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João Alfredo
Biscaia
Consultor
Sênior do Instituto MVC
EXECUTIVO
NÃO É SACERDOTE
FATO E
DADO DA REALIDADE:
O fato
da realidade é que o livro “O MONGE E O EXECUTIVO”, classificado
na Revista Veja na categoria de autoajuda e esoterismo, ocupa
por vários anos a relação dos mais vendidos.
Impressiona-me a quantidade de pessoas com quem convivo nos
eventos que coordeno sobre “Gestão de Pessoas e Liderança”,
que mencionam os conceitos transmitidos pelo seu autor James
Hunter.
O dado
da realidade comprova que realmente além de continuar
relacionado entre os mais vendidos, as lições têm trazido
grandes repercussões e impactos nos profissionais das empresas
brasileiras.
No
entanto, sinto-me extremamente constrangido e consternado com as
ilações e interpretações que a grande maioria dos leitores faz
dos ensinamentos transmitidos nas 139 páginas deste livro.
Já ouvi, ninguém me contou,
afirmações que induzem nivelar as responsabilidades do
verdadeiro líder (executivo) com as de um sacerdote, monge,
bispo, pastor ou assemelhado.
OBSERVAÇÕES SOBRE REALIDADE:
Prestando muito cuidado, atenção e zelo
com a minha linguagem corporal, com o conteúdo e o tom de
minhas palavras, para não desrespeitar ou ofender os
princípios privilegiados pelos treinandos, não devo e não
posso me furtar o direito e a liberdade de fazer algumas
observações sobre a realidade objetiva e concreta do meu
dia-a-dia como profissional que trabalha para as mais diferentes
organizações.
-
As diferenças entre executivo e
sacerdote não existem apenas no plano conceitual/teórico,
mas notadamente nas concepções, princípios, pressupostos,
valores e motivações.
-
Um dos compromissos prioritários
das instituições religiosas e seus líderes são com a vida
depois da morte.
-
Quero deixar bem explícito que esta
afirmação não significa que inexistam ações filantrópicas,
solidárias e voluntárias por parte dos sacerdotes que são
sem a menor dúvida extremamente importante enquanto as
pessoas estão vivas.
-
Os principais compromissos das
empresas e de seus executivos são com resultados positivos
(lucro) enquanto vivos e, simultaneamente, com o
desenvolvimento do talento das pessoas que lideram, criando
um ambiente de trabalho descontraído, alegre e produtivo.
-
Os objetivos sacerdotais são o de
pregar e catequizar as “verdades inquestionáveis”, contidas
na Torá (Livro sagrado da Lei, tábua eterna do Sinai,
pergaminho imenso e venerável) no Corão ou na Bíblia.
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Os verdadeiros líderes têm dúvidas
suficientes para questionar, desafiar, colocar em cheque e
testar novas idéias e posições (Warren Bennis).
-
O tempo para o sacerdote é elástico,
pois suas missões não têm, necessariamente, prazo nem custo
para serem cumpridas.
-
O tempo para o executivo é
inelástico, é de reposição impossível, pois suas missões
têm sempre prazos e custos envolvidos.
-
Os recursos obtidos pelos sacerdotes e
assemelhados são arrecadados de seus devotos, praticantes e
crentes.
-
O dinheiro das Empresas é captado
através dos acionistas que precisam ter retorno, pois se
trata de uma responsabilidade social, que é a única maneira
de promover o desenvolvimento da sociedade, gerando novos
empregos na busca incessante de diminuir a miséria gerando
riqueza e bem estar social ao mesmo tempo.
-
Permito-me reafirmar o seguinte:
CONSIDERO O LUCRO UMA RESPONSABILIDADE SOCIAL.
-
Os lucros são o que o oxigênio, a água
e o sangue representam para corpo; eles não são o sentido
da vida, mas sem eles não há vida. (vide,“Feitas para
Durar”, de James C. Collins e Jerry I. Porras, página 90)
-
Para as principais religiões o “sofrimento” é
purificador. Exemplo: “Chorai e gemei neste vale de
lágrimas, porque o vosso reino será dos céus”, não é o
que pregam?
-
Hoje as empresas estão investindo
muito dinheiro com pesquisas de clima organizacional para
garantir a criação de uma cultura em que seus colaboradores
não “sofram” com comportamentos inadequados e autoritários
de seus lideres. (por favor, leiam a norma SA8000 que trata
da Qualidade das Relações no Ambiente de Trabalho –
Responsabilidade Social).
-
Os executivos estão cada vez mais
buscando a diversidade de opiniões, valorizando as
diferenças e não as semelhanças.
-
Os sacerdotes convivem com o
silêncio e fortalecem a obediência de seus seguidores.
-
A única resposta que os verdadeiros
líderes devem se negar a receber de seus
colaboradores é o silêncio, não a divergência.
(Warren Bennis).
-
Em razão do exposto, considero que
realmente as responsabilidades de um verdadeiro líder gestor
de pessoas parecem ser incompatíveis e contraditórias com a
de um sacerdote.
OBEDIÊNCIA, NÃO,
DISCIPLINA SEMPRE.
Obediente, segundo Aurélio,
significa: submisso, vassalo, dócil e humilde. Dócil e
humilde, quando apresentados como sinônimos de submisso e
vassalo, adquirem significados diferentes. É extremamente
agradável e gratificante conviver com pessoas dóceis e
humildes, ao contrário de agressivas e arrogantes. Submissão
e obediência significam aceitar, passivamente, verdades
inquestionáveis.
Confesso ter enorme dificuldade em aceitar
repartir o mundo entre as pessoas com base em princípios que
exigem obediência. A visão maniqueísta do mundo não deve existir
na realidade das organizações de sucesso. A “tirania do
ou”, (viva a “genialidade do e”), conforme consta
nas páginas 74, 75 e 76 do livro “FEITAS PARA DURAR”, de James
Collins e Jerry Porras. Elas comprovam cientificamente esta
minha afirmação.
Se você,
como executivo e líder de pessoas, estiver em busca apenas da
obediência, recomendo que mude de profissão, pois ainda há tempo
suficiente para se tornar um sacerdote.
Há uma
enorme diferença entre pessoas “obedientes” e “disciplinadas”.
Defendo e admiro, ardorosamente, os disciplinados e
desobedientes/questionadores, jamais os indisciplinados e
obedientes/ vassalos.
Os
simplesmente obedientes merecem minha indiferença, que é um
sentimento difícil de brotar no meu coração, mas não posso negar
o que sinto.
Indivíduos que sempre cumprem ordens sem
saber por que as estão cumprindo são absolutamente dependentes
não merecendo, no meu entender, estar na folha de pagamento da
empresa onde trabalha. Nem mesmo o líder deles. Somente nos
momentos de crise, que nunca na história da humanidade foram
eternas e permanentes, posso admitir a “obediência consciente”,
lúcida, em benefício do bem comum.
Quem é excessivamente obediente, sempre
faz tudo sem saber o que está fazendo. São verdadeiros “paus
mandados”, na maioria das vezes adoradas e idolatrados pelos
seus “chefetes”, não líderes, pois não lhe estimulam o
pensamento divergente na busca de sufocar qualquer situação de
conflito, que, no meu entendimento, é algo inerente na vida de
qualquer ser vivo e em crescimento.
UM
ESCLARECIMENTO.
Em nenhum
instante passou ou passa na minha cabeça, a idéia de identificar
qual é o melhor, executivo ou sacerdote.
O meu
único propósito genuíno sempre foi, e ainda é, o de alertar os
executivos que referenciam o livro “O Monge e o Executivo” a não
confundirem a vocação sacerdotal daquela que as empresas de
sucesso exigem e querem de seus profissionais, de qualquer nível
hierárquico.
UMA
REFLEXÃO FINAL.
Danuza
Leão, em seu artigo na Folha de S.Paulo de 15 de março de 2009,
afirma que “não se incomodaria nem um pouco se fosse
excomungada”.
Pegando
carona nesta frase eu também afirmo o seguinte: “não me
incomodaria nem um pouco se fosse exonerado de uma organização
que privilegia o pensamento único e abomina divergências de
opiniões e sentimentos”.
A
propósito, solicitaria demissão antes que isto viesse
acontecer, mesmo com toda crise porque estamos passando. Prefiro
a liberdade à opressão, é uma questão de escolha.
Fale
com o Biscaia:
biscaia@institutomvc.com.br
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