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Lena Almeida
Consultora Sênior do Instituto
MVC,
co-autora do livro Falar Bem é
Fácil (3º edição)
QUANDO O PAI É O PATRÃO
Segundo pesquisa realizada em
2008 por Pedro Podboi Adachi e Eduardo Najjar, do Núcleo de
Estudos de Empresas Familiares da ESPM, as empresas familiares
representam mais de 80% do total de companhias do Brasil e
respondem por até 70% do Produto Interno Bruto (PIB) da América
Latina. Um outro dado curioso da pesquisa é que a falta de
profissionalização e planejamento dos futuros dirigentes, quanto
às peculiaridades da administração das empresas, comprova os
altos índices de companhias que não passam da segunda geração.
É muito comum, numa empresa
familiar, que os filhos ocupem cargos de confiança, mesmo sem
ter desenvolvido os conhecimentos e habilidades necessários ou
mesmo sem a maturidade suficiente para exercer com competência
as funções requeridas.
Os donos logo pensam: são meus
filhos, vão herdar todo esse patrimônio e nada mais óbvio que
assumam desde cedo a responsabilidade de tocar os negócios... se
já trouxemos até aqui com sucesso, eles, os filhos, serão o
nosso futuro. Tudo isso costuma ter como base o amor e uma
grande vontade de que os herdeiros assumam logo o trabalho e
peguem gosto pelo negócio.
Quando o convívio profissional se
inicia, pode começar também a confusão de papéis. E há um grande
perigo dessas relações ficarem fora de ordem, enroladas,
confusas e por vezes desgastadas.
Uma profissional muito jovem, de
apenas 20 anos e já no cargo de gerente, da empresa de seu pai,
procurou-me para queixar-se da relação com o mesmo. Relata que
ao chegar da balada no domingo à noite, encontra o pai
esperando-a de cara amarrada, olhando-a bravo, em silêncio e sem
comentar absolutamente nada vai dormir.
Na segunda-feira, logo cedo,
chama-a, juntamente com o seu assistente e faz várias cobranças,
de forma dura, porém dirigindo-se sempre ao assistente e nunca
a ela, que é a gerente. Ao saírem da sala, o assistente diz não
entender nada e questiona-a sobre o que está acontecendo com o
pai ou patrão.
Ela vai ao banheiro chorar e se
recompor para “tocar” as atividades, mas passa o dia todo
desmotivada e incomodada, porém sem espaço e nem coragem para
falar com o pai/patrão.
À noite, quando chegam em casa e
vão jantar, ela relata que o pai está ótimo, sorridente e ela
muito mal.
O que fazer? Como me comportar?
Sinto que vou adoecer se as coisas continuarem assim...
O passo número um foi entender os
vários papéis que ambos assumem e para isso começamos pelo
profissional, elaborando uma descrição de seu cargo de gerente,
com todas as atribuições. Mapeamos o quanto ela estava perto ou
longe das funções requeridas. Tomou um susto ao se dar conta dos
conhecimentos que ainda lhe faltavam, das habilidades a treinar
e quanta experiência ainda por adquirir. Esse foi um passo muito
importante para que entendesse o mundo do trabalho, com
necessidades de posturas, atitudes e resultados diferentes dos
que tem como filha.
O outro passo foi compreender o papel de filha.
Dizia para mim: “Eu sinto muita falta
do meu pai”. Às vezes chego em casa, após um dia de trabalho
exaustivo e não posso aconselhar-me, pedir ajuda, compartilhar
nada, pois aquele homem é também meu chefe... Como posso falar
do meu chefe para o meu pai? Nunca!!!. Fico pensando que se ele
não fosse o meu chefe, talvez pudesse me dar muita força. Adoro
meu pai, ele é o máximo, mas o trabalho nos distancia.
Criamos um jogo para exercitar o
lugar de filha e o lugar de gerente. Para isso o sobrenome da
família serviu para o papel de filha e seu nome com o sobrenome
da empresa para o papel profissional. Ela foi criando diálogos
para conversar com o pai e com o chefe e ia treinando comigo as
conversas que teria após os nossos encontros. Por vezes filmei
as conversas para que ela pudesse analisar posteriormente e
rever sua forma de falar nos diferentes papéis. Pôde notar a sua
doçura e sua seriedade. Sua vontade de corresponder às
expectativas.
A compreensão e a distinção dos
papéis diferentes passou a beneficiar sua relação e mesmo não
reproduzindo na integra as conversas que tinha treinado,
relatava que mudou o seu olhar na empresa passando a assumir o
seu cargo com mais firmeza. Pediu a ajuda do tio para tomar
decisões mais acertadas como profissional. O tio disse-lhe:
Agora sou eu quem vai ser o seu mentor aqui na Cia. Embora as
relações não sejam totalmente leves no ambiente profissional,
ela diz sentir-se mais firme em ambos os papéis e construindo um
novo jeito de funcionar, diferente do antigo.
Um outro cliente, cujo pai era um
distribuidor de calçados, trabalhava meio período para ajudar a
mãe nas atribuições da empresa. Sonhava desde menino em ser
aviador, mas com os negócios crescendo e a família apostando no
único filho homem para desenvolver o empreendimento, sugeriu que
fizesse contabilidade. O jovem, obediente, foi para
universidade e até que se saiu bem, mas ao me procurar disse a
seguinte frase... eu vou me matar de vender sapato porque um dia
no futuro esse dinheiro que estou ganhando é para fazer o “pé de
meia” que vai permitir pagar o meu curso para VOAR.
Esse profissional fez o dever
de casa corretamente; ajudou o pai nos controles administrativos
e com a ajuda da irmã mais nova, que cursou comércio exterior,
informatizou e deu um ar de modernidade a toda a empresa. Ficou
feliz e aliviado quando percebeu que a irmã, então com 19 anos,
estava integrada e vibrando com os negócios da família
(negociava com os fornecedores com o mesmo estilo do pai,
assumiu as viagens de negócios, informatizou toda a área de
estoque e passou a administrar de uma maneira mais profissional
as vendas internas e externas). O irmão, vendo esse desempenho,
cuidou de, aos poucos, buscar os seus sonhos: inscreveu-se na
escola de pilotos, formou-se e todos os fins de semana fazia
vôos de treinamento para concluir o seu curso. Fez tudo isso
escondido dos pais, com medo, principalmente de decepcionar o
pai. Após 9 anos de formado e já tendo revelado que voava como
hobby, conseguiu um emprego como piloto e teve coragem de
negociar com o pai a liberação para pilotar e conciliar com o
trabalho na empresa. O pai a princípio se sentiu abandonado e
contrariado, mas ao ver a alegria do filho ao retornar de um
vôo, aos poucos foi respeitando e valorizando a sua escolha.
Atualmente cuida da área financeira junto com uma assistente e
voa de 4 a 6 vezes por mês, com o consentimento do pai, mas com
este sempre lhe dizendo: filho, não se descuide do que é seu!
Acompanhei outro caso em que o
empresário alocou os seus dois filhos como diretores. Um deles
disse: estudar pra quê? Isso tudo já é meu mesmo! Impunha suas
idéias e pouco era respeitado pelos subordinados, desrespeitava
o pai o tempo inteiro dizendo ser uma edição melhorada dele e,
portanto, suas idéias eram mais brilhantes e deveriam ser
acolhidas... Nem vou relatar o resultado dessa experiência.
Esses são três casos que
ilustram o tanto de energia gasta dos dois lados; os pais
desejosos que seus filhos tenham algo pronto e que não sofram o
tanto que eles sofreram... Querendo o melhor e o mais leve para
os filhos. Em contrapartida, muitos filhos não se identificam
com aquele ramo de negócios, têm os seus próprios sonhos e se
sentem com uma bola de ferro nos pés, presos e com receio de
decepcionar os pais.
Há pouco tempo fui a uma palestra
sobre RO (Requisite Organization) ministrada pelo professor
Décio Fábio de Oliveira Jr. Ele cita uma metodologia criada por
um canadense, Elliott Jaques, (1917-2003) que desenvolveu vários
conceitos originais, incluindo o conceito de cultura corporativa
(1951), e uma teoria organizacional baseada no uso do julgamento
e discernimento dos empregados (1956).
A metodologia mostra de forma
numérica o quanto um indivíduo com as suas capacidades alocadas
no cargo certo, pode se sentir adequado, pertencendo e gerando
resultados em suas atribuições.
Quando se seleciona um candidato para uma função,
seja um CEO ou o trabalhador da linha de frente, é importante
encontrar alguém que está disposto a fazer o trabalho que é
necessário e que tenha também as habilidades requeridas. Precisa
ter a capacidade cognitiva para lidar com a complexidade que o
cargo exige.
Então, só o amor e a confiança
nos filhos não garantem que a empresa vá se sair bem.
Elliot Jaques diz da necessidade
de o empresário garantir os profissionais de que necessita nos
lugares certos – agora e no futuro.
A metodologia tem sido usada em
muitas organizações para predizer o sucesso que os indivíduos
poderiam ter em tarefas seniores.
Provavelmente muitos empresários
ainda não saibam que existem métodos eficientes para verificar a
adequação de seus funcionários, inclusive filhos, no desempenho
de um cargo, bem como instrumentos de planejamento sucessório e
governança corporativa, tais como acordo societário, conselho de
administração.
Quando nos sentimos capazes e
felizes no exercício de um cargo, há possibilidade de tudo fluir
naturalmente. Dê uma chance para o seu filho trilhar o próprio
caminho. Se a escolha do filho(a) for a empresa familiar, eis
algumas dicas para ele(a):
-
Não se acomode por receber a
empresa já pronta, se ela parar em você... morrerá.
-
Veja se tem aptidões que vão
ajudar a empresa a ir adiante.
-
Encoraje o fundador a
profissionalizar;
-
Busque, se possível,
experiências fora da empresa familiar antes de assumir
qualquer cargo na mesma.
Saiba que você tem muito a
aprender para fazer por merecer esse lugar de honra.
Outros textos poderão ser encontrados no
site:
www.institutomvc.com.br/Biblioteca
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