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Denize
Dutra
Consultora
Sênior do MVC,
Professora
dos MBAs Executivos da FGV
CRIAR
SINERGIAS ENTRE AS GERAÇÕES:
OS
DESAFIOS DO SETOR PÚBLICO
Em
Brasília, sede da Administração Pública brasileira, ocorreu, de
3 a 5 de junho, o 1º Fórum Nacional de Gestão de Pessoas na
Administração Pública, promovido pela ABRH. Durante o evento,
foram realizadas 14 conferências magnas e 15 Apresentações de
Casos de Sucessos. Tive o prazer de participar deste Fórum,
apresentando a conferência: O DESAFIO DO GESTOR PÚBLICO:
criar sinergias entre as gerações na era digital.
Sou filha
de um servidor publico que sentia orgulho de sua função, e a
exercia no sentido mais pleno da palavra, com o prazer de
servir ao bem comum. Por isso, ao fazer a minha escolha para
cursar o Mestrado, optei pela Administração Pública, devido à
minha necessidade de buscar entender melhor esse universo tão
complexo, e encontrar formas de intervenção, contribuindo assim
com as mudanças que se fazem necessárias, para que esta
importante função assuma seu papel de servir cada vez melhor à
sociedade. Imbuída deste espírito, tenho trabalhado junto a
algumas organizações públicas, que muito contribuíram para as
reflexões que compartilhei, nesta conferência, com um público
de, aproximadamente, 800 gestores públicos.
Meu
objetivo foi promover reflexões sobre os desafios do gestor de
pessoas (todo gestor é um gestor de pessoas!) na administração
pública, no que se refere ao desenvolvimento de suas equipes..
Parti
então de algumas premissas: a primeira - de alguns dados
sobre a situação atual do serviço público no Brasil; a
segunda - de uma pesquisa sobre tendências do trabalho em
2020, realizada pela Pricewaterhousecoopers, com 2739
MILLENNIALS, ou seja, jovens recém formados nos USA, China,
Reino Unidos, que entraram no mercado de trabalho a partir de
2000; e a terceira - da análise das diferenças entre os
perfis das três gerações, que convivem hoje nos ambientes
organizacionais, a saber: a geração BOOMERS, a geração X
e a geração Y ou NET ,ou nativos da era digital, onde se
encontram os millennius da pesquisa citada acima.
PRIMEIRA PREMISSA
Detalhando
um pouco mais estas premissas, que nortearam as reflexões sobre
os desafios dos gestores públicos, perceberemos claramente que
só existe um caminho: o da cooperação e da complementaridade.
Aproveitar o que cada geração tem de melhor e promover ações que
permitam compartilhar isto, de forma a encontrar novas soluções
para velhos problemas.
O Brasil
ficou décadas sem ingresso de funcionários públicos em seus
órgãos, devido à inexistência de concursos. Nesta última década,
com a abertura de muitos concursos, apesar do significativo
crescimento no quadro do funcionalismo público, isto não se
refletiu na melhoria visível da qualidade da prestação dos
serviços públicos em geral. Por outro lado, o gasto com a
máquina pública no Brasil é o maior da América Latina,
corresponde a aproximadamente 20% do PIB. Ora, se a sociedade
está pagando uma conta maior, na contrapartida espera ser mais
bem atendida naqueles serviços que são de responsabilidade do
Estado. Surge aí o primeiro desafio da gestão: O que precisa
ser feito para dar à sociedade serviços que atendam ao padrão de
qualidade de seus investimentos e de suas expectativas?
SEGUNDA PREMISSA
Outro
aspecto é a diferença de perfis existentes, hoje, nas
organizações públicas, que após várias décadas recebem centenas
de novos servidores, na maioria deles muito jovens, com uma
melhor formação acadêmica, com um volume de conhecimento muito
maior, porém, muitas vezes, sem a maturidade psicológica
necessária para enfrentar os entraves encontrados. Esses
entraves são, além dos de natureza estruturais, os dos próprios
colegas de trabalho, que, por terem um perfil muito
diferenciado, e também por já estarem mais desgastados, muitas
vezes, não possuem o orgulho pelo próprio trabalho e ainda
oferecem resistências a toda e qualquer proposta de inovação ou
de melhoria.
Neste
sentido, sem nenhum juízo de valor, de quem está certo ou
errado, é preciso entender que existem diferenças e que estas
precisam ser consideradas, para que se encontrem as alternativas
de uma convívio saudável e produtivo entre estas gerações, bem
como, as soluções para os diversos desafios da gestão pública.
O quadro a
seguir caracteriza algumas destas principais diferenças:
|
“BOOMERS” |
“GERAÇÃO X” |
GERAÇÃO NET |
|
1945/1965 |
1965/1977 |
1977/... |
|
Otimista
Lado positivo |
Cético
Questionador |
Interatividade
Contestadores |
|
Trabalho: razão de viver
Envolvimento
Crescimento pessoal |
Independência
Autoconfiança
Questiona autoridade |
Realização/Consumo
Diversidade
Colaboração |
|
Têm conhecimento e experiência, mas são cercados de
temor com a tecnologia |
Adaptação rápida, hoje proficientes na tecnologia |
Tecnologia é algo natural na
vida
Bem mais informados |
|
Ideal de reconstrução do mundo |
Ideal da paz, liberdade sexual, anarquismo |
Globalização
Diversidade
Multicultura |
Qualquer
um de nós, certamente, já teve a experiência de conviver na vida
pessoal ou no trabalho com representantes da geração NET
e observar alguns dos seguintes valores:
-
São
extremamente consumistas e materialistas, e ao mesmo tempo
preocupados com questões sociais;
-
Não se
interessam pela política partidária, mas estão conscientes
da necessidade de mudança do atual modelo social e
político;
-
Valorizam o relacionamento de diferentes formas
-
São
determinados e preocupados com os desafios do futuro
-
Na
Relação com o trabalho:
querem ser colaborativos e inovadores, não aceitam chefes, e
sim líderes;
-
São
imediatistas. Estabelecem diálogo por mensagem
instantânea, têm um dialeto próprio para escrever;
-
Exigem
tecnologias cada vez mais avançadas;
-
Não
percebem a separação entre o mundo real e o virtual.
Estas
diferenças exigem dos gestores de pessoas maior atenção:
-
à
necessidade de dar mais foco ao aprendizado, às redes de
relacionamento, á sua área de especialização (sem perder a
visão sistêmica);
-
à
perspectiva de crescimento horizontal;
-
à
necessidade de autoconhecimento e estimulo ao
autodesenvolvimento;
-
à
compreensão do Sujeito como
"produto","reprodutor"_"produtor" do meio; isto é, o Sujeito
assumindo a autoria de sua história;
-
à
visão holística: projeto de vida + projeto de carreira;
-
ao
significado do trabalho: missão, visão, valores;
-
à
maior ênfase no potencial individual e menor no mercado;
-
a uma
revisão na forma de atuar junto a esta geração:Seja direto,
desafie, estimule a descoberta, promova conexões, aumente a
complexidade. Proponha atividades que alternem ás duas
partes do cérebro (razão&emoção), pois a importância do
trabalho gira em torno de como o "NET" se sente sendo
parte de uma experiência.
TERCEIRA PREMISSA
A terceira
premissa, a pesquisa sobre o Futuro do trabalho em 2020, diz
respeito à seguinte crença, que eu compartilho: "O FUTURO,
COMO SE DIZ, NÃO É UM LUGAR PARA ONDE VAMOS, MAS ALGO QUE
CRIAMOS." (Michael Rendell
Líder da área de capital Humano da Pricewaterhousecoopers).
Assim sendo, pensar nestes desafios, considerando só o cenário
atual, seria empobrecer a perspectiva de análise. Por isso,
busquei, nesta pesquisa, as tendências para o futuro, que
permitissem nortear nossas respostas a estes desafios.
A pesquisa
foi realizada pela PricewaterhouseCoopers em parceria com o
James Martin Institute for Science and Civilization da Saïd
Business School - University of Oxford, e identificou três
fortes tendências:
a) Quanto
às mudanças nos MODELOS DE GESTÃO:
|
1.1 |
Grandes Corporações transformam-se em mini-estados e
assumem papéis proeminentes na sociedade; |
|
1.2 |
A
especialização promove a ascensão de redes de
colaboração; |
|
1.3 |
A
agenda ambiental força mudanças cruciais na estratégia
de negócios. |
b) Quanto
à GESTÃO DE PESSOAS, que passará a ser o maior desafio no mundo
das organizações:
|
2.1 |
Desaparecimento da fronteira trabalho e vida pessoal; |
|
2.2 |
Aplicação de técnicas rigorosas de avaliação de
desempenho; |
|
2.3 |
Crescimento da importância dos relacionamentos como
alavancadores dos negócios. |
C) Quanto
às MUDANÇAS NO PAPEL de RH:
|
3.1 |
Proativo e orientado para a estratégia do negócio; |
|
3.2 |
Direcionador da agenda de responsabilidade social
corporativa; |
|
3.3 |
Transacional e terceirizado. RH interno com foco no
recrutamento. |
ALGUMAS IDÉIAS
Estas três
tendências foram sistematizadas em três mundos: o laranja, o
azul e o verde. A grande conclusão foi que é possível que os
três mundos coexistam de alguma forma em 2020, talvez com
diferenças por regiões geográficas ou por economia.
Dependendo
do contexto e do momento em que a organização estiver, muito
provavelmente estará mais próxima de uma destas tendências, e
poderá desenhar este seu futuro inspirado por alguns dos
parâmetros visualizados por esta pesquisa.
O que nos
parece absolutamente comum a todas estas tendências é que, nesta
era digital, a globalização, a busca de harmonização, a
descentralização de poder, a democratização do conhecimento, e a
necessidade de capacitação das pessoas são aspectos cruciais e
que precisamos encontrar formas adequadas e produtivas de
maximizar os resultados das organizações, tanto privadas como
públicas.
Algumas
experiências nas empresas privadas podem servir de inspiração
para as organizações públicas, como foi a experiência da GE,
quando Jack Welch contratou aproximadamente 1200 jovens da
Geração NET, recém-formados nas melhores universidades do
mundo, na área de tecnologia, para assumirem o papel de mentor
das gerações "anteriores", ensinando como os mesmos poderiam
utilizar a tecnologia a serviço do negócio GE. Esta estratégia
promoveu, além da inovação, outros impactos na forma de
trabalhar e “viver” das gerações X e Boomers.
Outras
práticas, como colocar os Veteranos (boomers e X)
como tutores dos NET, no que diz respeito ao
conhecimento do negócio e dos processos; os programas de
Trainnees com mentoria; processos de Coaching; a
realização de projetos com competências complementares,
envolvendo profissionais das diferentes gerações; visitas
técnicas conjuntas e propostas de inovação; avaliações e sessões
de feedbacks e diversas ações de integração, treinamento
e desenvolvimento misturando as diferentes gerações já são
utilizadas e apresentam resultados positivos no que diz respeito
a criar sinergias entre as mesmas.
Qualquer
que seja a prática, o importante é que nos focalizemos mais
naquilo que une os seres humanos, do que naquilo que nos separa.
A nós, que estamos, hoje, com algum poder nas organizações,
cabe-nos refletir sobre a forma como queremos ficar na
história:- Como a geração que desperdiçou sinergias pela
intolerância e percepções contaminadas, que acabaram por fazer
da outra geração um “inimigo a ser combatido”, minando o
respeito à diversidade, a confiança, a empatia, a solidariedade,
em troca de mais competitividade. OU, - se pelo contrário, como
aqueles que protagonizaram uma virada fascinante na história da
humanidade, contribuindo para criar a sinergia essencial à
superação destes nossos desafios.
Isto me
remete a Martin Luther King Jr., quando citou "O problema não é
a ação dos maus, mas a omissão dos que deviam fazer alguma coisa
pelo bem."
Aqui no
Brasil, penso que muito mais do que criar as sinergias entre os
servidores destas diferentes gerações, precisamos levar os
Boomers, X e NET a perceberem a sua responsabilidade em
estar conectados com o ideal público e promoverem
mudanças de atitudes, independente da idade, que permita
resgatar a consciência do papel de servir ao bem comum. È
preciso, antes de mais nada, repensar a identidade do servidor
público para resgatar a sua auto-estima!
Este com
certeza será um trabalho hercúleo, pois teremos de enfrentar
alguns grandes impasses como:
-
a
contratação das pessoas x regras dos concursos;
-
a
retenção destes talentos: estabilidade X carreira
-
o
desenvolvimento de competências:
-
conhecimentos & habilidades técnicas & atitudes
-
técnica & comportamental
-
perfil
burocrático X perfil empreendedor
-
responsabilidade individual & trabalho em equipe
-
a
clareza de que valores queremos reforçar ?
-
a que
demandas queremos atender?
-
o que
precisaremos fazer para obter comprometimento dos
servidores neste atual cenário?
-
promover ascensão social e quebrar o paradigma de que o
serviço público é para quem busca estabilidade e acomodação.
-
identificar novas metodologias de treinamento e
desenvolvimento: presencial & e-learning, coaching,
mentoring, para trabalhar com uma geração que pensa e
aprende diferente.
Convido o
amigo leitor, a compartilhar comigo suas experiências para me
inspirar nesta constante busca de novas alternativas. Para isto,
proponho as seguintes questões:
-
Que
práticas bem sucedidas sua organização já adotou para
"maximizar" a "senioridade" das gerações Boomers - X
e o potencial da geração NET?
-
Quais
as alternativas para criar a sinergia entre estas gerações e
contribuir para a transformação da cultura burocrática ainda
predominante, numa cultura com foco em resultados?
"Lembra-te
que defendes não interesses pessoais, mas os de teu país. Suas
virtudes e teus vícios e tuas qualidades e teus defeitos influem
igualmente no ânimo daqueles que representas. Teus menores erros
têm sempre nefastas conseqüências."
Sun Tzu (1929-1968)
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