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  Crítica Desconstrutiva

 Crítica: Construtiva, Destrutiva ou Desconstrutiva?

A afirmativa de Fernando Pessoa de que “o universo não é uma idéia minha, mas a minha idéia de universo é uma idéia minha” deixa clara a necessidade de que cada um de nós, componentes de um contexto que envolve comunicação, tem uma visão particular dos fatores que interferem em nosso meio. Ao elaborar e transmitir uma crítica, ou ao recebê-la há que considerarmos a percepção do emissor, e a percepção é algo muito pessoal, não há erros ou acertos há adequações ou inadequações.

 

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CRÍTICA DESCONSTRUTIVA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Francisco R Bittencourt

Consultor Sênior do Instituto MVC,

Professor dos MBAs Executivos da FGV

 

 

CRÍTICA: CONSTRUTIVA, DESTRUTIVA OU DESCONSTRUTIVA?

 

 TANTAS CABEÇAS, QUANTAS SENTENÇAS:

CADA UM TEM O SEU MODO DE VER.

Terencio, 195-159 A.C.

  

INTRODUÇÃO

 

Fazer uma crítica faz parte do dia a dia de quem está envolvido com processos produtivos, de quem lidera equipes, de quem faz parte de grupos comprometidos com projetos, de quem tem um movimento social intenso. Desta forma a crítica é um elemento indispensável na comunicação interpessoal; classificá-la de destrutiva ou construtiva, pelos manuais de comunicação é tarefa de quem recebe a crítica. Mas não é sempre assim que os críticos entendem...

 

CONSTRUIR, DESTRUIR, DESCONSTRUIR...

 

Ao se comunicar, o emissor se vê diante de três a serem praticadas entre ele e o receptor (a pessoa que o ouve):

 

a)    A locução, ou fala locucionária – a sua mensagem propriamente dita, o que ele diz ao receptor;

 

b)    A ilocução, ou fala ilocucionária – o que ele faz (age) para consolidar a sua fala, tentando influenciar o receptor;

 

c)    A perlocução, ou fala perlocucionária – o impacto que o emissor provoca no receptor, ao falar ou agir.[1]

 

Ao se comunicar com o receptor, o emissor tem duas opções de abordagem:

 

·       Comunicação não ameaçadora, meio pelo qual ele usa uma forma onde questiona o seu interlocutor, descrevendo os fatos, para que ele os entenda a partir da sua visão;

 

Æ  Coloca-se na posição de seu interlocutor (receptor), mostrando a ele que está sentindo perfeitamente os impactos que o receptor sente ao receber sua mensagem;

 

Æ  Permite ao interlocutor fazer correções na mensagem (uma ordem, uma instrução), quando ele percebe que ela tem incorreções;

 

Æ  Pratica a escuta eficaz, esforçando-se no sentido de perceber se sua mensagem faz sentido, se o receptor (interlocutor) está entendendo a mensagem da mesma forma como ele a transmite;

 

Æ  Pratica a escuta ativa, associando à sua fala uma expressão corporal, não verbal, compatível (coerente) com o que está dizendo ao receptor.

 

·       Comunicação ameaçadora através da qual ele usa uma forma que julga o interlocutor, mostrando sinais claros de afastamento:

 

Æ  Mantém-se distante do interlocutor, não facilitando uma interação que facilite a discussão entre as partes envolvidas;

 

Æ  Inflexibilidade na mensagem, não deixando margem para constatações ou revisões de pensamentos ou idéias;

 

Æ  Sem preocupação com o sentido, e, com isso sem verificar se a mensagem emitida por ele está sendo compreendida pelos interlocutores da mesma forma como foi emitida por ele.

 

Æ  Expressão oral sem coerência, onde o que está sendo dito não está necessariamente associado à realidade do contexto ou da situação sob análise;

 

Æ  Expressão não verbal inexpressiva, onde o interlocutor que emite a mensagem não demonstra preocupação em reforçar, com a linguagem corporal, seu discurso ou fala argumentativa.

 

Ao emitir uma mensagem, o emissor decodifica a mensagem crítica que vai levar ao receptor, de forma que ele, emissor entenda perfeitamente o que quer e pretende repassar...

 

Ao mesmo tempo ele entende que deve decodificar a mensagem, no sentido de que seu interlocutor a entenda, nas mesmas dimensões e com a interpretação que ele, emissor, gostaria, ou entende que ele deveria absorver.

 

Este exercício facilita a transmissão e a absorção, pelo interlocutor, do que está sendo dito.

 

A crítica, pelas suas características assume uma posição muito especial...

 

É entendido que o julgamento provoca reações, o questionamento provoca reflexões...

 

A crítica, portanto deveria ser marcada pelo questionamento, e não pelo julgamento...

 

DESCONSTRUÇÃO

 

Ao receber uma crítica onde o foco envolve um elogio, ou um reforço de atitudes ou de resultados, o receptor entende que, no futuro, deverá procurar uma forma de aperfeiçoamento.

 

Ao receber uma crítica onde o foco envolve uma percepção negativa, ou uma mudança de atitudes ou de resultados, o receptor entende que, no futuro, deverá procurar uma forma de rever o que fez, procurando eventuais erros ou desacertos, e corrigir a forma, o conteúdo, o processo...

 

Ou seja, será necessário, em qualquer uma das hipóteses alterar o que foi feito. Em outras palavras será necessário desconstruir o original, e trazer uma versão aperfeiçoada.

 

Haverá situações onde o receptor, quando recebe uma crítica “construtiva”, não mexa no que fez?

 

O ego de um gerador de decisões, de um elaborador de conceitos, de um executor de tarefas ficaria satisfeito com um “elogio”, sem considerar a possibilidade de melhorar o que fez?

 

CONCLUSÃO

 

A afirmativa de Fernando Pessoa de que “o universo não é uma idéia minha, mas a minha idéia de universo é uma idéia minha” deixa clara a necessidade de que cada um de nós, componentes de um contexto que envolve comunicação, tem uma visão particular dos fatores que interferem em nosso meio.

 

Ao elaborar e transmitir uma crítica, ou ao recebê-la há que considerarmos a percepção do emissor, e a percepção é algo muito pessoal, não há erros ou acertos há adequações ou inadequações.

 

É fundamental que sejam esquecidos os julgamentos, adjetivamentos, observações nas quais se ressaltem elogios enaltecedores ou críticas contundentes. É fundamental que o autor da crítica leve em consideração que, a não ser por total e irrestrita irresponsabilidade, o autor da crítica perceba que o emissor pode não estar preparado para receber uma torrente de observações que coloquem por terra tudo o que fez.

 

A crítica é válida.

 

A crítica serve de alavanca para o aperfeiçoamento da ação original.

 

A crítica alimenta a reflexão que o gerador da decisão original faz sobre sua ação inicial.

 

O importante, na crítica é que, no momento em que seu alvo a recebe, dirija seu foco para o que fez, como o fez, e de que forma desenvolveu o processo para executar sua tarefas, processo ou projeto.

 

Se ele concentrar seu foco na ação pessoal, no seu desempenho individual, o foco no que fez se tornará secundário e a crítica perde o sentido.

 

Será fundamental, por isso, que a crítica se dirija ao ato, à operação, ao processo, ou seja na forma como as coisas foram feitas, e não em quem fez...

 

Desta forma, a possibilidade de reconstruir o feito será dirigida à possibilidade de crescimento, desenvolvimento e aperfeiçoamento, e não somente a “engolir em seco” a crítica e tentar “corrigir o erro”.

 

[1] HABERMAS, Jurgen. Teoria da Ação Comunicativa.

 

 

Outros textos poderão ser encontrados no site: www.institutomvc.com.br/Biblioteca

 

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