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PERCEPÇÃO,
ATITUDES E COMPORTAMENTOS
NA
NEGOCIAÇÃO
FRANCISCO
BITTENCOURT
CONSULTOR
DO MVC
INSTITUTO
MVC ESTRATÉGIA E HUMANISMO
www.institutomvc.com.br
Há
uma disfunção visual, que em geral atinge os homens, denominada
discromopsia, ou discromatopsia. Esta disfunção leva a confundir
cores com matizes semelhantes. Não deve ser confundida com o
daltonismo, que envolve as cores verde e vermelho. A discromopsia
envolve todas as cores. Você as confunde, e não consegue, mesmo
alertado, perceber a cor real.
Há
um teste, aplicado nos exames de habilitação para direção de
veículos, o teste de Ishiara (parece-me esta a grafia correta), que
detecta a disfunção. Consiste em uma infinidade de esferas
coloridas, nas quais, formados por esferas de uma única cor, está
inserido um número. Os portadores da disfunção não conseguem,
mesmo orientados, perceber este número.
Usei
este exemplo (sou um portador da disfunção), para abordar um tema
que, embora envolva todos nós, nem sempre é entendido como um
instrumento de nossa rotina, adotado em significativos e numerosos
eventos de nosso ciclo produtivo.
Este
tema é a negociação, e neste texto o intento é nos ocuparmos de
um tipo específico de negociação: a negociação de percepções.
Recentemente,
nas eleições para prefeito, ocorreram diversas situações em que
os candidatos escolhidos pelo voto para disputar o segundo turno
não representaram a corrente ideológica de uma parcela do
eleitorado.
Ao
decidir o que fazer com o seu voto, o cidadão poderia, em
princípio (haveria a opção do voto em branco e do voto nulo),
depositar (ou registrar) seu voto no candidato que, em sua
percepção, se mostraria mais adequado ao cargo (dentro do universo
de escolhas).
Entretanto,
é importante frisar que, mesmo optando por um dos dois, seu voto
ideológico, sua crença não os contemplaria. Em sua opinião
continuava "percebendo" que aquela não era a sua escolha
espontânea (não tinha sido no primeiro turno).
Numa
negociação, na qual coloca-se em jogo a percepção dos
interlocutores em relação a um determinado foco, faz-se
necessário estar atento ao fato de que determinadas posições são
assumidas, mas os fatos continuam a ser percebidos da forma
original.
Assumem-se
posições, referendam-se posturas, mas a visão original permanece
intocada.
Se
alguém assume alguma postura ou atitude que nos impacta, negativa
ou positivamente, mesmo que o fato seja relevado no futuro, o
registro original permanece, por vezes quase esmaecido, mas ele
está lá.
Vemos
o azul na paisagem, somos informados que o que vemos não é azul,
é verde. Aceitamos pela pressão, mas ao olhar para aquele ponto,
nossa percepção nos mostra o azul, e não o verde.
Numa
negociação é essencial que dediquemos uma atenção especial a
percepção que as pessoas tem dos fatos. Qualquer distorção pode
influir, de forma significativa no comprometimento com as bases ou
com o resultado.
Mais
do que levar seu interlocutor aceitar o resultado é essencial
mostrar-lhe a coerência do que foi acordado, quando comparado com o
que originalmente havia se posicionalmente.
O
nível da argumentação deve levar em conta fatores concretos, onde
a interpretação não deixe margem a dúvidas ou situações não
claramente justificadas.
A
percepção é a primeira etapa em um processo de mudanças. A
percepção , em um indivíduo pode ser impactada quando três
dimensões são afetadas:
-
A
dimensão valorativa, onde situam-se valores, crenças,
ideologias;
-
A
dimensão cognitiva, onde permeiam informações, conhecimentos;
-
A
dimensão afetiva, na qual competem necessidades, demandas,
expectativas;
Mudar
a percepção significa interferir em uma dessas três dimensões, o
que pode incluir:
-
Oferecer,
sob uma nova ótica, valores diferenciados, formas de
aperfeiçoamento e contemporaneização de crenças e da
própria ideologia;
Na
administração científica uma teoria substitui outra quando a
desmente, supera ou agrega novas variáveis que a anterior não
apresenta condições de incorporar;
Na
negociação não é diferente, a incorporação em nossa
dimensão valorativa, de componentes que, historicamente, não tem
espaço em nossas convicções originais, pode levar a uma
revisão de nossos valores e, conseqüentemente, alterar nossa
percepção diante de uma determinada situação.
Por
exemplo, voltando as eleições, um dos partidos de esquerda, com
postura radical recusou-se a, sistematicamente a fazer
coligações; perdeu em alguns locais, onde era favorito, por seu
purismo (?) ideológico exacerbado.
Este
é um momento interessante de mostrar a seus adeptos que, rever o
conceito de coligações, e buscando parcerias onde não haja
necessidade de se violentar ideologicamente.
Mostrar
a adeptos de hábitos nocivos as razões pelas quais devem
enxergar as conseqüências destes hábitos, e por isso alterar
seu comportamento, é também uma forma de alterar valores.
-
Transmitir
informações, permitir que seu interlocutor tenha acesso a
níveis de conhecimento não disponíveis em suas convicções.
Levar
ao interlocutor um conjunto de dados não percebido por ele, e que
ele possa transformar em informações importantes, e que lhe
permitam agregar conhecimentos capazes de contribuir para
consolidar sua posição, ou a posição que você na
negociação, gostaria de ver percebida ou atingida por ele, é um
caminho eficaz.
Trazer
um novo dado, notícia, variável, uma nova visão do cenário,
uma forma diferente de ver as coisas, um contexto não contemplado
por seu interlocutor, mas considerada por você fundamental para a
mudança de percepção do interlocutor em relação a sua postura
negocial, é uma opção real e consistente.
-
A
terceira dimensão, a afetiva, mostra sinais mais concretos,
para sua impactação.
Efetivar
uma parceria desejada, atingir um estágio mais avançado na
consecução de um objetivo, obter um determinado benefício, ou
saciar um anseio ou vontade, fazendo com que seu interlocutor
vislumbre essa possibilidade de forma mais efetiva (e isso pode
ser obtido integrando o impacto entre as três dimensões) pode
revelar-se um instrumento que consolide a alteração de
percepções.
Negociar
percepções, portanto, significa antes de mais nada:
-
Conhecer
os objetivos, prioridades, e, se possível identificar os reais
interesses, manifestos ou não pelo seu interlocutor na
negociação.
-
Definir
claramente, a partir das variáveis disponíveis em seu poder,
o que realmente é importante para ele na negociação, e, em
função disto, o que pode ser a base da discussão.
-
O
que você pode oferecer em troca do que pretende obter, das
concessões a serem feitas, do nível e das variações de
barganha.
Mais
do que entender a posição que seu interlocutor defende na
negociação, esta reflexão nos mostrou a necessidade de conhecer e
decodificar o nível de percepção do interlocutor, entender como
ele "enxerga" as diversas variáveis que interferem no
processo negocial.
A
partir desse conhecimento, torna-se possível instrumentar-se para
desenvolver um processo do que chamamos, no início deste texto,
"negociação de percepções".
Este
primeiro passo vai levar a uma mudança de atitudes, e em sua
consolidação, a uma mudança comportamental, capaz de alterar e
influir significativamente nos resultados da negociação.
Segundo
Fisher & Ury, a negociação, se não levar a um acordo, deve
permitir o acompanhamento e a não deterioração da relação entre
as partes envolvidas.
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