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ALEXANDRE FREIRE
Consultor Sênior do MVC,
Professor dos MBAs Executivos da
FGV
EXPERIÊNCIA VS. VIVÊNCIA
O QUE É MAIS IMPORTANTE PARA A
GESTÃO DE EMPRESAS?
Introdução
Ao longo de minha vida
profissional participei de inúmeras reuniões com clientes,
fornecedores, pares e chefes. Muitas delas, talvez a maioria,
foram cansativas e improdutivas. Porém, uma palavra nunca
faltou nestes encontros: Experiência. O cliente está sempre em
busca de um fornecedor experiente no ramo, o fornecedor procura
demonstrar que tem a experiência que o cliente procura, os pares
tentam constantemente demonstrar, para seus superiores, que são
experientes o bastante para galgarem novos degraus na
organização ou gerenciarem projetos de importância. Alem disso
alguns chefes, no final de tudo, mantém uma postura de
proprietários únicos da experiência universal.
Convido você a primeiro separar
experiência de vivência. Toda experiência é, por si, formativa?
Toda “situação” vivida é experiência? Toda situação vivida
provoca evolução?
Permita-me dizer que Experiência
é tudo aquilo que está relacionado ao tempo exposto à técnica,
ao know how, à tecnologia existente ou ao aspecto operacional de
uma atividade.
A vivência, por sua vez, exclui
os aspectos técnicos. A vivência é tudo aquilo que está
relacionado ao tempo que uma pessoa fica exposta à liderança,
relacionamento, controle emocional e, pasmem, à intuição.
Nas reuniões que participei
durante estes anos, estes dois termos sempre foram mal
compreendidos, e por conseqüência, algumas decisões tomadas não
deram o resultado esperado, sendo que em alguns casos, o
resultado foi catastrófico.
Independentemente se estivermos
discutindo experiência ou vivência, ambos dependem do
aprendizado. Não basta ter “passado” por um momento de crise ou
ter gerenciado um projeto para um cliente importante. Para se
adquirir experiência e vivência é preciso, diante das situações
vividas ao longo da vida profissional,
ter primeiro que digerir os
fatos, depois ter que compreender estes fatos vividos, e acima
de tudo, mudar aquilo que for necessário para buscar o
crescimento pessoal e da equipe.
Alguns líderes, diante de
críticas, buscam muletas, outros criam asas.
Vejamos alguns mitos sobre a
experiência que pairam sobre as organizações.
Os mitos da experiência
1.
A Experiência é essencial para liderar equipes
Um laboratório farmacêutico
europeu perdeu seu melhor gerente regional de vendas para um
concorrente. Após algumas reuniões rápidas entre a área de RH e
a direção da organização, optaram por um profissional da empresa
que cuja experiência incluía dez anos como vendedores da
empresa. Alçado a gerente regional de vendas da região mais
importante do laboratório, em pouco tempo, decepcionou a todos,
inclusive aqueles que apostaram na sua experiência para conduzir
a equipe regional. Afinal, ele conhecia tudo sobre a função de
vendas, alcançava todas as metas anualmente e como muitos diziam
na empresa, ele “fazia chover”. A direção da empresa descobriu
que ele era um bom vendedor, experiente na arte de vender, mas
não tinha perfil de liderança. Foi afastado do cargo, deixando
uma equipe desmotivada e clientes insatisfeitos.
2.
A experiência é proporcional ao tempo de casa
Não há nada de errado em passar
vários anos na mesma empresa. O que pode estar errado é
permanecer na mesma função em uma mesma empresa por vários
anos. Neste caso, o profissional passa a ter uma experiência
durante um longo período ao contrário de ter várias experiências
por um período menor.
Max Gehringer, um dos maiores
conferencistas da atualidade, tendo liderado várias empresas no
Brasil e nos Estados Unidos, respondeu da seguinte forma sobre o
que está sendo mais valorizado: O Saber ou a Experiência? A
experiência..., mas não aquela medida por anos de trabalho, mas
aquela que vem do conhecimento prático. Uma pessoa com 25 anos
pode, nesse caso, ser mais "experiente" que uma de 40. O
importante é não perder nenhuma oportunidade de aprender, ou
mudar de área, ou mudar de empresa.
Na escolha de um líder para um
projeto, a empresa às vezes escolhe o profissional que tem mais
tempo de casa, inclusive, na mesma função há vários anos,
acreditando que esta característica será fundamental para o
sucesso do projeto. O risco deste profissional se segurar a
paradigmas é grande, pois ele dará poucos ouvidos às novas
formas de se fazer as velhas coisas. Como a diretoria deixou
claro que ele foi o escolhido pela sua experiência, ele terá uma
postura de fazer do “seu jeito”, olhando para o retrovisor de
sua vida e buscar, a todo instante no passado, as técnicas de
gestão e soluções para os obstáculos que porventura venham a
aparecer no projeto. A experiência é a mesma coisa que conduzir
um veículo com olhos no retrovisor, apoiando-se no passado, sem
conscientizar-se de que para novos mapas são necessárias novas
rotas.
3.
Um profissional experiente sabe montar uma equipe
de sucesso
O profissional experiente monta
uma equipe com a sua “cara”! Ele ou ela acredita que ao buscar
as pessoas com identidade similar a sua, será mais fácil
conduzir o time na direção do sucesso do projeto. Estes
profissionais crêem cegamente que uma equipe harmoniosa se faz
com pessoas com a sua “cara”. Como a equipe é igual ao líder,
menos conflito terá com eles e a paz reinará até o final do
projeto. Grande bobagem! Quando montamos equipes muito
parecidas conosco, abrimos mão da competência de outros que
sabem fazer melhor, mas ignorados por serem “diferentes”. O bom
líder escolhe os membros da equipe aqueles melhores do que ele
nas várias áreas de expertise necessárias para o projeto.
Seja no escritório ou em casa,
nos deparamos constantemente com situações de conflito. Ao
contrário do que muitos pensam, equipes formadas com
profissionais de alto nível são terrenos férteis para
conflitos. A mediocridade das pessoas em uma organização gera
um sentimento de “paz” mentiroso. Neste caso, a falta de
conflito não se dá pelo bom ambiente de trabalho, mas pela
acomodação da vala dos comuns. Seja qual for o caso, nada
substitui um ambiente onde o diálogo aberto e franco prevalece.
O líder deve buscar os melhores, certificando-se que todos da
equipe respeitem os valores da organização. O resto é gestão de
pessoas.
4. O
profissional experiente pensa muito antes de tomar uma decisão
De quantas reuniões você
participou esta semana? Não lembra? Então você faz parte das
tristes estatísticas do mundo empresarial moderno. Estas
estatísticas mostram que o nível gerencial passa 50% de seu
tempo em reuniões. Já a diretoria, gasta ¾ de um dia de
trabalho enclausurada em reuniões. Do total, 85% das reuniões
são convocadas de última hora.
Parece que ninguém mais consegue
tomar uma decisão sem juntar um monte de gente ao redor de uma
mesa. Não falo das reuniões com clientes. Falo das reuniões
internas nas empresas.
O que vemos hoje nas organizações
são reuniões para fugir da responsabilidade de decidir. Afinal,
decidir, é uma ação que envolve risco. Então o que fazem:
Criam comitês, organizam grupos de trabalho, inventam equipes
multidisciplinares e chegam a constituir times de cabeças
pensantes.
Normalmente, estes encontros cada
vez mais improdutivos, são regados com muito pão de queijo,
café, água, suco e biscoitos. No final das contas, as reuniões
servem cada vez mais para tirar do gerente a responsabilidade de
decidir sozinho. A improdutividade impera porque os fundamentos
de uma reunião são desrespeitados. Pauta desconhecida,
planejamento inexistente, horários de início e término são
ignorados, excesso de participantes, interrupções constantes e
conversas paralelas. Ah, sem esquecer daqueles que saem da sala
atendendo seus celulares. Quando retornam, tudo tem que ser
repetido para que eles não fiquem para trás no assunto.
Algumas características são
comuns em todas as reuniões improdutivas:
-
Primeira – As lideranças
utilizam as reuniões para mostrar que estão trabalhando;
-
Segunda - Os gerentes
utilizam reuniões como forma de darem a si mesmos uma falsa
sensação de poder;
-
Terceira - A direção das
empresas convoca reuniões como fachada para discutir um
problema que já está decidida a solução;
-
Quarta
- As reuniões são feitas porque todo mundo faz. Ou seja,
você, como gerente, não pode ficar fora desta;
-
Quinta - Reunião com poucas
pessoas, significa complô. Portanto, os gerentes fazem uma
grande convocação, não esquecendo inclusive do estagiário;
-
Sexta – Reuniões servem para
buscar culpados;
-
E a última característica -
Convoca-se uma reunião, para no final, marcar a próxima...
E, obviamente, deixar a decisão para depois.
Quando reuniões ocorrem, tudo
pára. O cliente não é atendido. O fornecedor não é informado do
que necessitamos. A pesquisa de mercado fica para depois, e o
projeto fica em “stand by”. Estudos revelam que metade de todo o
tempo gasto em reuniões é simplesmente improdutiva! Esquecemos
que o tempo é o único insumo do mundo que não há como
recuperar. O desrespeito ao tempo de todos é um desserviço para
a empresa. O dia não tem mais 24 horas! Capacidade de decidir
rapidamente é um fator crítico de sucesso para qualquer
organização.
Se hoje, as organizações buscam
incluir em seu balanço os ativos intangíveis, como marca,
capacidade de inovação e capital intelectual, eu sugiro incluir
nessa lista a capacidade de utilização eficiente do tempo. Tempo
é um patrimônio invisível.
Talvez um dia, quando tivermos
impostos incidindo sobre o tempo, e não mais sobre as vendas,
teremos menos reuniões e mais decisões.
5. Um
experiente líder de empresas segue sempre a razão
No século XVI, a quantidade
gerada de informação no mundo caberia em 200 livros. Hoje, a
quantidade total cabe em 16 bilhões de livros. Em 1985, 12 dias
era o tempo que levava uma carta para sair do Brasil e chegar
nos Estados Unidos. Hoje, esta carta virou email, e chega em até
12 segundos!
Resumindo. No passado, tínhamos
excesso de tempo, mas faltava informação. Hoje, as coisas
inverteram. Se por um lado temos excesso de informação, por
outro lado, experimentamos a escassez de tempo.
Os gerentes de empresas estão
diante de um dilema. Ou tomam decisões rápidas, ou tomam
decisões apressadas. Qual a diferença entre as duas? Decisões
rápidas são aquelas decisões que tomamos baseadas em informações
consistentes, pertinentes e atualizadas. Considero as decisões
apressadas aquelas que tomamos com base no “achismo”, ou seja,
sem base dos fatos e dados.
A saída então seria coletar
dados, processar e analisar estes dados, gerando informação e aí
sim, tomar as decisões. Quando tiver todas as informações,
então poderei tomar uma decisão rápida. Que mundo perfeito!
Não se esqueçam que temos 16
bilhões de livros em informação disponível. O processo então,
levará muito tempo, e como sabemos, falta tempo disponível para
fazê-lo 100% na íntegra.
Eis aí o dilema real dos
gerentes! Como ter as informações pertinentes, no mais curto
espaço de tempo? Você pode optar por um software de CRM, você
pode optar por um ERP, você pode buscar estas informações com um
software de Data Mining, enfim, existem alternativas que podem
ajudá-lo.
Porém existe uma ferramenta
interna, dentro de você, que pode estar sendo pouco utilizada,
ou mesmo, sendo ignorada. A INTUIÇÃO! Se existisse uma frase que
define melhor a intuição, esta seria: ''Sei o que fazer, mas não
sei por que''. A intuição simplesmente sabe instantaneamente o
que fazer. Enquanto a razão trabalha, a intuição procede em
raios. O megainvestidor americano
George Soros sempre sabe o que fazer para se dar bem no mercado
financeiro. Quando sente dor nas costas, tem o pressentimento de
que sua decisão não é a mais acertada.
Os instintos são baseados na
vivência. Um gerente de empresas que se baseia em preconceitos e
aparências pode intuir mal. Se ele sabe ouvir a voz interior,
aquela construída em cima da vivência reconhece instantaneamente
os bons pressentimentos. Estar atento aos pequenos detalhes faz
toda a diferença. Porém, precisamos separar o que é achismo de
intuição. As mulheres nunca disseram que gostam de carros altos
porque lhe dão uma sensação de poder. Mas foi isto que uma
montadora descobriu sobre um de seus carros!
Na encruzilhada de uma decisão,
99% é informação, 1% é intuição. Mas veja bem, você até pode
errar dentro dos 99% da informação e seguir em frente. Mas errar
na intuição, não tem segunda chance.
O que é Vivência?
Revendo então. Experiência é tudo
aquilo que está relacionado à técnica, ao know how, à tecnologia
existente ou ao aspecto operacional de uma atividade. A
experiência de um profissional tem valor para o mercado enquanto
o ciclo de vida da tecnologia ou know how é valorizada. Quando o
ciclo de vida chega ao fim, morre com ele o valor da experiência
do profissional.
A vivência, por sua vez, exclui
os aspectos técnicos. A vivência é tudo aquilo que está
relacionado à capacidade do gerente de empresas de liderar, se
relacionar, manter o controle emocional e também como vimos,
perceber e ouvir a intuição (veja gráfico abaixo).

O valor da vivência nunca
acaba! O ciclo de vida dela não termina jamais. A vivência
cresce com o passar do tempo, como mostra a linha no gráfico
acima, não perdendo sua fonte de valor para o mercado, pois ela
transpassa a todos os ciclos de vida das várias experiências
profissionais de uma pessoa. Porém, não basta passar pela vida
e acreditar que tem vivência. O profissional só adquire
vivência se souber aprender sobre cada sucesso ou fracasso ao
longo da vida profissional e pessoal. Veja que incluí a vida
pessoal também!
Os fracassos, ao contrário do que
muitos pensam, são essenciais na construção da vivência,
desde que tenham servido como aprendizado. Os sucessos
devem ser encarados com humildade, pois eles podem dar uma falsa
sensação de perfeição, levando um gerente a pensar que o sucesso
na condução de empresas garantirá o sucesso das mesmas
empresas no futuro.
Aliás, importante dizer que a
ambição é necessária para quem deseja liderar empresas grandes
empresas. Não conheço nenhum profissional de sucesso que não
tenha ambição. Porém, vai aí um alerta: A ambição sem humildade
nos torna cegos e a humildade sem ambição nos torna
paralíticos! O gerente de empresas que tem vivência sabe muito
bem dosar ambas as coisas.
Discussões e Conclusões
O fato é: quanto mais
conquistamos, mais buscamos novos horizontes. Mas a ambição
profissional não é suficiente. O gerenciamento de empresas sem
talento e preparo pode gerar fracasso. É preciso disciplina, e
porque não, humildade pessoal. A humildade não é esconder o
quanto você sabe, mas admitir o quanto conhece sobre suas
limitações. A ambição nos move, a humildade nos dá a direção.
A ambição inconseqüente pode
levar você à síndrome do cachorro, quando ele corre
incessantemente atrás da roda e não sabe o que fazer quando o
carro para. Às vezes a ambição pode levá-lo a lugares
totalmente desconhecidos; verdadeiras surpresas. Mantenha seus
objetivos de longo prazo, mas não se esqueça que é no presente
que você constrói seu futuro.
A ambição é uma das forças
motrizes do crescimento profissional de um executivo. Até
Ghandi foi movido por ela. Considero Ghandi um dos maiores
gerentes do projeto de paz da terra. Em 1930, ele disse: "minha
ambição é nada menos que converter o povo britânico à não
violência, e assim lhes mostrar o mal que fizeram para a índia."
Sua ambição libertou seu país sem o uso da violência. A
vivência é muitas vezes mais importante que a experiência na
hora de gerenciar um projeto. A vivência não perde o valor, a
experiência sim. A vivência abre nossos ouvidos, a experiência
tende a fechá-los diante da presunção de que sabemos tudo. A
vivência nos ensina a entender nossos limites e nossas
incompetências. Desta forma, a montagem da equipe de empresas
será feita de forma a buscar profissionais melhores que nós
mesmos em suas áreas de atuação. Enfim, a vivência enxerga a
floresta, a experiência vê somente a árvore.
MATERIAL RETIRADO DOS PROGRAMAS COMPETÊNCIA DE IMPLEMENTAÇÃO E
GESTÃO DE CRISES
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