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Título - EDUCAÇÃO PARA A MUDANÇA
E MUDANÇA PARA EDUCAÇÃO Sérgio
Duarte Velasco
Nada mais previsível do que o embate
anual entre os diversos setores com interesse na educação pública
de nível superior de nosso país. A agenda de
"negociação" do movimento é sempre a mesma: de um lado,
professores que se dizem injustiçados divulgam suas pretensões por
melhorias salariais acrescidas com reposições de perdas ocorridas no
passado; do outro, o empregador, em geral o Governo Federal, que teima
em cumprir o que diz ser o orçamento de educação do ano em
questão. O resultado costuma ser uma greve prolongada que estende o
ano letivo pelos meses de férias de verão do ano seguinte. E como
ninguém é de ferro – imaginem ter que recuperar o tempo perdido
sob um sol inclemente -, quem perde mesmo é o ensino e, em
conseqüência, o aprendizado dos alunos.
O segundo semestre de 2001 não fugiu
à regra: professores de Universidades, agora com o apoio das escolas
públicas federais, mais uma vez decretaram sua greve anual. Para nós
é evidente que o modelo universitário atual não mais atende às
necessidades da população brasileira. A falta de um consenso mínimo
que produza um novo projeto educacional para o futuro – nele
incluindo o papel que o setor público desempenhará - implica na
manutenção dos conflitos atuais e a certeza de que este ano de 2002
promete a repetição das tradicionais greves com algumas emoções e
radicalizações a mais. Neste contexto, fica a pergunta: alguém
acredita que a solução para o nosso atual sistema educacional se
resumirá a um simples aumento de salário de nossos professores?
O fato é que, durante os períodos de
greve, os problemas do setor são alvo de muita discussão pela
mídia. A análise das polêmicas e dos argumentos recentemente
levantados nos permitiu identificar alguns movimentos cujas
evoluções deverão transformar as regras atuais que prevalecem em
nosso sistema educacional. Vamos a eles:
- Desejo de um mundo melhor – esta
intenção reflete uma crescente preocupação com o Ser Humano e
a preservação de sua qualidade de vida. Acontecimentos recentes
(os ataques terroristas nos EUA, por exemplo) e não tão recentes
(guerras, violência, fome, miséria) motivam-nos a pensar no que
temos feito de errado e em como construir um mundo que compreenda
os nossos sonhos mais sublimes. Esta vertente pressupõe para
todos os seus níveis da educação – do básico ao
universitário -, um papel voltado para a formação básica do
indivíduo, independentemente de sua aspiração profissional.
Aspectos como cidadania, tolerância, aceitação das diferenças,
respeito ao próximo, qualidade de vida etc. farão, certamente,
parte de um currículo básico do futuro;
- A necessidade do diploma
universitário – critica-se hoje o comércio em torno da
obtenção do diploma. A sociedade de um modo geral o vê como o
prêmio maior a ser conquistado, capaz de garantir um emprego
seguro e bem remunerado. Esta crença produz terríveis
distorções e frustrações. De um lado, muda o foco do conteúdo
e da seriedade educacional para a obtenção do canudo final; de
outro, passa aos estudantes a sensação de que com ele o mundo se
abrirá. Para atender esta demanda, universidades, em geral
particulares, formam estudantes sob um regime de educação
massificada, muitas vezes sem compromisso com a absorção de
conhecimento. Um dos resultados perniciosos é o crescente
contingente de desempregados universitários;
- Educação decidida pelo aluno –
no modelo atual, o foco da educação está no ensino, do
professor para o aluno. Entretanto, o movimento de mudança do
foco para o aprendizado, em que a decisão passa a ser do cliente,
está cada vez mais evidente. Hoje, os estudantes, ainda sob a
égide do processo reativo tradicional, compram muito "gato
por lebre" (a corrida pelo diploma descrita no item anterior
é prova disso). Mas, o que importa no momento atual é a mudança
de comportamento que se verifica entre os estudantes. Em anos
anteriores, por exemplo, alinhavam-se incondicionalmente aos
pleitos grevistas dos professores. Hoje, começam a questionar
suas perdas durante estes movimentos;
- Ensino à distância (EAD) – a
expressão é prova de que o paradigma antigo de ensino, e não de
aprendizado, é muito forte. Contudo, as novas tecnologias
favorecem o rompimento com o monopólio do formato tradicional de
educação. Ao permitir a oferta de educação em áreas
distantes, tradicionalmente ocupadas por uma escola física, a EAD
aumenta a competição e transfere a escolha da educação ao
estudante. Neste formato ele passa a ser totalmente responsável
por sua decisão;
- Quem paga a educação pública -
esta questão diz respeito ao ensino superior público gratuito.
É razoável manter esta prática quando as grandes demandas por
recursos e investimentos hoje se fazem necessárias nos ensino
fundamental (principalmente) e básico? É razoável manter a
gratuidade num ambiente educacional cuja prioridade seja a
formação básica do Ser Humano tal como descrito no primeiro
item? Não será razoável deixar a decisão de financiamento da
formação profissional por conta do estudante? Afora isso, a
manutenção da gratuidade no ensino superior é concentradora de
renda: a maioria quase absoluta da população de baixa renda não
chegará jamais ao ensino superior neste modelo e o consumo de
recursos na universidade pública por aluno é muito maior do que
nos demais níveis;
- Demandas não atendidas pelo mercado
de trabalho - as universidades, em sua maioria presas a
currículos ultrapassados, já não cumprem mais o papel de
preparar o aluno para o mercado de trabalho. Quem não se empenha
em fazer cursos paralelos, aprender línguas, informática, fazer
estágio etc. termina a universidade despreparada para iniciar sua
vida profissional. Conhecedores desta situação, professores e
alunos, mostram-se desinteressados por suas atividades num
perverso círculo vicioso: mestres repetem ano após ano a mesma
ladainha, sem ao menos se preocuparem em criar situações
motivadoras que proporcionem efetivo aprendizado aos alunos;
estes, por sua vez, burlam qualquer exigência dos professores por
considerarem-nas distantes da realidade profissional. Estágios em
empresas tornam-se prioridades principais dos alunos;
- Avaliação de resultados – assim
como em outros setores, também a educação sofrerá crescentes
pressões pela avaliação de seus resultados. Hoje, é normal se
responsabilizar a situação econômica do país pelo desemprego
de universitários recém formados. Já se percebe, entretanto,
que muitos estudantes estão chamando para si próprios a
responsabilidade por sua empregabilidade: identificam as
universidades de boa aceitação no mercado, avaliam os setores de
maior potencial empregador nos próximos anos, complementam suas
capacitações com atividades extracurriculares etc. A grande
avaliação dos resultados atingidos será feita pelo cliente.
Professor ruim será descartado e seus salários serão tanto
maiores quanto melhores forem seus resultados. Um outro aspecto da
avaliação será a sua transferência para o próprio mercado de
trabalho. Nesta linha, muitos diplomas obrigatórios de hoje
cederão lugar ao conhecimento efetivamente demonstrado pelo
estudante;
- Professores como líderes –
recentemente, durante a festa final de formatura de estudantes em
uma universidade pública, assustei-me quando o aluno responsável
pelo discurso final ressaltou sua nova condição de desempregado,
arrancando risos parceiros dos demais colegas e de alguns
professores. Sem entrar em detalhes identificadores, assinalo duas
razões para meu repúdio total à cena: primeiro, porque se
tratava de uma das melhores universidades do país e o curso em
que se diplomavam era reconhecidamente de alta empregabilidade no
futuro próximo; segundo, porque a maioria presente não se dava
conta de tal fato, certamente, por irresponsabilidade de seus
professores, incapazes de exercer o papel de liderança positiva
que deles seria esperado. Vários aproveitaram seus discursos para
divulgar posições políticas, sem nenhuma preocupação em
aproveitar aquele momento tão importante para incentivar os
formandos a estruturar os passos estratégicos seguintes da
profissão que haviam escolhido. No futuro, até por efeito
comparação, os professores reconhecidamente capazes de exercer
lideranças positivas serão cada vez mais prestigiados pelos
estudantes (clientes).
Essas são apenas algumas das
polêmicas que costuram o futuro da educação brasileira. Embora para
muitos possa parecer uma questão insolúvel, várias instituições
já começam a se livrar das amarras do passado utilizando novos
modelos de negócio. Um bom exemplo foi publicado no jornal Valor
Econômico . Com o título "Faculdade modelo busca sua
emancipação" o texto descreve o porquê dos brilhantes
resultados alcançados pela Faculdade de Economia e Administração e
Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão
Preto. Mais do que uma simples reunião de expoentes acadêmicos fica
claro para o leitor que a FEA desenvolveu uma fórmula única de
sucesso que concilia gestão profissional comprometida com resultados,
competência acadêmica, foco nas necessidades do mercado, além de
respeito e parceria com o cliente (estudante).
- Consultor
- SÉRGIO DUARTE VELASCO - VICE PRESIDENTE DO INSTITUTO MVC – M.
VIANNA COSTACURTA
ESTRATÉGIA E HUMANISMO
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