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SEMPRE
NEGOCIE PARA GANHAR
J.A.WANDERLEY
27/08/01
Autor do Livro "Negociação
Total"
Todo
negociador sempre deve negociar para ganhar, mas há
duas formas de ganhar. A primeira, às custas
da outra parte. A segunda, consiste em chegar a um acordo
em que os interesses relevantes das partes sejam atendidos.
Quem procura ganhar às custas do outro, costuma
seguir o lema de Ashleigh Brilliant:
"Eu sempre ganho. Você sempre perde. Poderia
haver coisa mais justa do que isso?". Quem adota
a segunda maneira de ganhar considera que só
há bom negócio quando ambas as partes
ganham. Faz uma pequena alteração no lema
de Ashleigh Brilliant, mas que provoca uma alteração
radical no seu sentido:
"Eu sempre ganho. Você sempre ganha. Poderia
haver coisa mais justa do que isso?". Esta é
a negociação eficaz, ou seja, a negociação
ganha/ganha. E, nos dias de hoje, com a maior interdependência
entre pessoas, empresas e instituições,
a busca de parcerias, a terceirização
e outras formas conjuntas de se obter qualidade e produtividade,
a negociação eficaz é, não
somente "uma boa idéia", mas sobretudo
uma necessidade.
O
que é o ganha/ganha ?
Portanto, é preciso que compreendamos algumas
coisas sobre o ganha/ganha, a fim de evitarmos alguns
desvios que são cometidos com muita assiduidade.
Inicialmente, devemos ter em conta que o ganha/ganha
ocorre dentro das condições reais e possíveis,
e não dentro de condições ideais
e inexistentes. Assim, ganha/ganha pode ser obter o
menor prejuízo possível, em situações
que são profundamente adversas. Deve-se sempre
buscar o melhor, mas o melhor exeqüível.
Igualmente, deve-se ter presente que o bom negociador
tem expectativa, normas e padrões de desempenho
elevados e, na pior das hipóteses, não
faz acordos de que venha a se arrepender. Assim, não
resta a menor dúvida de que para isto é
necessário muita competência. E, um dos
riscos em relação ao ganha/ganha é
a sua compreensão ingênua, de que se deve
ser "bonzinho". Em negociação,
ingenuidade significa incompetência.
Existem
alguns princípios que devem ser seguidos pelos
negociadores eficazes, na busca do ganha/ganha. Um dos
mais importantes é o de que "o problema
do outro não é só problema do outro".
Assim, os negociadores agem como se fossem solucionadores
de problemas comuns, sendo a palavra problema entendida
na sua forma mais ampla, compreendendo desde conflitos
e antagonismos, até ganhos a serem auferidos
conjuntamente. Desta forma, a expressão "cada
um por si", não tem espaço e, não
faz o menor sentido.
O
fato é que o negociador eficaz é, acima
de tudo, um negociador competente e, entre as expressões
desta competência, está a capacidade de
atuar com desenvoltura frente aos negociadores ganha/perde.
Para tanto, é preciso, entre outras coisas, conhecer
como agem os negociadores ganha/perde. Se você
não puder identificar e se sair bem face a um
negociador ganha/perde, você, com toda a certeza,
se encontrará em apuros em muitas oportunidades.
Surge, portanto uma questão de capital importância.
Você sabe como identificar um negociador ganha/perde?
Bem, um negociador ganha/perde pode ser identificado
por que se utiliza e tem um vasto repertório
daquilo que designamos por táticas sujas. Existem
duas categorias de táticas sujas que são
as falcatruas e as fragilizações do estado
mental. As falcatruas se constituem em várias
formas de mentiras, dados falsos e informações
distorcidas, sendo que, não resta a menor dúvida,
uma forma extremamente poderosa de mentira é
a baseada em dados numéricos e estatísticas.
Segundo Benjamin Disraeli, primeiro-ministro britânico
no
tempo da rainha Vitória, há três
espécies de mentiras: mentiras, mentiras descaradas
e estatísticas. Existe até um livro a
este respeito, escrito por Darrell Huff, com o sugestivo
título: "Como mentir com estatísticas".
As táticas de fragilização do estado
mental objetivam abalar o ego do outro negociador, minar
a sua confiança, causar-lhe estresse ou provocar
expectativas absolutamente irrealistas. Existem muitas
delas, tais como, agredir, debochar e provocar sentimentos
de culpa. Todas estas táticas são táticas
construídas de tal modo que só um lado
acaba fazendo concessões reais. O negociador
ganha/perde, algumas vezes segue a 1ª Lei de Roger
que é não pecar contra o 11º mandamento.
Isto é, não ser pego. Assim, age mais
na base do lobo com pele de cordeiro. Outras vezes,
quando acredita que o outro lado não tenha poder
de reação coloca as unhas de fora, fazendo
ameaças e coisas no gênero
Modelo
de negociação
Portanto, para que possamos chegar ao ganha/ganha é
preciso que tenhamos uma compreensão de todos
os fatores e aspetos necessários para o êxito
de uma negociação. E isto é dado
pelo MIN - Modelo Integrado de Negociação.
Existem 5 pontos a serem considerados.
1-
O próprio negociador com suas atitudes, crenças,
valores, conhecimentos e habilidades.
Para verificar como você anda com relação
a este ponto procure responder às seguintes perguntas:
Você sabe lutar pelo desejável de maneira
realista sabendo diferenciar aquilo que, de fato, é
importante em cada situação? Tem crenças
positivas e um grande desejo de obter sucesso e de realizar?
Tem conhecimento dos fatores necessários para
o êxito em uma negociação? Procura
desenvolver suas habilidades, quase que de modo semelhante
a um atleta que esta sempre treinando para, não
apenas manter sua forma, mas também, para se
aperfeiçoar? Tem sensibilidade para perceber
prontamente que os procedimentos que está adotando
não estão adequados? Tem flexibilidade
para a encontrar outros caminhos quando o caminho que
você está seguindo não está
conduzindo aos resultados que você deseja?
2
- Processo de negociação.
Quer as pessoas queiram ou não, toda negociação
é um processo. Importa em aspectos tais como
etapas, estratégias, táticas, superação
de impasses e a forma de se efetuar concessões.
Ter a consciência de que negociação
é um processo é fundamental. Existem três
etapas deste processo que normalmente se constituem
em pontos fracos de muitos negociadores, que são
a preparação, ou seja, o dever de casa,
a exploração, que é a coleta de
informações, para que se possa fazer uma
apresentação de acordo com os interesses,
necessidades e desejos do outro lado e o controle e
avaliação, que é o que se sucede
após o acordo. Na verdade, é aqui que
poderemos saber o que vai ser efetivamente implementado
e se o se o acordo foi bem ou mal formulado. De nada
adianta um acordo que, quando foi assinado se constituía
num verdadeiro ganha/ganha, mas que na sua implementação,
por má fé ou incompetência, acaba
se transformando num ganha/perde ou, mesmo, num autêntico
perde/perde
3
- O conhecimento do assunto, objeto da negociação.
Este ponto é de extrema importância, pois
negociação é o processo de alcançar
objetivos através de um acordo e quem não
conhece o assunto não sabe diferenciar um bom
de um mau objetivo. Se comporta como alguém que
toma um taxi numa cidade desconhecida. O motorista faz
logo duas ou três perguntas e de acordo com as
respostas, uma corrida que pode ser feita em 10 ou 15
minutos acaba demorando uma hora ou mais. Conhecer o
assunto é básico para que se possam estabelecer
objetivos, definir a margem de negociação,
construir alternativas de ganho comum e estabelecer
critérios objetivos que possam ser utilizados
na definição do acordo. Pode envolver,
entre outros, aspectos técnicos, econômicos,
financeiros, sociais, administrativos, jurídicos,
contabilidade de custos e matemática financeira.
E é preciso ter muito cuidado com estes assuntos.
Vejamos, por
exemplo, a matemática financeira, onde os equívocos
podem ser enormes. Assim, quem compra algum bem que
sai por R$ 100,00 e paga R$ 120,00 em duas vezes, sendo
a primeira a vista, pode achar que está pagando
um juro de 20%, quando, na realidade, esta pagando 50%.
Quem se dá ao trabalho de verificar as formas
de pagamento anunciadas em jornais fica estarrecido.
Os juros, muitas vezes, ultrapassam a casa dos 70%,
camuflados, em algumas oportunidades, sob a forma de
prestações decrescentes.
4
- Os cenários da negociação.
Toda negociação tem três cenários.
O primeiro diz respeito ao local e às pessoas
que estão diretamente envolvidas na negociação,
ou seja, àqueles que estão buscando chegar
a um acordo. É sempre necessário saber
a autoridade da pessoa com quem se está negociando.
Caso não se tenha esta preocupação
pode-se perder muito tempo negociando com a pessoa errada
ou se fazer concessões sem não obter nada
em troca. O segundo cenário diz respeito ao que
está por traz destes negociadores, tal como pessoas
que consideram importantes ou tem como modelo, e pessoas
que lhes dão os parâmetros a que devem
se ater e definem seus limites de autoridade. A estas
pessoas chamamos de eleitorado dos negociadores e saber
quem é o eleitorado do outro negociador pode
ser uma informação de grande valia. Inclui-se
aqui, também, todo o apoio logístico necessário
para que se efetue uma boa negociação,
tal como uma sólida base de informações,
de análise e de assessoria. Pode-se pensar em
alguma coisa
semelhante ao que acontece nas partidas de xadrez. Quando
uma partida é suspensa, cada lado tem um conjunto
de assessores que vai analisar o que ocorreu, prever
quais os possíveis desdobramentos e oferecer
sugestões. O terceiro cenário é
o macro ambiente econômico, político, social
e cultural. Nestes tempos de globalização,
tem um peso bastante acentuado. Várias negociações
já foram perdidas em função do
desconhecimento da cultura de outro povos.
5
- Relacionamento Interpessoal.
É uma outra área básica a ser considerada.
A habilidade de relacionamento começa, na realidade,
com a capacidade de separar as pessoas dos problemas
que ocorrem na negociação. Isto quer dizer
não transformar as dificuldades inerentes ao
processo de negociação em algo pessoal
contra a figura do outro negociador. Ou seja, uma batalha
de vontades, um conflito de egos, em que o mais importante
passa a ser ver as suas opiniões e posições
prevalecerem, não importando a qualidade do acordo
nem a contribuição efetiva que o outro
lado pode oferecer no sentido de um desfecho que atenda
aos interesses de ambas as partes. Esta área
também diz respeito a capacidade de identificar
estilos comportamentais dos negociadores, de negociar
de forma apropriada ao estilo do outro e de saber trabalhar
com os impasses e as frustrações que,
eventualmente, possam ocorrer.
Conclusão
A negociação eficaz depende, portanto,
de muita competência. Deve ser sempre lembrado
que esta competência diz respeito não somente
a aspectos da realidade externa dos negociadores, mas
também e, sobretudo, de suas realidades internas,
tal como seus processos de percepção,
expectativas, emoções, temores, atitudes,
crenças, valores e necessidades. Um negociador
eficaz tem sempre presente que as pessoas se comportam
de acordo com a realidade percebida, isto é com
seus mapas mentais que são suas representações
da realidade externa, ou seja, do território
e, consequentemente, dos cenários da negociação.
Portanto, negociar bem é, também, um processo
de descoberta da experiência subjetiva própria
e do outro negociador, e de seu território interno,
pois este é o verdadeiro local em que a negociação
acontece.
PS.
Material retirado do programa do INSTITUTO MVC Negociação
Foco em Resultados.
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