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PECAR
OU VENCER
Marco Aurélio
Ferreira Vianna
Presidente
do MVC
Há
muito tempo (pelo menos vinte e cinco anos), eu venho tentando
analisar os fatores críticos de sucesso das empresas, dos líderes
e das pessoas de um modo geral. Não é fácil.
A primeira conclusão básica é que não existe um modelo único.
Na última vez que fiz uma pesquisa, cheguei a 112
atributos das pessoas de alto bem-estar, em um público-alvo de
cerca de duzentos líderes.
É evidente que o que se aplica a um não se aplica a outro. De
qualquer maneira, é sempre importante fazer uma análise
comparativa, para aprendermos um determinado complemento. Se
estivermos de coração e mente abertos, poderemos sentir que o
eco da vida, que não queremos receber, está chegando até nós.
Ralph Waldo Emerson já nos ensinava: "quando
converso com qualquer pessoa, mesmo que seja mais humilde do que
eu, percebo que ela sempre sabe alguma coisa que eu não sei. E
isto é minha fonte de aprendizado".
Uma outra conclusão que certamente cheguei consiste na dúvida
- devido ao enorme espectro de alternativas - sobre o próprio conceito
de êxito.
O que é o sucesso? O
que é vitória para uma pessoa é vitória para outra pessoa?
Outra reflexão fundamental consiste na crença mais ou menos
espargida de que "o que importa é ser o maior e
melhor".
No meu ponto de vista, se verdadeira, esta assertiva se
constitui na maior fonte geradora de angústia, depressão,
frustração e estresse - as grandes e piores doenças deste início
do século XXI.
No mundo das pessoas,
principalmente no esportivo, para cada
vencedor deve existir um número médio de 30/40 perdedores:
o melhor jóquei, o time campeão brasileiro de futebol, o
vencedor de uma corrida de automóveis.
No mundo empresarial, este coeficiente
de frustração se multiplica por dez/vinte vezes e,
para cada campeão, existe um exército de derrotados: o melhor
vendedor de uma grande empresa, a melhor empresa do setor, a
melhor peça publicitária. No limite máximo, a melhor empresa
do Brasil: um ganhador, quatro milhões de frustrados. Por isto,
em resumo, Oscar Schmidt, nosso grande atleta, foi
brilhante: "Sempre me preparei para ser o melhor do
mundo. Não consegui. Fiquei entre os melhores, mas isto é
motivo de grande satisfação para mim".
Por toda esta complexidade, acho no mínimo
perigoso, no limite criminoso, espalhar
a idéia de que cometer pecados capitais é fator crítico de
sucesso no mundo empresarial. O empresário inglês Marc
Lewis publicou recentemente o livro Pecar para
Vencer, no qual ele defende a tese de que orgulho,
preguiça, luxúria, gula, avareza, inveja e ira são nossas
maiores fontes de motivação e formam o leque de características
das pessoas bem-sucedidas.
Antes, e acima de tudo, isto não é
verdade! Pelo menos nas entrevistas que já fiz
pessoalmente com líderes de mais de cem organizações
triunfadoras do Brasil, seus atributos de sucesso estão longe
da cor e do conteúdo do pecado. Pelo contrário, algumas
virtudes - fidelidade, prudência,
temperança, coragem, justiça, compaixão, generosidade, gratidão,
humildade, simplicidade, tolerância, boa fé, humor e amor
(praticamente toda a lista de Andre Comte Sponville) -
são marcantes na sua atuação.
O ponto crucial desta questão é separar
o que é necessário, fundamental no caminho do sucesso, daquilo
que é possível.
É evidente que a inteligência humana pode ser aproveitada para
o bem ou para o mal. O onze de setembro de 2001 está marcado na
nossa lembrança (aliás, daí não sairá jamais) e é um
marcante exemplo do uso malévolo da mente humana. Apesar de
escabroso, inadmissível, maligno, há de se convir que o ato
terrorista em si foi dotado de excelência estratégica, logística
e operacional. Qualquer Ser Humano pode escolher entre o bem e o
mal. Quando uma pessoa resolve ser empresário(a) de uma
organização com fins lucrativos, ela também tem pelo menos
oito escolhas de sua macro-filosofia, de suas crenças e
valores, que ficam indicadas no Quadro I, a seguir:
Quadro
I
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OPÇÕES FILOSÓFICAS DA
EMPRESA
1.
EMPRESA CRIMINOSA
2. EMPRESA PREDATÓRIA
3. EMPRESA CAPITALISTA SELVAGEM
4. EMPRESA CAPITALISTA
5. EMPRESA UTILITARISTA
6. EMPRESA HUMANA
7. EMPRESA CIDADÃ
8. EMPRESA DIVINA
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Sabendo, ou
pelo menos arriscando, o preço que vai pagar no futuro,
qualquer indivíduo pode "montar um negócio" ligado
ao tráfico de drogas (opção 1), ou que destrua o meio
ambiente (opção 2), ou que use todos os meios para ganhar
dinheiro (opção 3). No entanto, também pode caminhar na direção
superior da escala e chegar a ser uma opção 7, na qual sua
missão é agregar valor ao universo e à humanidade, encantando
seus clientes, desenvolvendo seus Seres Humanos, contribuindo
para a comunidade e, claro, encantando também seus acionistas.
Por isto tudo, propor
que o sucesso fique nas escalas inferiores da Ética é
destrutivo e maligno. Até porque, de
novo, está errado. Cada vez mais, pesquisas
comprovam que as empresas que investem
em práticas engrandecedoras de RH, respeitando o
meio ambiente no conceito do verde sustentável e distribuindo a
riqueza para a comunidade com generosidade, têm
taxas de rentabilidade maiores do que a média dos setores em
que atuam.
É evidente que o mundo dos negócios
não é formado por santos, nem por monges (há até algumas
brilhantes exceções). Algumas
características e atributos do triunfo são fundamentais para o
sucesso.
No Quadro II, fizemos uma tentativa de contrapor duas
situações para o painel dos pecados capitais. No seu bojo,
queremos propor para reflexão que nem
a "situação do pecado", nem a "situação da
santidade" são aplicáveis no ambiente empresarial.
Mais uma vez, a
virtude se encontra no meio destes opostos.
Longe de constituir um vício negativo,
o perfil de um empresário triunfador contém os atributos do
progresso, do desenvolvimento, dentro de um conceito maior de
missão e, comprovadamente, baseado nas premissas do amor.
O extremo do pensador eremita pode ser uma opção para aqueles
que querem costurar o estrato transcendental e transpessoal do
mundo por meio de sua concentração e até isolamento numa
montanha do Tibet.
No meu ponto de vista, apesar de peça fundamental no "mobile"
da humanidade, este modelo não pode ser transposto diretamente
para o ambiente dos negócios. No outro extremo, o do pecado,
nada é aceitável simplesmente porque é possível atingir um
consistente projeto de vida material pelos caminhos mais nobres
da vida.
Por isto, o
orgulho, diretamente ligado à arrogância, como o próprio
Lewis propõe, pode ser evitado e substituído com vantagem pela
auto-estima elevada, este sim fator importante para a construção
de um negócio bem sucedido. Ter autoconfiança está
muito longe do sentimento de ser dono da verdade, onde o pré-julgamento
é fator inerente. Neste caso, analisando o Quadro II,
pode-se até chegar no limite da humildade, no sentido etimológico
da origem latina, onde "humus" significa terra fértil
para semear as bases de uma excelente colheita no futuro. A
subserviência e o estoicismo extremo ficariam para os humanos
superiores, longe da realidade do fluxo de caixa.
Quadro II
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PECADO CAPITAL
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POSTURA TRANSCENDENTAL
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POSTURA EMPRESARIAL
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ORGULHO
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HUMILDADE
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AUTO-ESTIMA
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PREGUIÇA
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SACRIFÍCIO
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QUALIDADE DE VIDA
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LUXÚRIA
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SIMPLICIDADE
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BEM-ESTAR
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GULA
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TEMPERANÇA
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AMBIÇÃO
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AVAREZA
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DESPOJAMENTO
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PRUDÊNCIA
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INVEJA
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ALIENAÇÃO
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MODELAGEM
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IRA
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AMOR
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ENERGIA/PAIXÃO
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A
inconcebível preguiça deve ser substituída pela busca
consciente da qualidade de vida, onde, com base em
racionalidade, pode-se e deve-se equilibrar
o trabalho e o prazer. Propor a preguiça como
característica dos bem-sucedidos traz o risco de despertar (ou,
melhor ainda, alimentar) nossos paradigmas ibéricos do século
XVIII, em que ser inteligente era sinônimo de ócio e de
"propriedade" de pessoas que exercessem a pouco nobre
tarefa de colocar as mãos na "suja massa".
Em todas as pesquisas que realizei, ao contrário de preguiça,
eu vi no empresário triunfador enormes disposição e garra,
diretamente ligadas ao sentimento da transpiração. Propor a
indolência como fator de sucesso, mesmo que apoiado na
racionalidade dos 20-80 de Pareto, isto sim, é pecado mortal,
sem perdão, que deve levar ao fogo eterno do inferno.
A busca da luxúria
pecaminosa pode perfeitamente ser substituída pelo desejo
do bem estar e da conquista material equilibrada.
Caminhos desmesurados para o consumismo certamente levarão
qualquer pessoa à neurose do Ter e do Ser, tão bem avaliada
por Erich Fromm. A luxúria descabida,
segundo pesquisas sociológicas, ao contrário do que se
imagina, não tem relação direta com
a felicidade. Seguindo as teses de Lewis, o empresário
que usasse este atributo estaria caminhando, mesmo que
inconsciente, para a construção de sua própria infelicidade.
A gula,
colocada no sentido do sempre querer mais, deve ser substituída
pela positiva característica da ambição, expressa como forte
desejo (uma tradução direta do inglês desire).
Vontade de crescer, de desenvolver, de acompanhar o mercado, de
inovar, de melhorar continuamente são posturas necessárias ao
empreendedor que deseja permanecer vivo e atuante neste complexo
mundo dos negócios. A gula
desenfreada, com o significado da megalomania, também
ao contrário do que se imagina, não
é causa de sucesso, mas sim de fracasso empresarial e inúmeras
empresas o demonstram. Mais uma vez, Lewis erra feio.
Na avareza
encontra-se um dos maiores erros de avaliação das teses
propostas. Provavelmente um empresário avaro é aquele que tem
como único objetivo maximizar lucro,
o que significa:
a) minimizar custos, inclusive o de
treinamento, inovação, benefícios, qualidades, serviços aos
clientes, responsabilidade social e até manutenção; e
b) maximizar a receita sem a preocupação de agregar valor ao
cliente.
Cada vez mais se comprova que lucro é
subproduto de coisas bem feitas e cada vez menos é fruto de
simples vontade de se ganhar dinheiro, tão própria
dos avarentos. Mais uma grande distorção: o fator de sucesso
proposto é, na realidade, um acachapante fator de fracasso.
A
inveja, postura tão deletéria quando aplicada com
vigor, acarreta uma atitude passiva, de contemplação negativa,
de vontade de "ser o outro" e de "ter o que o
outro tem". No mundo empresarial,
e esta tese também é cada vez mais comprovada, ter e seguir
modelos é ação de alta
eficácia. Na língua inglesa é denominado de benchmarking;
na neurolingüística, de modelagem. A grande
diferença entre os dois consiste no fato de que, no conceito do
modelo, não
se quer ser o outro nem ter o que o outro tem. Muito
mais, a ação consiste em ver o que o
bem-sucedido faz, como faz, para que eu possa também fazer.
Ira por si só é geradora
de fluidos negativos, de conseqüências físico-corporais
ruins. Uma pessoa com raiva desequilibra seu corpo e sua mente.
Ao contrário, os sentimentos de energia e paixão ou, ainda
mais, de energia com paixão, estimulariam nossos caldos físicos
positivos e fariam com que nossa ação fosse turbinada para o
bem. Sempre é bom lembrar Antônio Carlos Magalhães,
depois de sua renúncia ao Senado: "A única coisa da
qual realmente me arrependo é ter colocado a raiva como combustível
de todo este processo que acabou tão mal".
Por isto tudo, fica proposta uma grande reflexão sobre estas
perigosas idéias. Sinceramente, fico em pânico vendo a
possibilidade de um jovem ser influenciado pelo pensamento de
Lewis. Sem o discernimento de separar o figurativo do real, o
emblemático do consistente e, principalmente, o marketing
interesseiro do que é a verdade, este jovem pode achar que
pecando vai ser bem-sucedido. Uma armadilha truculenta que vai
mexer em cabeças tão importantes para nosso país. Um perigo
maior quando se sabe que, muitas vezes, uma comunicação eficaz
e interesses comerciais transformam uma bobagem na força de um
novo paradigma.
O pecado mora bem longe do empresário
bem-sucedido desta entrada de século XXI. Aliás,
cada vez mais longe. Ele está perto dos criminosos e dos predatórios,
os quais, às vezes, também são empresários. É preciso
mostrar que temos a opção para o sucesso, calcado no bem (cada
vez mais) e no mal (cada vez menos) e é claro que defendemos a
real possibilidade de transformar uma
empresa em um instrumento do bem, onde o círculo virtuoso do
progresso e do desenvolvimento esteja muito acima do círculo
vicioso da extorsão e da dominação. Sempre
lembrando que a empresa é uma dádiva divina porque ela nos dá
a oportunidade de melhorar o mundo dentro do nosso próprio
tamanho.
Material
retirado do programas de Planejamento Estratégico
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