resolveram as questões de liderança e gestão da inovação. Portanto, o que querem agora são idéias. Há um grande mercado lá fora para trabalhar o desenvolvimento de idéias. Já nos países em desenvolvimento, onde a cultura empresarial não é inovadora, a preocupação é como fazer a gestão da inovação. E nesta questão temos tido poucos progressos. Não há uma cultura voltada para a inovação, até porque não gostamos muito de enfrentar riscos. 

TIC – Que desafios o Brasil encontra para promover a inovação?

Paulo Benetti - Se considerarmos que uma boa parcela da economia brasileira está nas mãos de empresas estrangeiras e estas, na quase totalidade, desenvolvem suas inovações em outros países ou nos seus países-sede, e se tirarmos da parte que sobra as empresas estatais, vamos ver que sobra uma pequena parcela na nossa economia para inovar. Entretanto, mesmo no âmbito estatal já vimos alguns bons exemplos: Embrapa e Petrobrás. No âmbito industrial privado temos a Embraer e a Vale do Rio Doce. No âmbito de negócios, temos o empresário, na realidade mais empreendedor, Eike Baptista, criando novas formas de conduzir suas atividades. Isso mostra que precisamos desenvolver capacidade de aceitar riscos e enfrentá-los. Logo, o desafio maior é desenvolver uma cultura voltada para inovar e empreender a inovação. Todos os países que estão avançando nesta área o fazem porque existe uma cultura local que estimula o enfrentamento do risco. Outra questão fundamental, e aí é de base, é a educação formal no brasil. Estamos hoje muito fracos para enfrentar a concorrência mundial. Nossas escolas na base são fraquíssimas, mesmo as escolas privadas. Nossas universidades também são fraquíssimas. Inovação é desenvolver novo conhecimento ou usar o conhecimento existente de uma nova forma. Se não tivermos uma base de desenvolvimento de conhecimento, portanto excelentes universidades, não conseguiremos desenvolver inovações. Estamos muito despreparados nesta parte. 

TIC – Que papel o Governo Federal deve desempenhar junto às empresas para o estímulo à inovação?

Paulo Benetti - O governo poderia estimular a inovação criando ambientes de foco, criando novos clusters industriais. Por exemplo: por que não estimular a indústria farmacêutica e cosmética a implantar centros de pesquisas na região amazônica. Isto é dar foco em alguma coisa que temos de melhor. Seria interessante também atacar mais a atividade de alimentação processada, que hoje está praticamente nas mãos de empresas do exterior. O Brasil está destinado a ser um celeiro do mundo, logo é muito importante vender com agregação de valor. Outro papel que o governo pode fazer, este mais difícil porque exige mais competência e vontade, é o de revolucionar a educação no Brasil. Não é evolucionar, é mudar completamente. Como está, já disse, não vamos muito longe. Não há muitos neurônios na praça com capacidade de inovar e competir em alto nível. 

TIC – A maioria das empresas não investe em inovação por causa dos tributos e da burocracia da exportação. Qual a solução para estes problemas?

Paulo Benetti - A maioria das empresas não investe em inovação, principalmente, porque não temos uma cultura de arriscar. Este é um fenômeno cultural. Agrava isto o fato de que não se estimula a atividade empresarial em nosso país. Há realmente um excesso de tributos. E é interessante porque todos os dirigentes no Brasil, seja o presidente, ministros, deputados e governadores, sabem que se reduzirem a carga tributária em 20% a arrecadação aumentará em um porcentual muito maior. Não se entende porque não se reduz os tributos. Quanto à burocracia, ela é necessária para se criar facilidades, ou seja, criar condições para o aumento da corrupção. Logo, onde há muita burocracia, também há muita corrupção. Infelizmente, não se vê nenhum governo interessado em resolver isto.

TIC – As políticas lançadas pelo governo nos últimos tempos, como a Lei do Bem, Lei de Inovação e, agora, a PDP, têm ajudado no fomento à inovação? 

Paulo Benetti - Ajudam um pouco, mas o problema maior é cultural. Quando o problema é cultural os incentivos encontram um grande bloqueio.

Publicado originalmente na TIC Brasil Mercado e Políticas Públicas.

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