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FRANCISCO BITTENCOURT
Consultor Sênior do MVC, Professor dos MBAs da FGV
O FOGO DE ENCONTRO E A NEGOCIAÇÃO
Introdução
Descansando no interior de Minas Gerais, em uma cidade com pouco mais de 2.000 habitantes, fui despertado por gritos de “fogo!”, “fogo!”, por parte de um grupo de pessoas da cidade, que passava pela rua.
Ao chegar à janela, que dava para a rua, típica das construções do século XVIII, percebi que o morro localizado em frente à minha casa estava tomado pelo fogo, causado por um rojão (era um dia de festa religiosa, e alguém deve ter lançado um destes rojões, à passagem da procissão e ele caiu no alto do morro).
O calor e a falta de chuvas provocou um incêndio, que se alastrou de imediato, tomando uma área significativa, e ameaçando os terrenos e as casas localizadas naquele lado da rua (felizmente minha casa está localizada do outro lado).
Não há unidade do corpo de bombeiros na cidade, o mais próximo está localizado numa distância de 30 quilômetros. Restavam os próprios cidadãos, com seus recursos precários (se é que poderiam ser chamados de recursos).
Depois de algumas cenas de desespero, o fogo já estava alto, e começava a ameaçar a estrutura de uma dezena de casas localizada ao pé do morro.
De repente apareceu um personagem que deixaria Guimarães Rosa com inveja. O Zé Laúza, um “faz-tudo” da cidade, um cidadão de pouco mais de 60 anos, que toma conta de uma das casas da rua, a que fica exatamente em frente a minha, e que pertence a um casal de amigos queridos, que não havia chegado ainda para o feriado.
Zé Laúza veio, parou a meu lado e a uma pergunta minha, sobre como resolver o problema, respondeu: é só montar o “fogo de encontro”. Perguntei o que era “fogo de encontro”. E ele me respondeu: “quando você quer convencer alguém de que a idéia dele não presta para nada, o que você faz? Descobre o segredo dele e mostra que você sabe mais do que ele. Como ele é pego de surpresa, aceita a sua idéia. Assim é com o fogo. Tenta descobrir para onde ele vem ou vai, e aí, bota fogo na posição contrária. Quando o fogo que vai (o fogo de encontro) fica frente a frente com o que vem, o fogo acaba”.
E assim foi. Dez minutos após a chegada do Zé Laúza e sua idéia, não havia mais fogo, e tudo havia sido preservado, exceto o matagal no morro (não havia plantações, simplesmente mato).
Essa experiência me transportou imediatamente para o ambiente das negociações. Substitua-se o fogo por conflito e teremos um recurso importante para nossos processos negociais.
O Encontro das Negociações
Um ministro importante em seu tempo, pela influência que exercia sobre seus companheiros de governo e de partido, o que incluía o Presidente da República, em determinado momento, sabedor de seu estado de saúde terminal, transmitiu um recado ao presidente, seu superior, mas antes de tudo, amigo: “não se apequene...”
Sábias palavras... Tão sábias que aplicáveis em diversos momentos de uma vida produtiva. Em uma negociação é essencial que se tomem algumas medidas para que o conjunto de atitudes e comportamentos que compõem o processo negocial não resvale para o conflito explícito, sem significado, e o que pode ser pior, para um final desastroso (lembre-se sempre do “fogo de encontro”).
Diante do interlocutor, com seus objetivos e suas metas, torna-se necessário descobrir qual o caminho que ele pretende tomar, para que possa ser esperado com uma solução. Antes de entender a objeção do interlocutor como um obstáculo faz-se necessário perceber que anseio ou expectativa ele carrega, seja no sentido de obter um esclarecimento mais efetivo, seja de uma outra natureza qualquer, que precise ser atendida.
O objetivo em atingir os resultados de uma negociação requer, de seus interlocutores, um conjunto de atitudes voltadas para a consecução dos resultados, quer seja o acordo, quer seja o aprimoramento nas relações produtivas entre as partes negociadoras.
Este conjunto de atitudes, a ser aprimorado e consolidado durante a etapa de planejamento da negociação levará ao encontro das expectativas e anseios do interlocutor, facilitando a neutralização, quando não superação das diferenças que dificultam a consecução de objetivos negociais.
Orientação para um processo negocial efetivo
O conjunto de variáveis que se segue permite o mapeamento que dê a orientação do negociador, com vistas ao encontro efetivo com seu interlocutor:
a) Orientar melhor suas relações com a comunidade negocial: qual é a questão fundamental? Observar o processo negocial como um todo, e não em partes ou dados que não se intercomuniquem;
b) Prevenir, evitar, reduzir problemas, conflitos e perdas: utilização de recursos facilitadores disponíveis que superem as dificuldades decorrentes destas ocorrências;
c) Agir com segurança: saber onde está, com seus passos previstos e bem calculados;
d) Agilizar a memória: um recurso importante da mente humana, a memória, quanto mais utilizada, mais ágil se torna o negociador;
e) Esquematizar e solucionar problemas: dividir o problema de seu interlocutor e o seu próprio problema em partes, esquematizando o problema, e com isso, aprofundar o tratamento de seus vários aspectos, cuidando de sua relevância e importância em relação ao resultado a ser alcançado.
f) Expandir sua consciência: não se apequenar...
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Não se apequenar...
O negociador é um solucionador de problemas: seus e de seu(s) interlocutor(es). Ao se preparar para um processo negocial, faz-se necessário entender que não deve se limitar somente ao seu universo. Deverá entender, de forma consistente, o universo das pessoas ou instituições com as quais deverá ou precisará negociar.
a) Coragem: abandonar conceitos tradicionais, reconhecer que as coisas estão mudando;
b) Abrir mão: libertar-se de velhas idéias e desenvolver novas idéias;
c) Olhar para dentro: atitude introspectiva para descobrir o que foi feito de bom e o que pode ser melhorado;
d) Compromisso: ser fiel a uma idéia;
e) Know-how: saber como fazer as coisas.
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Entender o contexto da negociação
O negociador, diante de seus interlocutores não pode nem deve se limitar a levar em consideração sua visão e sua percepção do processo negocial.
Ele faz parte de um contexto mais amplo, pois há variáveis sobre as quais não tem acesso ou controle.
Ele deve considerar, portanto, todos os fatores que influenciem, de forma significativa o cenário no qual está inserido: a negociação.
Deve considerar, de maneira especial, todo o arsenal de estratégias e táticas que fazem sentido durante os momentos em que estiver frente a frente com seus interlocutores.
Vale observar, conceitualmente:
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Estratégia: qual a informação que preciso saber, ou seja, quem está dando, ou onde se encontram as informações necessárias para essa negociação?
As atitudes negociais devem ser pautadas por um conjunto de características que tenham como finalidade entender o processo a partir não somente de seu ponto de vista, mas também, e principalmente, do ponto de vista do interlocutor.
Este “fogo de encontro” permitirá ao negociador deixar de cometer erros que comprometem o processo e, por conseguinte, seu resultado:
a) Verificar o nível de autoridade que possui, para consolidar o processo negocial; a decisão, em uma negociação deve estar fundamentada em uma amplitude capaz de permitir que a decisão tomada, e a atitude assumida diante do interlocutor tenham uma base sólida de consistência e autenticidade;
b) Não dar murros em ponta de faca; verificar se tem competência para alterar determinados aspectos do processo negocial, sem comprometer sua credibilidade como negociador;
c) Não perder tempo com assuntos ou detalhes que, mesmo comprometendo a negociação, não agregam valor ao seu resultado; fugir das “picuinhas” e problemas menores, que provocam fumaça, mas não levam conteúdo à negociação;
d) Verificar se suas iniciativas são capazes de gerar foco nas causas e não nos efeitos, criando soluções apressadas, imediatistas e simplistas, em vez de contribuir para a consolidação do acordo ou outro resultado da negociação;
e) Lembrar-se de que informações, buscadas na fonte certa e utilizadas para acrescentar consistência ao resultado da negociação são sinal de competitividade, e por conseqüência, de competência negocial;
f) Não permitir que a pressão ou fatores externos decida por ele na negociação. Segundo Peter Drucker o sinal básico de eficácia é não permitir que a pressão decida pelo decisor (negociador); quanto mais o negociador (decisor) permitir que a pressão decida por ele, esvai-se sua competência decisória (negocial);
g) Identificar claramente qual é o perfil da situação-problema que permeia o processo negocial; conhecer o problema, antes de partir para as opções negociais;
h) Associar a melhor alternativa encontrada para a solução do problema negocial provavelmente é a melhor solução a ser adotada; mas esta possibilidade somente se tornará real se todo o mecanismo de pesquisa prévia for utilizado adequadamente durante o planejamento negocial, e não sob a pressão do confronto;
i) Identificar, adequadamente, as conseqüências dos impactos de cada uma das alternativas negociais em relação ao resultado a ser alcançado; não se deixar levar pelo “canto da sereia” de uma possibilidade fácil de ser entendida e adotada, mas sem impactos relevantes em relação à solução do problema a ser alcançada.
j) Definir claramente, durante o planejamento negocial, que critérios adotará para a decisão do problema; uma decisão sem fundamentos em critérios objetivos e auto-explicáveis poderá resultar em uma solução artificial e sem consistência;
k) Planejar de forma eficaz a implantação da solução, ou das alternativas de solução a serem adotadas; este cuidado permitirá identificar mecanismos de controle e consolidar o aprendizado com a experiência no processo negocial;
l) Verificar se há interação entre os componentes da decisão negocial e os responsáveis pela sua implementação; o diálogo e a comunicação inconsistente poderá resultar em uma redução significativa da qualidade do acordo ou resultado negocial, por falta de coerência na “ponte” entre os que decidem e os que executam o acordo ou decisão negocial;
m) Verificar a viabilidade de implantação completa do que foi decidido ou acordado; a inviabilidade de algum detalhe ou parcela da decisão pode implicar nova renegociação ou revisão da discussão; ter sempre presente, além de sua melhor alternativa para um acordo ou decisão negocial, o plano “B”, alternativo que possa ser imediatamente acionado;
n) Evitar que alguns pontos da decisão negociada ou acordada sejam fruto de uma imposição não consensada; lembrar-se que o consenso leva ao comprometimento, ao engajamento, a obrigação espontânea; a decisão imposta, fruto de uma ação da maioria leva à obediência, mas nunca à espontaneidade consensual.
“Saber solucionar problemas e tomar decisões estão entre as ações mais significativas de um negociador. A alternativa a isso é a barganha de propostas”.
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O negociador - empreendedor e a negociação
A negociação é um privilégio do homem, pois somente ele, entre tantas espécies é capaz de negociar.
A negociação, portanto, envolve a capacidade do homem de entender seus objetivos, suas prioridades e o seu real interesse, no sentido de que alguma meta seja alcançada.
No momento em que ele negocia seu objetivo será compartilhado por outros, que, com ele se envolvem nesta ação visando um determinado negócio.
Os negociadores-empreendedores se caracterizam por sua capacidade de identificar novas oportunidades de negócio, um novo espaço a ser ocupado e uma provável nova chance de desenvolver um novo produto ou idéia.
A negociação, como instrumento de ação é fundamental, para que empreendedores a adotem como mecanismo de busca de resultados, componente fundamental para a consolidação de sua liderança nos negócios e uma peça essencial para que haja o comprometimento de todos os envolvidos na empreitada.
Diante de tudo isto, por que não buscar, no processo de confronto com outros negociadores, o resultado que conseguirá superar todos os obstáculos do processo no qual estão envolvidos? Por que não buscar, no “fogo de encontro” um elemento de superação das diferenças de interesse e, em função de uma nova realidade atingir o esperado, para os lados envolvidos? Em função de todo este esforço, por que não negociar?
Material retirado do Pocket MBA Competência Organizacional em Negociação.
Outros textos poderão ser encontrados no
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