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João Alfredo Biscaia
Consultor Sênior do Instituto MVC
SEM
DELEGAÇÃO, SÓ HÁ IRRITAÇÃO
Os Fatos:
Muito provavelmente uma das maiores insatisfações existentes no
campo das chamadas competências gerenciais está situada no
processo de delegação.
São inúmeras as queixas que tenho constatado nos trabalhos que
realizo em diferentes níveis hierárquicos das mais variadas
organizações. As insatisfações são provenientes de profissionais
com posições de Direção, até supervisores de primeiro nível,
passando por gerências intermediárias.
A inexistência de processos de delegação consistentes e voltados
para a motivação, desenvolvimento e crescimento pessoal e
profissional, parece merecer uma atenção especial por parte das
lideranças.
Relaciono, abaixo, as lamúrias que têm dado mais “IBOPE”, nas
conversas que tenho tido com supervisores, gerentes e mesmo
diretores de empresas.
ü
“Meu chefe quer que eu faça todas as coisas exatamente
iguais, da forma como ele faz. Isso me deixa muito chateado e
irritado. Afinal de contas, cada um tem o seu jeito de realizar
o trabalho, desde que não haja prejuízo para os resultados
finais”.
ü
“O meu chefe não delega absolutamente nada. Ele é um tremendo
centralizador. Tudo depende dele. Por isso estou completamente
desmotivado. O meu pavio está quase apagando. Ele está sempre
está querendo saber de detalhes pouco relevantes nos trabalhos
que realizo. Não desgruda do meu pé”.
ü
“O meu chefe sempre tem que incluir algum toque pessoal no
meu trabalho. Outro dia, numa carta que redigi para um cliente,
ele alterou “prezado” para “estimado” e “atenciosamente”, para
“cordialmente”.
Não agüento mais!!! Isto
é completamente desestimulante.
Para justificar estes comportamentos, ele se auto-intitula de
perfeccionista. Mas na realidade é um baita de um pentelho.
“Acha que só ele faz tudo certo e perfeito”
ü
"Como é que eu posso aprender, se nunca tenho oportunidade de
fazer? Me diga uma coisa: como alguém pode aprender a nadar sem
entrar na água? Até hoje não tive conhecimento de um curso de
natação por correspondência. Já consultei inclusive a INTERNET e
não encontrei nada. Caso existisse, o professor por
correspondência chegaria a um momento que teria que lhe dizer o
seguinte: vá pra água”.
Você já disse, ou ouviu, alguma coisa semelhante às descritas
acima?
Exame de consciência:
Paralelamente a esses comentários, gostaria que o leitor
pensasse a respeito da seguinte situação:
Com base na sua vida real, imagine você sentado no seu “carro”
no lugar conhecido como “carona”. Pense que o motorista é a sua
mulher/marido, filho, ou um amigo muito próximo, com quem você
tem liberdade de expressar suas opiniões e sentimentos.
Faça agora um exame de consciência sobre como você se comporta,
tanto do ponto de vista de reações físicas como psicológicas,
quando alguém está dirigindo o “seu” carro.
São dois os conjuntos de perguntas que apresento para você
refletir:
Primeiro conjunto:
-
Você quer que o motorista dirija exatamente igual como você
dirige?
-
Você acha que dirige melhor?
-
Você se sente inseguro, tenso ou ansioso?
-
Você sente uma enorme vontade, quase incontrolável, de
“assumir a direção”?
-
Você dá seguidas “sugestões” e “alertas” ao motorista sobre
como conduzir o veículo? Como é o seu timbre de voz?
-
Você chama a atenção do motorista para que ele tenha cuidado
com o carro que vem trafegando em sentido contrário ao seu?
-
Você “freia”, pressionando o pé direito no assoalho do
carro, quando o sinal vermelho aparece repentinamente?
-
Você tem vontade de chegar logo no destino?
Segundo conjunto:
-
Você não está nem um pouco incomodado com a maneira como o
motorista vem dirigindo o “seu” carro? (em velocidade dentro
do limite permitido)
-
Você acredita na capacidade dele dirigir?
-
Você está relaxado, tranqüilo e sereno?
-
Você conversa normalmente sobre os mais variados assuntos?
-
Você realmente “esquece” que se encontra no “seu” carro?
-
Você não se incomoda nem um pouco se ele tem alguns hábitos,
que não sejam de risco, diferentes dos seus? (exemplos: não
puxar o freio de mão quando está em ladeira; ficar com o pé
na embreagem esperando o sinal abrir etc.)
Caso as respostas positivas estejam situadas no primeiro
conjunto de perguntas, provavelmente você é merecedor dos
comentários feitos no início.
CAUSAS DA INDELEGAÇÃO
São várias
as causas das dificuldades que as lideranças têm para delegar. A
maioria é conhecida por todos nós. Sem qualquer pretensão de ser
original, mas apenas com o propósito de relembrar, descrevo
aquelas causas que são mais freqüentes:
§
Medo de perder o controle da situação;
§
Achar que quando faço, faço melhor e mais rápido;
§
Dificuldades em aceitar que os outros façam ao seu modo;
§
Falta de confiança nas pessoas com quem trabalha;
§
Insegurança pessoal;
§
Obsessão em colocar sempre um toque final no trabalho;
§
Confusão entre autonomia e independência.
Não irrite os seus colaboradores: desenvolva-os; contribua para
que eles cresçam.
Tenho a convicção de que o processo de delegação de autoridade é
o instrumento gerencial mais eficaz para fazer com que as
pessoas se desenvolvam. Além do mais, é o mais barato e mais
produtivo processo de treinamento que existe, pois acontece em
cenário real e com isso o líder está executando uma de suas mais
nobres funções: criar herdeiros do seu trono. Só assim, ele
poderá ter condições de ser promovido, tirar férias tranqüilas,
já que sabe que tem pessoas capazes e motivadas a ocuparem o seu
atual cargo.
É oportuno lembrar que a própria palavra “desenvolver” traz na
sua origem um dos princípios da delegação: des (deixar)
envolver.
Deixar de se envolver, é dar e oferecer oportunidades para que
os outros façam, aprendam e cresçam.
Deixar de se envolver não significa abandonar, estar ausente.
Significa estar presente, sem intromissão. Delegar é ficar
disponível e dar total liberdade para que os colaboradores
possam contar com a sua contribuição, caso necessitem. Delegar
não é abdicar.
Delegar consiste em identificar uma parte do seu trabalho que
possa ser feito pelos seus colaboradores, para que você tenha
condições de se dedicar a outras responsabilidades mais
inovadoras e desafiantes. Delegar não é dar a autoridade para os
colaboradores fazerem o que já faz parte das atribuições deles,
mas, sim, tarefas e atribuições que hoje pertencem a você na
posição de líder.
Treinar, comunicar as outras pessoas envolvidas naquele trabalho
que está sendo delegado e acompanhar é parte integrante do
processo de delegação.
Um dos fatores mais esquecidos do processo de delegação reside
no fato de que a responsabilidade é algo indelegável. Os
verdadeiros líderes sabem que, mesmo delegando, continuam
responsáveis pelo êxito ou insucesso de seus liderados.
Quanto mais alto no escalão hierárquico da empresa, maior é a
responsabilidade. A responsabilidade sempre flui no sentido
ascendente da organização.
O que se deve delegar é “a autoridade” para que as pessoas
possam decidir o que fazer, sem recorrer necessariamente a
palavra final do supervisor. A “autoridade” deveria fluir no
sentido descendente das organizações, para que as pessoas nos
diversos níveis hierárquicos tivessem autonomia em poder fazer
as coisas acontecerem.
Autonomia não é
independência, agir isoladamente, sem levar em conta as
implicações de seus atos para as outras pessoas ou unidades da
organização. Quando se delega, os líderes sabem que continuam
com a responsabilidade, mas fazem com que os seus colaboradores
se sintam tão responsáveis quanto ele na condução do trabalho,
já que será cobrado por isto.
Finalmente, delegar significa conversar com os colaboradores
para identificar as seguintes questões: motivação, confiança,
conhecimento do trabalho a ser delegado, habilidade para
realizar o trabalho e experiência na execução de trabalhos
semelhantes.
Não se delega para as pessoas que não tenham as condições
mínimas para executar. Isso é irresponsabilidade.
Uma indagação final:
O motorista que você imaginou dirigindo o seu carro tinha
carteira de habilitação? Há quanto tempo? É experiente o
suficiente? Foi responsável por algum acidente de trânsito? Ele
gosta de dirigir? Demonstra confiança e segurança quando dirige?
Já conversou a respeito disso com ele? Será que ele tem o mesmo
comportamento quando dirige na sua ausência?
Se, pelas respostas acima, a posição for favorável, recomendo
que na próxima oportunidade relaxe e curta o passeio.
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