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Luiz Affonso Romano
Presidente do IBCO - Instituto Brasileiro de Consultores de Organização
Entrevista
Se quem me conhece não me quer mais, quem há de
querer?
Tem sido intensa, nos últimos anos, a migração de profissionais
para o segmento de consultoria. Essa busca pela atividade
é uma tendência e se deve ao fato
de o mercado constantemente receber executivos qualificados,
geralmente na faixa dos 50 anos, em busca de uma segunda
carreira após desligamentos provocados por fusões, aquisições,
enxugamento de postos de trabalho ou demissão por motivo de
faixa idade mais avançada. Com 39 anos de vivência no segmento,
Luiz Affonso Romano,
presidente do Instituto Brasileiro dos
Consultores de Organização (IBCO), professor e consultor da
Fundação Getulio Vargas e coordenador e professor do Curso
Capacitação em Consultoria, inspirou-se na situação para
escrever este ensaio, que reproduz um encontro real com um
executivo, o nome é fictício, com pouco mais de 50 anos, que
procurou o aconselhamento do consultor após ter sido informado
pela empresa que o desligamento por tempo de serviço não se
daria mais aos 55 anos, e sim dali a alguns meses. O primeiro
diálogo com o executivo, na jovialidade dos 50 anos, está
retratado a seguir:
Consultor
– O que você pensou e sentiu quando foi avisado?
Executivo
– É que chego aos cinqüenta anos capitalizado em saber, maduro,
com um MBA, patrimônio, apartamento próprio, casa na praia,
poupança, plano de previdência, cargo na alta direção, enfim,
tudo a que tinha direito... Além disso, no setor, conheço quem
importa e interessa e sou reconhecido pelo nome.
Consultor
– Ótimo, e a saúde?
Executivo
– A pressão às vezes escapole e o colesterol está um pouco
acima do normal – nada grave. Faço lá meus exercícios e ando
quando posso, quando não estou viajando.
Consultor–
Bem, e como vão os contatos sociais?
Executivo –
Pois é, ainda estou no primeiro casamento, tudo normal . De
quando em vez, ainda vamos ao teatro e cinema. Acho que me
comunico bem com as pessoas, com os companheiros do clube, por
exemplo. Aliás, até escuto mais do que falo e acho que estou por
dentro do que ocorre no mundo. Tenho dois filhos cursando a
universidade.
Consultor–
Educação?
Preparei–me e fui bem preparado pelos meus país. Estudei em,
bons não, ótimos colégios particulares; inglês, etc. Aulas de
judô para diminuir a agressividade... Formei–me em Engenharia –
era bom com os números –, fiz estágios diversos e acabei por ser
efetivado numa multinacional. Daí, fui ficando por lá, fazendo
carreira. Acabei por alcançar a Diretoria Financeira, na qual
estou até hoje...
Consultor –
Como será a dispensa?
Executivo –
Eles me prometeram ajudar na recolocação. Indenização e salário
de 6 meses, seguro médico... Mas, se a empresa que me conhece
há mais de vinte anos não me quer mais, quem há de querer?
Consultor –
E quando se dará o desligamento?
Executivo –
Acho que daqui a um ano. Por isso estou aqui, preciso dos seus
conselhos O que faço agora?
Consultor –
E até agora, após a notícia, o que você fez em relação a isso?
Executivo –
Fiquei meio que paralisado. Engraçado, não havia pensado nisso
antes. Imprudência minha, é claro, pois havia de ocorrer algum
dia. Mas achava que daria um jeito de permanecer mais tempo,
após os 55. Afinal, eles precisavam de mim – não tem ninguém com
minha experiência. Comuniquei a minha mulher– que ficou bastante
preocupada, embora não quisesse revelar. Conversei com o meu
gerente, mais moço um ano que eu, ficou meio atordoado.
Consultor –
Por quê?
Executivo
É que ele é meio pessimista e pensou nele daqui a dois anos e
revelou as suas preocupações. Ele me disse: "Não tenho casa na
praia e ainda pago pensão a minha primeira mulher, dois filhos
com a primeira e um com a segunda. Acabei por parar meu MBA – a
empresa só pagava parte. E mais, sou meio sedentário,
hipertenso, vivo de casa para o trabalho e vice–versa. Minha
diversão é a televisão e
fazer contas
para pagar gás, luz, condomínio, pensão, escola, plano de saúde,
previdência, prestações do carro, TV plana... haja carnê !
Enfim, ficou assustado.
Consultor – E você?
Executivo –
Bem, eu disse a ele que, com mais tempo que eu, tratasse de
correr atrás. Quanto a mim, tenho uma larga experiência na área
de Finanças. Daí que agora estou propenso a procurar uma
oportunidade em Consultoria, na área de Finanças. É cedo para só
ver o sol se pôr, ser babá de neto – que nem os tenho –, fazer
compras no mercado ou dar milho aos pombos, como dizia Raul
Seixas.
Consultor –
Ótimo, mas como acha que o mercado o percebe?
Executivo –
Acho que sou visto como um bom executivo de finanças,
atualizado, com os cursos em dia, leio bastante sobre a área e
até participo de um comitê. Mas uma coisa é a competência
técnica, na área financeira
–
o que, por si só, não me credencia a trabalhar em Consultoria.
Vou precisar, antes, conhecer as diversas facetas dessa
atividade, e até mesmo saber se é isso mesmo que desejo.
Consultor –
E como você crê que é e será lembrado?
Executivo –
Provavelmente, e foi aí a ficha caiu, sou conhecido como
Nestor da WYZ, o nome do crachá. Além de não ter trabalhado o
meu nome real
–
a minha marca
–,
não me afastei do enredo traçado pelos meus pais e por mim e
cantei a mesmíssima música por 20 anos. Agora, vejo com nitidez
que perdi a possibilidade de dirigir a minha vida, tornei–me
vulnerável a mudanças.
Consultor – É que é mais cômodo e fácil ser dirigido. No
entanto, você não começa do zero. Trará a memória, os serviços
que praticou até agora, e quem sabe, com um bom plano de
trabalho, poderá rever conceitos e premissas e, sem análises
apressadas, formatar um rico banco de dados – companheiros,
fornecedores, clientes, bancos, seguros, governos, advogados,
apresentando–se ao mercado de forma articulada e convincente, no
momento oportuno.
Executivo –
Mas como fazer isso? Vou ter que aprender tudo de novo aos
cinqüenta anos?
Consultor –
Esquecemos que o cérebro quanto mais estímulos recebe mais
capacitado está para fazer uma grande dobradinha com a
experiência. A maturidade passa a ser um trunfo. O Niemeyer, por
exemplo, não abandonou a carreira e é um exemplo para todo
mundo. Agora, aos cem anos, sabe mais e cria mais do que um
jovem ou, digamos, um novo idoso de cinqüenta.
Executivo –
É, tem razão. Eu, por exemplo, não me assustaria com o
subprime, os indícios estavam à vista, como estão hoje os
excessos nas vendas dos carros por aqui. Sou experiente
e já enfrentei até inflação de 5.000%, arrochos, moratória,
congelamentos, desvalorizações... Para quem está maduro, isso é café
pequeno,
principalmente para quem também leu os capítulos certos dos
livros de economia.
Consultor –
Certo, apenas você terá que aprender, talvez, a se programar e
dirigir melhor a sua carreira, redirecionando–a, com um
novo plano de vida.
Executivo –
Parece–me uma boa idéia. Quando começamos o programa para a
Consultoria?
Consultor
– Pelo início. Adotaremos o seu próprio nome e sobrenome, o de
batismo, o da certidão de nascimento. Escolha,
preferencialmente, o primeiro, que por acaso não é comum, e o
último sobrenome. Será uma bela placa.
Executivo –
Ótimo, mas não posso ainda usá–la pela minha posição na empresa
e informar que estou em desligamento. Meu contrato impede–me e
estou negociando empréstimo, contatos com o governo, importações
de insumos e matéria–prima, analisando a exportação de produtos
de alto valor agregado. A situação pode ser explorado pela
concorrência. Estou retido ainda no atropelo das minhas
atribuições.
Consultor
– Boa conduta.
Vamos traçar um plano de vida e carreira e aprender a dirigí–la.
Vamos analisar o que você sabe
e o que fará com que
sabe e o que ainda vai agregar de novo. Lembre-se, o futuro é
filho do passado.
Executivo
– Muito bem. Acho que podemos iniciar já. Afinal, tenho que ter
pressa, só me resta um ano.
Consultor
– Pois então, iniciemos com um Plano de Vida e Carreira
para os próximos dez anos. Assim, discutiremos à exaustão como
você se vê, como crê que os outros o vêem, como o mercado o
enxerga, como você gostaria de ser visto, como montar a rede de
contatos, os bons hábitos da comunicação, aumentando a sua
visibilidade, aprendendo a se apresentar; saber ouvir e
saber perguntar é importante, intervindo na hora certa... Em
Consultoria, por exemplo, a primeira reunião, de contato com o
cliente, é sempre importante, assim como tudo aquilo que você
deve saber antecipadamente sobre ele, e também, como
preliminarmente poderá ajudá–lo a superar problemas e
dificuldades. Sempre é bom indagar de quanto tempo dispomos; ser
conciso e não levar adiante um trabalho que não saiba como fazê–lo...
Além disso, terá que avaliar se há informações suficientes para
elaborar uma boa proposta para as duas partes, qual o
instrumento de trabalho que utilizará na intervenção, se ela
exigirá um período de treinamento ou não, quais as mudanças
pretendidas, como avaliar seus resultados. Quais foram as razões
para a contratação, como elaborar o diagnóstico e o Plano de
Trabalho, quais são os fatores críticos, quando e como
apresentar os relatórios... A implementação, acompanhamento e a
tão aguardada recontratação. O mercado, quem são os clientes
tradicionais e os novos, as formas de atuação dos consultores, o
marketing de serviços, as formas de atuação em consultoria...
Como aprender tudo isso? Ora, por isso mesmo estamos nós dois a
conversar. Quem sabe, após o nosso programa, lá na frente,
poderá contemplar, com tranqüilidade e satisfação, que
ultrapassou, maduro e experiente, os desafios da 2ª carreira,
que achava insuperáveis.
Verá então que aprendeu, principalmente, que as ocorrências do
amanhã serão certamente encaradas com serenidade e até bom
humor, porque já dominará a arte de planejar e dirigir a
“segunda” vida com mais qualidade, satisfação e
auto–crescimento.
Assim, vamos lá, Nestor, mãos à obra.
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