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Título - Modelando O Consórcio Modular

Paulo Décio Ribeiro

"Procuram-se investidores para trabalhar em parceria num consórcio. Além de capacidade técnica comprovada deverão atuar individualmente em suas áreas de especialidade, garantindo o cumprimento integral de prazos e especificações. Cada parceiro será responsável por todos os custos direta ou indiretamente envolvidos em sua área de atuação, sendo os resultados obtidos, rateados proporcionalmente a participação de cada um."

Este projeto poderia ser denominado de mutirão, associação, parceria ou consórcio modular, se quisermos um nome palpável, com forte apelo de marketing.

O conceito do consórcio modular foi escolhido para estruturar o processo de fabricação na recém inaugurada fábrica de caminhões da Volkswagen em Resende. Ele reúne numa mesma fábrica 7 grandes empresas de autopeças, especialistas em cada etapa do processo produtivo. Operando sob o mesmo teto, com políticas integradas e decisões por consenso, se objetiva alcançar maior valor agregado ao produto fornecido, sendo a Volkswagen a aglutinadora e líder do consórcio.

Neste conceito inovador a posição de fornecedor é substituída pela do parceiro, e o faturamento imediato substituído pelo lucro pós venda. O consórcio objetiva formar equipes flexíveis, otimizando os recursos disponíveis, para maximizar resultados, num modelo de alta competitividade.

Colocando de lado a concepção bem estruturada, surge a seguinte questão: Como operar de forma eficaz o consórcio, eliminando as interfaces inerentes deste modelo?

Não querendo entrar nos aspectos legais, sindicais e políticos, nos permitimos fazer uma reflexão sobre a operacionalização da logística de materiais que deveria respaldar este processo.

Nenhum dos sete consorciados possuí estrutura verticalizada que lhes permita assumir integralmente todos os produtos que fazem parte integrante do seu módulo. Só para exemplificar um consorciado que tenha a responsabilidade do fornecimento e montagem de instrumentos elétricos, terá necessariamente que instalar, por sinergia, faróis, lanternas, luzes de iluminação e sinalização. Como tal dependerá do fornecimento de componentes de outros fabricantes de autopeças.

Surgirão adicionalmente de 6 a 10 novos fornecedores parceiros, num total de aproximadamente 56 empresas satélites, que farão parte indireta do consórcio em segundo nível.

Neste ponto surge a dúvida: Como integrar 56 empresas parceiras para fornecer componentes acabados, com entregas just-in-time? Sem um sistema eficaz, entregando componentes no ponto de uso, no momento da real necessidade, o JIT será aplicado na base do Jesus-is-Time. Nesta situação os produtos serão inevitavelmente transferidos ao pátio, incompletos, ou será montado o caminhão Frankenstein, ou seja, aquele com chassis de um modelo, cabine de outro e faróis de um terceiro.

O Sistema Logístico de Materiais assumiu nos dias de hoje aspecto estratégico no processo produtivo. Com a globalização da economia e as fontes de abastecimento mundiais, o que importa é o fornecedor confiável, com custo adequado e qualidade compatível, não fazendo diferença em que parte do mundo ele se localize. Entretanto, sem uma logística eficaz, o que poderia representar vantagem competitiva, passa a ser prejuízo, na medida em que os produtos atrasam, gerando interrupções imprevistas nas linhas de montagem.

A eficácia de um sistema logístico está relacionada com a cadência de uso dos produtos na linha de montagem, maior a regularidade de consumo, melhor a freqüência das entregas e mais reduzidos os níveis de estoque. O balanceamento do processo se faz da montagem do produto final para a fabricação dos componentes nos fornecedores.

Além disso, os lotes de componentes tem que ser modularizados em quantidades proporcionais a fração do consumo diário, de forma a cadenciar o consumo por unidade de tempo.

As embalagens devem ser desenvolvidas garantindo o acondicionamento dos componentes, sem risco de danos, desde o inicio da fabricação ao ponto de uso, preferencialmente retornáveis, eliminando calços e proteções de papelão que não agregam valor ao produto.

Finalmente, o transporte dos produtos deve ser adequado com movimentação rápida e simples, eliminando tempos ociosos de carga e descarga.

O consórcio modular como idéia inovadora é sensacional. Caminha "51" também é uma boa idéia. Entretanto boas idéias para se tornarem realidade exigem planejamento e uso de recursos específicos, que no caso em questão, ainda não foram postos em prática.

Para que a boa idéia de hoje não se transforme em ressaca amanhã, tomar um "engove" antes, como medida preventiva, não faz mal a ninguém.

Consultor -  Paulo Décio Ribeiro - Consultor do Instituto MVC - Estratégia e Humanismo

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