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CARLOS LEGAL
Consultor Sênior do MVC
LIÇÕES DE UM RETIRO BUDISTA PARA O AMBIENTE CORPORATIVO
Recentemente, me internei por seis dias num Templo Budista para
participar de uma vivência monástica e meditação. Por vários
motivos, a experiência foi sensacional. Em tempos de sucesso de
obras como o Monge e o Executivo, vivenciar a rotina intensa e
austera de um monastério me fez enxergar aspectos mais profundos
da liderança e da convivência numa organização. Essa experiência
deixou clara a importância de cada membro engajar-se num
objetivo e conduta únicos através de valores coletivos.
Cooperação, comunicação, organização, ética, eficácia e
liderança, foram percebidas por outro ponto de vista, ampliando
significativamente meu repertório frente a assuntos tão
familiares ao ambiente corporativo.
Uma
experiência como essa nos leva a uma profunda reflexão intima.
Não se trata de melhorar-se apenas como líder, mas de ampliar-se
como ser humano e incluir-se como apenas mais uma peça na
engrenagem organizacional.
Vejo essa postura como a
essência do que chamamos hoje de liderança servidora. Num
ambiente como este, somos incitados à co-responsabilidade,
inspirados por uma ética que se revela por um compromisso
natural para uma convivência equilibrada, longe de conveniências
superficiais, numa disciplina e pragmatismo, às vezes,
desconcertante para os nossos padrões. Não há espaço para
egocentrismos e seus desdobramentos. Quando se revelaram, no
perfil de um ou dois participantes mais desavisados, foram
imediatamente extirpados pela Mestra responsável, com uma
implacável assertividade e ternura impossível de resistir.
Apesar de sugerir uma visão e um posicionamento bastante
interessante para a vida prática, por questões óbvias, não
entrarei na filosofia budista, me concentrando em partes da
experiência organizacional.
Gestão do Tempo:
Apesar da agenda ser bastante intensa (atividades das 6h às
22h), havia um tempo pré-determinado para cada atividade,
inclusive o descanso. Quando não concluíamos certa tarefa no
tempo previsto, tínhamos que abandona-la, pois a prioridade
passaria para outra atividade pré-determinada pelo programa.
Isso exigia do grupo uma constante adequação da forma como
realizavam suas tarefas ao tempo disponível para sua execução.
Toda agenda deveria ser cumprida, sem exceções. Não permitir
invadir o tempo de outra tarefa e definir as prioridades no
momento é fundamental. O foco ajuda a realizar cada tarefa bem
feita e num tempo reduzido.
Liderança: Apesar
do rigor e disciplina intensos, havia por parte da liderança, um
cuidado e compromisso com o progresso de cada participante. Não
havia nenhum tipo de paternalismo, mas um interesse pela pessoa.
Ao contrário do que muitos imaginam, o pensamento Budista sugere
uma postura bastante pragmática diante de qualquer desafio.
Objetividade, percepção ampliada, equilíbrio emocional,
determinação, disciplina, tolerância, compaixão, foco e bom
humor são características muito marcantes da liderança
servidora, sendo possível desenvolver tais atributos por meio do
treino e esforço individual.
Senso de Equipe:
Para cada dia era definida uma equipe para cumprir certas
atividades, como lavar os banheiros, lavar a louça, limpeza do
templo, serviço de garçom, etc., todos deveriam passar pelo
menos uma vez, por todas as atividades possíveis. Passando por
diversos papéis, elevou-se o nível de tolerância e empatia do
grupo, pois todos enfrentaram os mesmos desafios e pressões para
cumprir as mesmas atividades, elevando o senso de equipe e
cooperação. O senso de serviço ao outro é um valor
fundamental, executar o trabalho para beneficio de todos e não
apenas para ganhos individuais.
Gratidão: Uma das
lições mais emocionantes foi a gratidão expressa durante as
refeições. Antes e após as refeições todos acompanhavam a
Dedicação dos Méritos, isto é, através de uma “oração de
agradecimento” aos agricultores, cozinheiros e quem mais havia
contribuído para aquela refeição estar disponível aos presentes.
Tal postura e cuidado demonstra o valor e respeito que se tem
por todo o “processo produtivo” de qualquer coisa que ocorra na
organização.
Comunicação e Desperdício Zero:
Na maior parte do tempo, não era permitido falar uns com os
outros. Mas durante as refeições era imprescindível a
comunicação com os responsáveis por servir e como se comunicar
sem falar? Por meio de um rápido treinamento, aprendemos um
sistema de códigos por meio das tigelas dispostas na mesa, sendo
uma tigela para cada tipo de alimento. Se o participante
recusasse certo tipo de alimento (diga-se de passagem, uma
situação deselegante e aceitável somente por restrições medicas,
pois as refeições eram deliciosas) não deveria tocar na tigela;
aceitando-a, deveria aproximar a tigela de si. Havendo
necessidade de mais alimento, a tigela voltaria para posição
inicial e o “garçom voluntário”, imediatamente serviria mais. O
desperdício era inaceitável, tudo deveria ser consumido e as
tigelas saírem quase limpas. Isso se associa ao cuidado que
cada um deve ter com o desperdício zero na organização e como a
organização, a comunicação eficaz e atenção contribuem para isso.
Ética: Uma das
orientações mais interessantes foi o da etiqueta, por meio da
sugestão de uma postura respeitosa e elegante de se portar. Por
meio dela é possível atrair e ter o respeito de todos. A maneira
de andar, de falar, de portar-se sugere atitudes calmas e suaves
visando invadir o mínimo possível o espaço alheio, cultivando a
discrição e o respeito. Sugerem esse mesmo conjunto de
atitudes ao solucionar um problema ou tomar uma decisão, sem
alardes e exageros, buscando uma forma apropriada de lidar com
situações e pessoas. Acreditam que a pessoa que possui tais
atributos gera confiança e contribuem para a ética e a
moralidade.
Por
meio dessa experiência, pude aprender que nosso processo de
aprendizado envolve a ampliação de repertório e abertura de
novos caminhos, talvez mais internos do que externos, para se
alcançar a tão necessária excelência pessoal e organizacional.
MATERIAL RETIRADO DOS PROGRAMAS LIDERANÇA, ORGANIZAÇÃO DO TEMPO
E DO TRABALHO
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