Edição Nº. 194 - 17 a 23 de Junho de 2009 | Edições anteriores, clique aqui!

 

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  O "NÃO" na Comunicação

 Desconstruindo o Não

Quem entra no site oficial de Gisele Bündchen fica sabendo que a bela ouviu muitos “nãos” até se consagrar como a mais poderosa Top Model do mundo. E Albert Einstein chegou a ouvir de um dos seus professores no ensino secundário que ele nunca serviria para nada. Se essas personalidades que inscreveram seu nome na história tivessem dado ouvido às vozes externas, o mundo certamente seria mais pobre em beleza e cultura científica. Leia mais



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O "NÃO" NA COMUNICAÇÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

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Eunice Mendes

Consultora Sênior do Instituto MVC

Autora de 03 livros entre os quais Falar Bem é Fácil

 

 

DESCONSTRUINDO O NÃO

 

 

Quem entra no site oficial de Gisele Bündchen fica sabendo que a bela ouviu muitos “nãos” até se consagrar como a mais poderosa Top Model do mundo. E Albert Eisntein chegou a ouvir de um dos seus professores no ensino secundário que ele nunca serviria para nada. Se essas personalidades que inscreveram seu nome na história tivessem dado ouvido às vozes externas, o mundo certamente seria mais pobre em beleza e cultura científica.

 

Foi esse raciocínio rápido que suscitou uma interessante discussão em um dos meus grupos de treinamento, quando um dos participantes se declarou irremediavelmente tímido e sem condições de levar adiante a proposta de trabalho daquele encontro. Percebi, então, que o papel do instrutor ia além de aplicar técnicas para desenvolver naquelas pessoas o desembaraço e a segurança necessários para fazer apresentações em público.

 

Intuitivamente, e talvez com base no que foi observado em grupos anteriores, soube que era o momento oportuno de levar ao grupo um pensamento de Eleanor Roosevelt: “Ninguém pode fazer você se sentir inferior sem o seu consentimento”. Tamanha verdade traz uma reação imediata: encontrar respostas que afastem de nós a responsabilidade por esse sentimento.

 

E voltei à insegurança dos tempos de minha adolescência, quando um corpo magro e alto me tornava diferente e esquisita, se o padrão fosse as meninas da escola e do meu círculo de amigas. Andar com os ombros curvados e baixar os olhos ante qualquer situação decisiva passaram a ser atitudes que assumi, sem que ninguém tivesse me condenado a tanto. Ser menor, encolher-me diante do que a minha natureza biológica tinha determinado, era uma escolha minha.

 

Hoje, após de tantos anos estudando e lidando com o comportamento de pessoas únicas em sua expressão humana, me dou conta de que lá, naquele ponto de minha história, definiu-se se eu seguiria cabisbaixa ou se olharia a vida de frente. A extraordinária vontade de desbravar mundos, a inesgotável sede de conhecimento e a ambiciosa perspectiva de independência cultural e financeira foram alongando minha coluna até meus ombros alcançarem a altura do meu potencial. Na retaguarda, como um guardião a reerguer minhas asas a cada vez que elas tendiam para baixo, estava meu pai, a dizer que eu era uma menina com estrelas nos olhos. Eu não poderia ter como meta nada menos que o horizonte ilimitado.

 

Juntei a militância de Eleanor Roosevelt, à persistência de Gisele Bundchen e a pesquisa de Albert Einstein e neles resumi o desafio que os seres humanos de todos os tempos e lugares enfrentam no desenvolvimento de seu corpo emocional e social. Uns porque cresceram além do modelo da sua sociedade, outros porque fugiram dos padrões escolares rígidos, e tantos porque foram açoitados pela palavra cruel de quem não soube respeitar e incentivar seus esforços para ser uma pessoa melhor.

 

E por vezes crescemos envergonhados da nossa natureza singular, que faz de nós peças originais de um imenso painel humano de tons e sobretons. Mas não entendemos essa singularidade, não nos convencemos de que sem a nossa presença e energia o painel seria, certamente, pobre, sem graça, falso. Nossas convicções, que nos mais tímidos são como gotas de cristal, se fragilizam diante do discurso exigente de certos sistemas que privilegiam o belo, o sarado, o bem falante.

 

O efeito pode ser perverso, até danoso em personalidades mais tímidas e carentes de auto-estima.  Como um grande olho a espreitar o primeiro deslize de quem se expõe para uma platéia, um chefe ou um amor, as vozes da menos-valia, vindas de fora ou nascidas do eu profundo, podem sobrepor-se à outra que impede de nos sentirmos inferiores. E deixamos cair por terra, às vezes por causa de uma única palavra, comentário ou gesto o valor de ser exatamente o que somos: seres em construção permanente e honesta.

 

E, assim sendo, um dia acertamos. Em outro erramos. Ou temos a oportunidade de nos rever, de nos recompor. E sempre haverá tempo para correr atrás dos pedaços desgarrados que nos foram arrancados por mãos maldosas e até abandonados por nós mesmos, quando não nos julgamos tão perfeitos quanto os outros (a sociedade, a família, o grupo social, a cultura de uma época) esperam que sejamos.

Meu aluno naquele grupo de treinamento não perdeu uma palavra da viagem para dentro de mim mesma. Eu sabia que não poderia levá-lo a dimensões tão profundas, porque esse era um território meu. Ele teria que empreender sua própria jornada, assim como tenho feito, pois é essa a tarefa que nos cabe. Mas acredito ter despertado nele a curiosidade e transmitido a responsabilidade de rejeitar o rótulo de inferior, qualquer que fosse a sua origem.

 

E ainda lhe dei uma pista do que iria encontrar na caça ao tesouro em seu interior. Aqueles pedaços que se desgarraram guardam as células que darão origem aos reis e rainhas que governarão o nosso vir a ser. Nada menos que reis e rainhas, se nos empenharmos.

 

Outros textos poderão ser encontrados no site www.institutomvc.com.br

 

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