ARTIGOS

 

O DESAFIO DO E-LEARNING: 

VENCER AS BARREIRAS COMPORTAMENTAIS

 

DENIZE DUTRA

DIRETORA DO MVC

INSTITUTO MVC ESTRATÉGIA E HUMANISMO

Artigo Publicado na Revista Rh Magazine(Portugal)

 

A partir de uma experiência pessoal, após ter utilizado diversas tecnologias, que estão à nossa disposição para facilitar uma série de aspectos da nossa vida cotidiana, comecei a observar como a "sociedade" vem lidando com esta questão.

 

Tenho verificado que, quando se lança uma nova tecnologia no mercado, existe muito pouca – ou, em alguns casos, nenhuma - preocupação de preparar e educar as pessoas para a utilização do que se propõe. Isto ocorre desde o uso dos mais simples eletromésticos, e chega até o processo de informatização das organizações, ao o uso da tecnologia da informação e às modernas tecnologias de aprendizagem.

 

Talvez, esta seja uma das causas de a revolução tecnológica ter trazido tantos impactos negativos na dinâmica das organizações. O Ser Humano, o seu único "Recurso Vivo" e capaz de transformar todos os demais recursos em resultados, não foi devidamente preparado para enfrentar esta "revolução". Apesar de ser ele o criador, o utilizador e o fim a que a tecnologia se propõe, em muitos casos, acabou percebendo tudo isto como uma grande ameaça, como se a "máquina" pudesse substituir o homem!

 

Na verdade, como em qualquer outro processo de mudanças, existem várias fases pela quais o Ser Humano e as Organizações passam até chegarem ao comprometimento e adoção daquele novo padrão como algo natural, adequado e conveniente.

 

As resistências são previsíveis, e se espera que temporárias, para que não se cristalizem e se tornem barreiras instransponíveis ao processo de evolução das organizações. Para isso, porém, precisam ser devidamente tratadas. Não existem "receitas" prontas e únicas: cada caso será um caso, mas uma ferramenta será básica e indispensável - a comunicação eficaz. As pessoas precisam ser informadas, conscientizadas, sensibilizadas para os benefícios de determinada mudança e, mais especificamente, de determinada tecnologia.

 

Há menos de uma década atrás, poucas pessoas tinham ouvido falar da Internet e muito menos numerosas eram as que sabiam como ela funcionava ou a utilizavam com certa regularidade.Hoje em dia, esta ferramenta está mudando hábitos de consumo, de estudo, de trabalho, de divertimento e até mesmo de convívio.

 

Trazendo estas reflexões para o desenvolvimento de pessoas e suas novas formas de aprendizagem, mais particularmente, para o E-Learning - entendido

como aprendizagem mediada por tecnologia - percebemos o quanto o alto índice de desistências das pessoas antes da conclusão do curso e o fracasso de alguns projetos nesta área, estão relacionados às mesmas questões anteriormente expostas, ou seja, a falta de preparação do ambiente para a implementação de novas tecnologias e a falta de determinadas competências essenciais ao sucesso destes programas.

 

O mais interessante é que sabemos o quanto as organizações investem no marketing de seus produtos, serviços, marca e até no marketing institucional, sempre focando o mercado, mas, muitas vezes, se esquecem de ter a mesma preocupação e os mesmos princípios no marketing interno ( endomarketing).

Não se valoriza tanto a divulgação de novos produtos, serviços, tecnologias, etc para o cliente interno – aqueles que serão os principais personagens destes processos.

 

O e-learning através dos recursos da multimídia organiza as informações baseada na mesma estrutura do pensamento humano, ou seja, deslocando-se de um pensamento para outro. "A meta principal é que a aprendizagem se torne uma exploração pessoal ao invés de uma experiência passiva.", segundo Marcelo Fernandes.

 

Antes de serem convidadas para fazerem cursos via e-learning, as pessoas precisam conhecer as vantagens desta tecnologia, de que forma ela pode complementar a forma tradicional de aprender, e em que situações ela poderá, até mesmo, substituí-la.

 

Algumas destas vantagens são: - acesso a um diversificado leque de conhecimentos, experiências, e competências; - flexibilidade de horário e lugar; - aproveitamento total de tempo e de dinheiro, evitando o desperdício com deslocações; - possibilidade de que, mesmo pessoas com determinadas incapacidades físicas ou outras enfermidades possam estudar; - respeito ao ritmo do " aluno", permitindo que a pessoa faça o curso de acordo com as suas condições; - interatividade com as pessoas, independentemente do lugar onde estejam ou vivam, através de e-mails, chats,etc; - independência entre a qualidade do ensino e a figura do professor, passando a depender da qualidade do material/ recursos disponibilizados, e do grau de interesse do próprio

"aluno".

 

Por outro lado, seria interessante que as pessoas também fossem conscientizadas das dificuldades que poderão ocorrer, tais como: - o sentimento de isolamento, devido ao fato de estarem em contato direto com uma "máquina" e não com pessoas; - a falta de automotivação para fazer o curso; - a falta de autodisciplina para priorizar o curso, em meio a inúmeras atividades, e para começar e terminar, pelo menos, uma lição por vez; - o feedback dos tutores, que pode ser demorado em relação às expectativas e necessidades do "aluno"; - o conteúdo, que pode ser pouco flexível; e outros.

 

Em meus seminários, sobre o tema e-learning, ou sobre outros temas gerenciais,onde o conceitual é trabalhado via E-learning e a aplicação é trabalhada no presencial, tenho ouvido depoimentos, que exemplificam bem esta situação, tais como: - "O RH complica tudo!" – "Estão transferindo a responsabilidade deles (Empresa/RH) para nós!" –" É impossível conseguir fazer um curso no próprio ambiente de trabalho, pois somos interrompidos a todo momento!" –" Temos tanto trabalho, que não dá tempo para fazer o cursos!" – "Temos muitos problemas de sistema: não grava o que eu respondo no curso!’’ – "Temos de estar muito atentos e concentrados no que estamos fazendo!"...

 

Enfim, aparecem as mais variadas dificuldades, que demonstram bem as resistências encontradas. O que aprendemos com isto é que, mais do que um excelente endomarketing, no lançamento destes programas, também precisamos preparar as pessoas, estimulando o desenvolvimento de alguns comportamentos/ competências necessários para a adoção bem sucedida destas novas tecnologias de aprendizagem.

 

Como já sabemos, o desenvolvimento de pessoas deve ser um processo permanente, contínuo e diversificado, pois os indivíduos aprendem de diferentes formas, tendo em vista, as múltiplas inteligências (Gardner), que se manifestam, diferentemente, em cada indivíduo: uns aprendem melhor partindo da teoria; outros da prática, - uns através das palavras; outros através de imagens. Logo, o mais importante no processo de aprendizagem é assegurar que cada um tenha os recursos necessários para construir o seu conhecimento, refletir sobre o mesmo, sintetizar, concluir e verificar sua aprendizagem num novo contexto de aplicação, onde possa ocorrer uma experimentação ativa. Daí, a importância de uma equipe multidisciplinar na elaboração de um curso via e-learning, onde, além do especialista de conteúdo, de tecnologia, existam profissionais de educação, que conheçam estratégias de ensino adequadas ao conteúdo, aos objetivos, e às diferentes etapas de um processo de aprendizagem.

 

O aprendizado é inerente a natureza humana, porém as empresas têm a responsabilidade de ajudar as pessoas a desenvolver e melhorar as competências para que possam aumentar sua produtividade e contribuir para o sucesso do seu negócio.

 

As competências emocionais exigidas para o sucesso da aprendizagem mediada por tecnologia, não devem ser desenvolvidas em programas exclusivamente voltados para a implantação do e-learning, mas devem fazer parte de um "menu" de ações de desenvolvimento pessoal, que a organização deve colocar à disposição de seus colaboradores, para possibilitar o autodesenvolvimento, pois não se desenvolve determinada competência, como, por exemplo, a autodisciplina, de um dia para o outro, e nem através de uma única e isolada ação de treinamento.

 

Nossa prática nos aponta para a necessidade de mais uma ação, que poderá ser facilitadora deste processo de adaptação do indivíduo às novas tecnologias de aprendizagem, que é a formação de "tutores virtuais" ou "facilitadores do processo de aprendizagem via e-learning", que consiste em preparar e colocar pessoas de dentro da organização, que tenham a responsabilidade de conduzir os e-learners até o final do curso para que possam concluí-lo com sucesso, assumindo as seguintes funções:

  • Acolher os e-learners no inicio dos programas,

  • Encorajar e promover/manter a motivação,

  • Monitorar os progressos obtidos,

  • Orientar quando ocorrer qualquer desvio no rumo dos trabalhos e na realização do curso,

  • Fornecer informações, dirimir dúvidas ou encaminhá-las ao especialista,

  • Garantir o sucesso das atividades de apoio, chats, fóruns, videoconferências, etc.

  • Incentivar e facilitar uma comunidade de aprendizagem e o entrosamento entre as diferentes pessoas,

  • Oferecer apoio técnico e emocional,

  • Assegurar a conclusão do curso e auxiliar na avaliação dos resultados de aprendizagem, tudo isto através de e-mails, e, eventualmente, contatos telefônicos.

Através dessa tecnologia, talvez seja mais fácil monitorar os programas, do que através dos treinamentos presenciais tradicionais, que, na maioria das vezes, depois que o participante sai da sala de treinamento, ninguém do RH, ou muitas vezes, nem seu próprio chefe, procura saber mais nada sobre o curso, e de que forma esta aprendizagem poderá ser aplicada na melhoria dos processos da empresa. Estes tutores virtuais poderiam ser utilizados também para fazer follow-up dos treinamentos presenciais.

 

O que foi dito acima, nos traz à cena, um importante personagem deste processo, "a chefia" – ou melhor – "a liderança", pois, a tarefa de monitorar o processo de aprendizagem/desenvolvimento de sua equipe, é um dos mais importantes papéis do líder-coach.

 

É fundamental, para que ocorra um verdadeiro ambiente de aprendizagem dentro das organizações, que suas lideranças:

- compartilhem conhecimento/experiências/idéias; monitorem o processo de treinamento e desenvolvimento de sua equipe, através do encaminhamento adequado das pessoas, considerando seus gaps de competências; façam o acompanhamento, para saber como o processo está transcorrendo e se existem dificuldades; realizem a avaliação conjunta sobre o como esta aprendizagem obtida pode melhorar os processos de trabalho e os resultados da organização; dêem feedbacks construtivos sobre a performance profissional do funcionário e sobre seu comportamento na empresa, enfim, sejam um exemplo de como maximizar potencial das pessoas em benéfico da organização e de si mesmas, através da realização pessoal, gerada pelo uso pleno de suas potencialidades e pelo significado do trabalho em suas vidas.

 

No caso citado do E-learning, para que um líder seja um EXEMPLO, é preciso que ele tenha tido a abertura e a disponibilidade pessoal de passar pela experiência de usar tais tecnologias e que já tenha feito curso via e-learning, para que possa, através de uma atitude empática, ser um estimulador de sua equipe!

 

Para consolidar a importância de Ser Exemplo, vale a pena, compartilhar a minha experiência pessoal: - Minha formação básica é a Psicologia, e existe um certo paradigma social (às vezes, usado como justificativa), de que as pessoas da Área Humana não gostam de tecnologia. Pode até ser que não gostem mesmo, mas isto não significa que não possam aprender a utilizá-la. Desta forma, também tive as resistências naturais para começar a ser usuária de qualquer tipo de tecnologia, até ficar absolutamente convencida de que seus benefícios eram expressivos e que valia a pena! Quando comecei a ler mais sobre e-learning, ficou claro para mim, de que estávamos diante de uma ferramenta poderosa e fantástica para os cursos técnicos e que, o desenvolvimento deste tipo de habilidade, dependeria, apenas, de um bom conjunto de princípios, muito bem estruturado.

 

Naquele primeiro momento, não consegui perceber a amplitude que esta tecnologia tinha e nem que ela poderia ser utilizada na minha área de atuação profissional, pois sempre trabalhei com metodologias essencialmente vivenciais, em treinamentos presenciais, e com foco em aspectos, eminentemente, comportamentais. A partir deste momento, o que fez a grande diferença no desenrolar dos fatos, foi a minha forte característica de querer aprender sempre, e buscar o novo.

 

Nessa trajetória, conheci profissionais que se tornaram parceiros de trabalho, e que, através de seus conhecimentos e experiências, puderam me mostrar aspectos, que antes, na minha visão limitada de leiga no assunto tecnologia, não podia entender. Convencida, fui desafiada por estas pessoas a criar um curso comportamental através do e-learning sobre o tema: Desenvolvimento Pessoal.

 

Superadas as minhas próprias dificuldades, ficou muito mais fácil contribuir para superar as barreiras dos outros, por isso, meu convite para você é: _ Supere, primeiro, as suas próprias barreiras e depois será muito mais gratificante e fácil oferecer suas contribuições!!!

Afinal, como disse Willis Harman - "Aparentemente, os únicos limites da mente humana são aqueles que acreditamos existir!".

 

 

 

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