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Título - MERCOSUL: A COMUNICAÇÃO COMO DIFERENCIAL COMPETITIVO

José Paulo Morreira de Oliveira

CENA 1

Câmera? No ponto! E o enquadramento? Perfeito!

Ao fundo algumas gôndolas e o ruidoso grupo de turistas espanhóis, com suas inseparáveis máquinas fotográficas e filmadoras.

Risonha e falante, a repórter sabe-tudo brasileira dispara. Sabia que esta cidade está .... de ratos?

Claro que não houve resposta. Para os usuários da língua de Cervantes, rato quer dizer momento, curto espaço de tempo. Me quedo solo um ratico significa vou ficar só um pouquinho.

O que a simpática repórter não sabia é que aquele nada simpático roedor, que anda a infernizar os moradores de Veneza, atende pelo simpático nome de Ratón.

CENA 2

E aquele hotel da fronteira? Na ânsia de agradar ao turista argentino (e obviamente engordar o faturamento) o proprietário não hesitou em mudar o nome de seu estabelecimento para HOTEL NINHOS.

Ninhos é obviamente um grosseiro aportuguesamento de ninõs, que, em espanhol, significa crianças.

Se fosse um motel, quem sabe o nome não colava? Neste caso, ninho poderia sugerir acasalamento, ninho de amor....

Os hóspedes de alta rotatividade, esses é que não iriam entender nada.

Balanços e gangorras em vez de espelhos. Em vez de camas redondas, berços e mamadeiras.

Nem um pouquinho erótico, não acha?

CENA 3

A proposta é interessante. Prefeituras de duas cidades fronteiriças discutem como promover ações comuns para a integração regional.

O documento final da comissão preliminar de estudos é uma lástima.

Ações para o desenvolvimento regional/Actiones para el desenvolvimento de la región.

O constrangimento é geral! Para quem fala espanhol, desenvolvimento é desarrollo (Desenvolvimento, na verdade, é primo do famoso e inesquecivel "duelo a quem duela".

Aproveitando a deixa, é, no mínimo, curioso saber que escoba não é escova; é vassoura. Ampola não é ampola; é bolha resultante de queimadura e ano não é ano. Ano é ânus.

O problema comum a essas três situações é autosuficiência. Nosso jeitão folgado e matreiro, nessa tradição de enalterar a malandragem como uma de nossas grandes virtudes morais nos dá a certeza de que, com jogo de cintura, somos capazes de vencer qualquer obstáculo, por maior que seja.

Como se pode ver, o reusultado é sempre pífio. Em nossas relações com o Mercosul estamos cuidando da efetividade do processo comunicativo?. Estamos, de alguma forma, preocupando-nos com a clareza e objetividade nas comunicações com nossos novos parceiros?

Afinal, estamos construindo um novo mercado comum ou seremos apenas os novos camelôs da fronteira?

Podemos importar badernas (cabos trançados utilizados nos navios), garruchas (roldanas), caretas (máscaras) ou chacinas (carne de porco salgada para fazer linguiças) sem receio. A violência no Brasil não vai aumentar.

Aliás as granadas (romãs) argentinas são saborosas, de excelente qualidade. Como também são de qualidade as lentillas (lentes de contato) ou licheras (cobertores) que eles produzem.

Só não devemos é vender-lhes brincos (palos), colas (rabos), cuecas (música do Chile), caderas (ancas) ou carros (carroças). Não seria nada diplomático.

Podemos aceitar o mijo que eles produzem, se soubermos que mijo é milho.

Só não podemos é oferecer-lhes molas (montanhas).

Nossos parceiros iriam ficar malucos. (Por falar nisso, maluco é diminutivo familiar de malo, que quer dizer adoentado).

Como se vê, temos um vasto caminho a trilhar. O primeiro passo para vencer a barreira econômica é ultrapassar as barreiras linguísticas.

A Norma Mercosul (NMI) é o primeiro esforço nesse sentido. Se as fronteiras tendem a desaparecer e as relações internacionais adquirem nova dimensão, é natural que a tendência a unificar procedimentos, classificações, simbologias e terminologias aconteça.

Na NMI, o leitor encontra instruções precisas sobre aspectos relevantes do texto técnico: desde como fazer uma folha de rosto até como redigir um sumário, ou ainda fazer uma nota de pé de página ou um anexo.

Traz ainda orientações sobre como redigir um título e como criar definições, estabelecendo distinções entre aquilo que deve e aquilo que pode ou não fazer parte do corpo do texto.

O estabelecimento de critérios claros e precisos para facilitar o comércio e a comunicação internacional já é um passo gigantesco, mas não custa nada lembrar que estamos apenas no início.

Seria igênuo imaginar que uma simples Norma de fazer Norma tivesse a capacidade de equacionar todos os problemas provenientes das barreiras linguísticas.

Precisamos avançar no sentido de pôr a NMI em prática. Mas precisamos também avançar no sentido de unificar outros tipos de texto, resultante da necessidade de uma boa comunicação gerada pelo intercâmbio comercial.

Caso contrário, teremos graves problemas. Como o daquele empresário de calçados que espera até hoje o aceite da sua Proposta.

Consultor -  JOSÉ PAULO MOREIRA DE OLIVEIRA - CONSULTOR DO INSTITUTO MVC – M. VIANNA COSTACURTA ESTRATÉGIA E HUMANISMO

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