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J. A. Wanderley,
Consultor Sênior do Instituto MVC em Negociação e Excelência de
Desempenho, autor do livro Negociação Total (Gente 13ª Ed.)
UMA CRÍTICA AO PROJETO HARVARD DE NEGOCIAÇÃO
Isaac Newton, o genial físico inglês, quando perguntado sobre o
porquê havia percebido o que outros não haviam, respondeu: “eu
vi mais longe porque subi em ombros de gigantes”. Inegavelmente,
o Projeto Harvard representou um marco extremamente relevante no
desenvolvimento das teorias e práticas de negociação, que foi a
utilização da Solução de Problemas como uma forma de se
negociar. Através da Solução de Problemas foi possível, por
exemplo, o acordo de Camp David entre o Egito e Israel, acordo
que teria sido inalcançável com a utilização das formas
tradicionais de negociação. Entretanto, apesar dos seus inúmeros
méritos, a abordagem do Projeto Harvard continha
vulnerabilidades e sofreu críticas bastante procedentes.
AS CRÍTICAS
De acordo com o Projeto Harvard existem três formas de se
conduzir uma negociação, que são a do negociador durão e de
confronto, que negocia com base na Barganha de Propostas
Agressiva, a do negociador bonzinho, que tende a conceder
continuamente, e a do negociador que age com base na Solução de
Problemas.
Uma crítica consistente ao Projeto Harvard é que não foi
considerada outra forma de se conduzir uma negociação, que é a
da Barganha Suave, que pode ser utilizada com sucesso numa
grande quantidade de casos. O que deve ser ressaltado é que o
objetivo de qualquer barganha, seja ela agressiva ou suave, é o
mesmo: obter o máximo de concessões e, se possível, chegar ao
limite do outro negociador. O que diferencia as duas é que na
Barganha de Propostas Agressiva não existe a menor preocupação
com o relacionamento entre as partes. Assim sendo, tende a
provocar ressentimento, raiva e o desejo de vingança, que vai se
materializar quando a oportunidade aparecer.
Já na Barganha Suave, além do objetivo de se obter o máximo
possível de concessões, também é considerado muito importante
manter um ótimo relacionamento com a outra parte. E, ainda mais,
dar ao outro negociador a sensação de que levou vantagem e
venceu. É em função disto que existe o verdadeiro e o falso
Ganha/Ganha.
Outra crítica consistente ao Projeto Harvard é que, embora não
reste a menor dúvida de que a Solução de Problemas seja um
caminho extremante importante, não são identificadas todas as
dificuldades existentes no processo de tomada de decisão e,
consequentemente, na solução de problemas. Assim, um estudo
conduzido por Paul Nutt, professor da Universidade de Ohio,
abrangendo um período de 19 anos com executivos e gerentes de
365 empresas, mostrou que mais de 50% das decisões, de uma forma
ou de outra, fracassaram. Reforçando este estudo há a
constatação da demissão ou da aposentadoria forçada de um número
razoável de CEOs. Só em 2000, por exemplo, foram cerca de 40 em
empresas da lista da Fortune 500, tais como Compaq,
Gillette, Hewlett-Packard, Xerox e Motorola. O fato é que embora
a Solução de Problemas seja uma forma extremante poderosa e útil
de se conduzir uma negociação, também é a mais difícil e, além
do mais, não é a melhor e mais adequada para todos os contextos
e situações como o Projeto Harvard quer fazer crer.
A NEGOCIAÇÃO TOTAL
Em função disto, desenvolvi a abordagem que chamo de Negociação
Total, que tem como princípio que o sucesso depende das
decisões, escolhas e ações do negociador, e que uma decisão é
tão boa quanto a melhor alternativa que se conseguiu encontrar.
Assim sendo, vejamos três pontos importantes da abordagem
adotada em Negociação Total:
1) Existem três formas principais de se conduzir uma negociação:
Solução de Problemas, Barganha de Propostas Agressiva e Barganha
Suave. Também deve ser ressaltado que os procedimentos do
negociador bonzinho ou os do acomodado, que não se empenha muito
para chegar ao limite do outro, são maneiras inferiores de se
conduzir uma negociação, mas que mesmo assim, podem ser
utilizadas como no caso de negociações de menor importância ou
quando um valor médio, ou até mesmo o limite, puder ser adotado,
em função de uma relação benefício/custo aceitável ou quando a
situação exigir uma resposta urgente, em decorrência dos danos
provocados pela demora;
2) Nenhuma das formas de negociação se aplica a todos os
contextos e situações. Assim sendo, não existe “a melhor forma”
de se conduzir uma negociação e o Projeto Harvard se equivoca
quando quer estender a Solução de Problemas a todas as situações
e contextos;
3) Qualquer uma das formas de negociação pode ser extremamente
adequada se utilizada no contexto apropriado. Entretanto, pode
ser danosa caso seja utilizada em contextos inadequados. A
Barganha de Propostas Agressiva, por exemplo, é utilizada, e com
muito êxito, pelos compradores de supermercado. Entretanto, se
utilizada nas negociações internas de uma empresa que seja
constituída basicamente pelo chamado “trabalhador do
conhecimento”, trará como resultados um clima organizacional da
pior qualidade, conflitos destrutivos e um Perde/Perde
generalizado. Ou seja, jamais será possível se obter a tão
desejada sinergia organizacional, que só pode ser alcançada caso
as negociações internas sejam conduzidas com base na Solução de
Problemas.
A CONCLUSÃO
Assim sendo, Negociação Total considera que todo negociador que
queira ter uma compreensão e um desempenho superior, aos níveis
estratégico, tático e operacional, deve ter uma visão global e
abrangente de possibilidades e levar em conta todas as formas de
se conduzir uma negociação. Mas que é o momento, contexto e
situação que vão definir a melhor forma a ser utilizada.
Portanto, só com competência, inteligência, sabedoria e
responsabilidade por suas decisões, escolhas e ações é que um
negociador pode chegar a excelência de resultados.
Outros textos poderão ser encontrados no
site:
www.institutomvc.com.br/Biblioteca
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