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Na escola, a professora
solicita a seus alunos, com idade inferior a dez anos, que desenhem um
jardim. Ao observar o trabalho feito por um deles, nota que as folhas
são roxas.
A professora repreende
o aluno, cobrando o absurdo da cor das folhas, pois deveriam ser
verdes e não roxas. O aluno retruca, afirmando que é inverno, e as
folhas são roxas porque estão com frio. A professora não aceita a
justificativa.
Este fato é real.
Qual tem sido a nossa
reação diante das propostas, à primeira vista, inusitadas com as
quais nos deparamos nas diferentes experiências vividas?
Temos sido capazes de,
antes de elaborarmos uma crítica à posição sugerida, refletir
sobre as razões pelas quais nosso interlocutor manifestou-se da forma
explicitada?
A capacidade criativa
em geral é inversamente proporcional ao não-reforço ou a punição
provocados pela sua manifestação.
A criatividade é
decorrente de um esforço significativo em que os nossos sensores
estão voltados para sinais que possam, de alguma forma, levar ao
encaminhamento ou solução de um problema ou situação que demande
uma decisão.
Conceitualmente
afirma-se ser a criatividade decorrente de 95% de transpiração e 5%
de inspiração.
Indivíduos são
criativos quando olham para onde provavelmente todos olham, mas
conseguem perceber algo diferente.
Uma história
atribuída ao jurista Ruy Barbosa (o Águia de Haia, conforme
nossos ufanísticos autores da história brasileira) dizia que um dia
ele foi procurado por um vizinho. Este veio a Ruy para consultá-lo
sobre um assunto: se o animal doméstico de um morador destruísse
a horta de um vizinho, quem seria responsável pelo prejuízo? Respondeu
Ruy que seria o dono do animal, com o que, retrucou o vizinho, seria
ele, Ruy, o devedor, já que o animal (se não me falha a memória,
uma cabra) lhe pertencia. Ato contínuo o respeitável jurista
revidou, com elegância, lembrando ao vizinho queixoso que o mesmo se
dirigira a ele para fazer uma consulta. Segundo o mesmo Ruy, a
consulta tinha um valor superior ao prejuízo causado na horta. Com
isso, ele, vizinho, passava a devedor e não o jurista.
A sensibilidade em
perceber os caminhos disponíveis para as situações em que nos
encontramos e com ela gerarmos condições que, a princípio
desfavoráveis, tenham seu quadro revertido é um sinal claro e
indiscutível de manifestação criativa.
Os modelos
contemporâneos envolvem autonomia, empowerment, delegação,
um conjunto de instrumentos cujo objetivo maior é a otimização do
potencial das equipes para que os resultados mais eficazes sejam
obtidos.
Qual a visão que nos
leva a resultados colocados aquém da nossa expectativa quando se
trata de obter a cooperação e o comprometimento de equipes ditas
produtivas?
Sem que aportemos o
nosso foco para justificativas que naveguem por teorias
comportamentais, optaremos pela existência de algumas situações
encontradas, mais concretamente no terreno da realidade:
- o temor do subordinado, por razões
históricas ou de atitude, de ser malvisto, ao explicitar
livremente sua posição ou pensamento
- o clima e a cultura reinantes no
ambiente no qual a liberdade de expressão e a ousadia em criar
alternativas não são percebidas como qualidade
- a inexistência de um espírito de
equipe em que a retração de alguns componentes é substituída
pela assertividade e disposição de participar de outros
- a existência de uma definição
prévia, formal, sobre a possibilidade e a aceitabilidade de
contribuições originadas na equipe sem o impacto de reprimendas
ou punições
- a consciência do comprometimento
como forma de ação, capaz de levar a resultados efetivos
(eficientes e eficazes)
- relações de confiança não
estruturadas em que a liderança tenta escapar da contribuição
da equipe e esta se torna tomada pela frustração e ausência de
motivação para a explicitação de quaisquer opiniões,
emoções e sentimentos
- definição das responsabilidades
individuais não clarificadas, objetivos e metas não negociados,
mecanismos de aferição do desempenho não conhecidos, cenário
este que leva a processos mal-elaborados, recursos mal
distribuídos
- Fontes de informação e
conhecimento acionadas incipientemente, gerando dados incapazes de
agregar, após sua decodificação, valores consistentes ao
resultado esperado.
- predisposição dos membros da
equipe em permanecerem atentos à realidade que os cerca, com
espírito crítico e senso de realidade acionados, de forma que
ocorra uma constante análise das variáveis capazes de impactar a
iniciativa
- a falta de hábito entre os membros
da equipe e a não-institucionalização da prática do feedback.
Com relação a este aspecto vale lembrar a afirmativa de Gifford
& Elizabeth Pinchot de que as empresas competitivas e
contemporâneas têm a conduta de seus efetivos produtivos
estabelecida por feedback e não por comandos. (Poder
das Pessoas, Campus, RJ, 1996.)
Ao se instalar uma
cultura onde folhas roxas não serão necessariamente
aberrações, entende-se que cabe à liderança desenvolver a sua
competência com padrões de efetividade: eficiência e eficácia em
relação a alguns fenômenos de natureza atitudinal:
- a valorização e a capacidade de
escutar ativa e eficazmente o que está sendo transmitido pelos
membros da equipe, perceber o seu sentido (a lógica da mensagem,
sua contribuição para o resultado), contestando-o (questionando
e não julgando), quando perceber incoerência e inconsistência;
- verificar a existência de mensagens
subjetivas, não explicitadas pela equipe (pelas razões já
mencionadas neste texto) ao receber sugestões e comentários
feitos;
- exercitar sua capacidade de
tolerância, flexibilidade e abertura a terceiros, sem registrar
barreiras ou obstáculos à contribuição dos demais, sem que
suas idéias tenham sido clara e completamente elaboradas;
- preparar-se previamente para a
discussão de temas que, não sendo de sua especialidade, possam
ser alvo de abordagens. A preparação deve ser encarada, de
antemão, como um instrumento para favorecer a liberdade criativa
dos outros;
- estar atento ao nível de capacidade
de contribuição, como grupo e mesmo individualmente dos membros
da equipe, extraindo deles, na freqüência e no volume de
necessidades percebidas, variáveis facilitadoras ou mesmo
aperfeiçoadoras da consecução dos resultados.
Charles Handy, em seu
texto Como administrar se não se enxergam as pessoas, deixa
claro que existe a necessidade de que sejam bem conhecidas as pessoas
com quem estamos envolvidos em contextos produtivos. (O líder do
Futuro, Campus, RJ, 1996.)
Ao conhecermos as
pessoas, somos ou nos tornamos capazes de identificar:
- atitudes das pessoas diante de
problemas ou de situações que requeiram uma decisão
- valores que são ressaltados pelas
pessoas, capazes de impactar sua percepção, suas atitudes e seus
comportamentos
- os sentimentos manifestados ou não
das pessoas
- as interações informais que regem
as relações não institucionais entre as pessoas (no caso os
membros da equipe)
- como o contexto produtivo no qual o
líder e suas equipes estão envolvidos é percebido por cada um
dos componentes
Enxergando as pessoas,
e sendo capaz de conhecer estas variáveis que influem no seu
comportamento, os líderes poderão tornar-se aptos a gerenciar a
capacidade e o potencial criativo em suas organizações.
As equipes produtivas
nas suas relações produtivas manifestaram um conjunto de
necessidades, cabendo às lideranças desenvolverem suas habilidades
em atender e em que nível de qualidade se propõem:
- a atender às necessidades
espontaneamente, com freqüência;
- a atender às necessidades quando
percebem o interesse da equipe;
- a atender às necessidades quando
seu interesse ou vontade assim o exigem;
- a atender às necessidades quando a
equipe cobra da liderança;
- a atender às necessidades rara ou
eventualmente, nas emergências ou situações de risco;
- a não atender às necessidades da
equipe.
Essas necessidades, em
contrapartida, são claras e serão responsáveis, na essência, pelo
potencial criativo e pela competência em gerar resultados da equipe,
a saber:
- liderar o início das discussões
sobre assuntos de relevância para a equipe
- dar opiniões e fundamentar suas
informações às questões formuladas pela equipe
- dirigir, orientar ou apoiar a equipe
no sentido de permitir que chegue a conclusões efetivas
- tirar a equipe da inércia,
provocada por dúvidas, desinteresse ou impasse
- incentivar a equipe, superando o
desempenho nos erros, reforçando os acertos
- entender os sentimentos manifestados
pelas pessoas, explicitando os seus próprios sentimentos em
relação à equipe
- manutenção dos canais de
comunicação e diálogo abertos entre liderança e equipes.
As relações
produtivas de trabalho, portanto, para que se caracterizem como
eficazes na abertura às pessoas na equipe, no sentido de exercitarem
sua competência e potencial criativo, indicam que as lideranças se
proponham a pautar suas ações com base em:
- processos negociais internos
- planejamento cuidadoso de suas
ações
- conhecimento dos produtos de seu
trabalho e de sua equipe
- discernir problemas,
identificando-os e periodizando-os
- tolerar ambigüidades que devem ser
percebidas como fruto da imprevisibilidade humana
- assumir riscos compatíveis com as
suas responsabilidades e as da equipe
- isentar-se de preconceito
- autoconhecer-se
Edward Lawler afirma
que as pessoas devem ser acompanhadas no sentido de que as
organizações percebam o impacto que as ações delas provocam em
seus desempenhos e na qualidade de seus resultados. (FROM THE GROUND
UP, Jossey Bass Publishers, SF, 1996.)
Criatividade é uma
qualificação que, como vimos, é fruto de uma disciplina e de um
esforço pessoal. Pelos seus resultados aproxima-se do conceito de
arte. Exercitemos, pois!
OBS.: Material
retirado do MBA Compacto O Executivo Século XXI (versões também
para Supervisores e Trainees).
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