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É
POSSÍVEL INOVAR NA GESTÃO DOS SERVIÇOS DE SAÚDE?
JOÃO
BAPTISTA VILHENA
VICE-PRESIDENTE
DO MVC - INSTITUTO M. VIANNA
COSTACURTA
ESTRATÉGIA E HUMANISMO
Todos
os setores econômicos vêm enfrentando dificuldades nesta nova
economia em que vivemos. Mercados cada vez mais competitivos,
consumidores cada vez mais conscientes das ofertas - e exigentes nas
suas escolhas - e dificuldade cada vez maior de se diferenciar da
concorrência parecem ser "lugar comum" no rol dos
desafios enfrentados pelos gestores contemporâneos. Todavia, não
é incomum identificarmos lideranças capazes de levar suas
organizações a perceber um número maior de opções sobre como
enfrentar esses novos tempos.
Contudo,
toda a vez que tentamos usar exemplos bem sucedidos em outras áreas
para ilustrar o que pode ser feito no setor saúde, somos
"alertados" para o fato de que, nesta área, tudo parece
ser diferente.
A
justificativa mais freqüente para essa afirmativa é que algo tão
nobre como a saúde não pode ser tratado como sabonete. Concordamos
com isso. Mas nossa experiência tem mostrado que muito pode ser
feito para diferenciar os produtos de saúde. Tomemos alguns
exemplos para ilustrar melhor nossa questão.
Comecemos
pela idéia que, provavelmente, os hospitais gerais ou
especializados bem como laboratórios pertencentes ao setor público
precisam se preocupar menos com concorrência, uma vez que a demanda
excede em muito a capacidade de atendimento dessas instituições.
Será que isso é verdade?
Embora
não exista um consenso sobre o total de conveniados aos planos de
saúde, podemos afirmar que esse número se encontra ao redor dos 40
milhões de brasileiros. Essas pessoas demandam uma série de
serviços que são cobertos pelos seus planos, mas na hora que
precisam de tratamento mais caro ou complexo (uma cirurgia
cardíaca, por exemplo) acabam batendo nas portas da rede pública.
Pode-se dizer que isso é culpa de uma política de saúde
equivocada ou que precisa ser aprimorada, mas o fato é que, por
atender gratuitamente pessoas que poderiam pagar pelos serviços (ou
que possuem planos de saúde capazes de fazê-lo), muitas vezes
esses hospitais acabam ficando sem dinheiro para comprar coisas
básicas, como gaze e algodão.
Outra
questão interessante é a da rede municipal de saúde de uma
determinada cidade que decide elevar o patamar de seus serviços a
uma categoria de excelência. Após consegui-lo, verifica,
transtornada, que os municípios a sua volta tem investido todos os
seus recursos na compra de ambulâncias e UTI’s móveis, para
levar seus doentes para serem atendidos pelo vizinho.
Essas
situações permitem soluções que independam de toda uma mudança
na concepção política da saúde pública?
Já
os planos de saúde são submetidos ao controle de uma agência
reguladora e tem limites muito específicos de atuação. Contudo,
pela sua característica de empresa privada – a maioria o é –
precisam garantir a rentabilidade de suas operações ou
simplesmente fecham. Enfrentando uma concorrência acirrada, muitas
vezes procuram soluções ortodoxas para seus problemas de fluxo de
caixa. Cobram produtividade cada vez maior, limitam a cobertura ao
mínimo exigido, glosam o que não está em conformidade com o
padrão. A conseqüência: profissionais desmotivados,
sobrecarregados, limitados na sua possibilidade de atuação. Quanto
aos clientes, muitas vezes percebem uma enorme dissonância entre o
plano que pensaram estar comprando e os serviços que estão
recebendo.
Existe
algo que possa ser feito para minorar essa percepção dos clientes
e desestímulo dos parceiros e colaboradores?
Quanto
aos formuladores das políticas públicas de saúde, a cobrança é
imensa. Desde a constatação de que uma parte substancial do
orçamento é consumida no custeio até o fato que os servidores
públicos – na sua maioria – estão a mais de 8 anos sem receber
qualquer aumento ou reposição de salário, o que se vê são
críticas, reclamações, cobranças e discussões que muitas vezes
são encerradas com uma decisão que, embora politicamente
defensável, não atende aos requisitos técnicos da questão.
Há
algo que possa ser feito para melhorar essa situação?
Acreditamos
que, em todos os casos, a resposta às perguntas formuladas seja um
sonoro SIM. Listamos abaixo algumas reflexões que não pretendem
esgotar o assunto, mas que podem servir como uma inspiração sobre
o muito que se pode fazer nas empresas – de saúde inclusive –
para romper com o conformismo e iniciar uma verdadeira
transformação na vida da organização e das pessoas que nela
trabalham.
a)
Para começar, a capacidade de conviver com ambigüidades é, sem
dúvida, uma característica essencial do profissional da Era do
Conhecimento. Uma das faces mais importantes dessa quase
"esquizofrenia" é que o gestor do século XXI vai ter que
desempenhar simultaneamente os papéis de mestre e de aprendiz.
b)
Não parece haver dúvidas que o líder precisará ser capaz de
ensinar, utilizando o exemplo pessoal como metodologia básica. Por
outro lado, será totalmente insano tentar dominar todas as
subjetividades de cada uma das áreas de competência que precisa
desenvolver. Por isso terá que ser capaz de exercitar duas
virtudes: a confiança e a humildade.
c)
Outro papel importante é o de demonstrador da mudança. Suas
estruturas física e psicológica deverão estar preparadas para
reagir positivamente a novos desafios organizacionais e de mercado,
de forma a evidenciar para seus companheiros que a estabilidade gera
a acomodação e que o processo evolutivo só acontece quando se
está vivendo uma situação de desconforto, gerada por algum tipo
de entropia no sistema que faz com que ele não funcione a contento.
Ao invés de temer ou procrastinar as mudanças, ele deverá
incentivá-las e apoiar aqueles que a ela aderirem. Poderíamos
mesmo dizer que o líder do futuro deverá se transformar num
verdadeiro instigador de mutantes.
d)
Contudo, como todos sabemos, as mudanças atemorizam as pessoas e
fazem com que se sintam ameaçadas e inseguras. Ao mesmo tempo que
instiga seus companheiros à mudar, o líder deve ser um integrador
de pessoas.
e)
Finalmente, não se pode negar que, para desempenhar papéis tão
diversos como o de mestre/aprendiz, demonstrador da
mudança/instigador de mutantes, integrador de pessoas/treinador de
equipes, o indivíduo que ocupa posições de liderança terá que
ser exímio na capacidade de dar e receber feedbacks. Dá-los
é mais fácil do que recebê-los. Aqui entra novamente a
necessidade de exercitar a confiança e a humildade.
Como
dissemos antes, este artigo não pretende esgotar o assunto, mas
você concorda que muita coisa pode ser feita pelo gestor sem ferir
a ética da saúde?
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