|
|
Voltar
EXCESSO
DE TRABALHO, ÓCIO E AUTORIZAÇÃO SOCIAL
Fernando Henrique da Silveira
Neto
Consultor
do MVC
"Não
lhes deixa um momento de descanso para se ocuparem de
outra coisa além de suas propriedades privadas; (...)
cada um está disposto a aprender qualquer técnica, a
praticar qualquer atividade que lhe dê lucro e não lhe
importa o resto". (Platão, referindo-se a alguns
ricos que trabalhavam por cobiça e seu amor às
riquezas).
Todo mundo sabe o que é excesso
de trabalho. Mas quando se fala em ócio, a ignorância
(ignorar ou desconhecer alguma coisa, não ter
conhecimento dela) é grande.
Antes de mais nada, o que significa ócio? O dicionário
do Aurélio diz que é descanso do trabalho, folga,
repouso, tempo que se passa desocupado, vagar, quietação,
lazer. Cita falta de trabalho; desocupação, inação,
preguiça, indolência, moleza. E aponta também o
trabalho mental ou ocupação suave, agradável.
No livro O Futuro do Trabalho - Fadiga e ócio na
sociedade pós-industrial, Domenico De Masi lembra
que antes da indústria, os operários e os escravos se
limitavam a trabalhar não mais de quatro ou cinco horas
por dia. Os camponeses ficavam inativos muitos
meses por ano. Um número enorme de festas, pagãs de início
e depois cristãs, preenchiam o resto do tempo.
A revolução industrial forçou a migração para as
cidades em busca de emprego, pois as indústrias eram
rudimentares e absorviam muita mão-de-obra. E para
produzir mais, os operários enfrentavam jornadas
estressantes de 12 a 15 horas diárias.
Com o advento de técnicas científicas de gestão e de
produtividade na primeira metade do século XX a produção
aumentou, a oferta foi diversificada e melhorou a
qualidade dos produtos. E na segunda metade daquele século,
a eletrônica e a informática se incumbiram de fazer tudo
isso de forma mais limpa, mais rápida, mais barata e
miniaturizada e, principalmente, com muito menos gente
trabalhando. Ou seja, com desemprego.
E De Masi acrescenta que a fantasia dos governantes e
dos experts está se entregando às tentativas mais fantásticas
de reverter esse desemprego crescente, sem grandes
resultados no entanto. Quando
tiverem experimentado todas elas, quando o furor dos
desempregados obrigá-los a se tornarem inteligentes,
finalmente tomarão o único caminho eficaz, baseado no
replanejamento de existência e no abandono do trabalho
como única razão da vida e única fonte de poder
aquisitivo.
Mas a virtude do trabalho em excesso é louvada em muitas
empresas. Elas incentivam seus empregados a trabalharem até
14 horas por dia, como se estivessem em pleno século XIX,
no início da era industrial. A Pesquisa Nacional de
Amostra de Domicílios (Pnad - 1999) do IBGE mostra que
dos quase 70 milhões de brasileiros ocupados, 27 milhões
trabalham além da jornada normal, e pesquisa recente do
Seade-Dieese mostra que 40,3% dos trabalhadores fizeram
horas extras em março de 2001. E artigo de capa da Exame
(13/12/2000), intitulado Hipercompetição no Trabalho:
Funciona?, mostra o significado do trabalho como único
objetivo na vida de muitas pessoas, como escreveu Platão.
A reportagem trata de uma grande empresa brasileira e seus
executivos, que dão adeus à família, lazer e vida
pessoal e são capazes de quase tudo em troca de bônus
milionários, segundo a revista.
Nem assim essas são pessoas realizadas e alegres.
Numa pesquisa sobre nível de satisfação e sintomas de
problemas físicos e psicológicos realizada em 24 países,
com 700 gestores, os brasileiros aparecem entre as piores
posições. Eles sofrem muita pressão e sentem pouca
satisfação com o trabalho, diz Cary Cooper, professor do
Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade de
Manchester, Inglaterra. Queixando-se de depressão,
ansiedade, nervosismo e falta de alegria, os profissionais
brasileiros apareceram em 17º lugar no ranking de saúde
mental. No ranking de saúde física, em que as perguntas
eram sobre sentir insônia, dores de estômago ou outros
sintomas de esgotamento, o país ficou em 18º lugar.
Autores e consultores de gestão escrevem e falam sobre o
assunto porque o tema está na moda, mas nem todos estudam
o assunto em profundidade, e não acreditam em diminuição
da carga de trabalho no futuro, um futuro em que haverá
menos empregos como os entendemos hoje. Falam de tempo e
ócio a partir de suas experiências pessoais em
gabinetes, mas demonstram pouco contato com o chão de fábrica
ou os escritórios onde de fato os empregados trabalham, e
onde a empresa produz e acontece.
Horas extras de alguns significam o desemprego de
muitos.
O economista Márcio Pochmann, da Unicamp, estima que
4,9 milhões de postos de trabalho poderiam ser criados se
a jornada de 44 horas semanais fosse cumprida, e que
muitos trabalhadores usam as duas horas extras permitidas
por dia útil e as oito de sábado e de domingo como forma
de complementar renda. Numa fascinante entrevista no
portal Terra à jornalista Lilian Wite Fibe, a
profª. Liliana Segnini da Unicamp, especialista em
Sociologia do Trabalho, disse que um dos principais
motivos que leva as pessoas a trabalharem cada vez mais,
comprometendo sua qualidade de vida, é a pedagogia do
medo. Liliana falou do uso dessa pedagogia hoje
nas relações de trabalho, que
faz com que as pessoas busquem o
máximo de produtividade em uma lógica de competição
que destrói vínculos de solidariedade com o colega. Então,
o salve-se quem puder significa: eu vou competir com você,
minha colega de trabalho, nós duas vamos competir com o
departamento do lado, o departamento do lado vai competir
com outro. A intensificação, e o que é pior, a legitimação
de que a qualificação mais valorizada hoje é a
capacidade de dar respostas rápidas num contexto de
intensa competição, que reflete na qualidade de vida.
E muitas vezes esse medo é estimulado por
especialistas, como fez o conhecido Stephen Kanitz
em seu infeliz artigo Férias? Nem pensar, publicado na
revista Veja de 30/01/2002, que termina com a seguinte
frase: Na próxima vez em que você
tirar férias, lembre-se de que seu assistente está se
esforçando ao máximo para ficar com seu emprego, para
sempre. Férias, eu? Nem pensar.
Cuidado!
Entre as necessidades dos homens, a socióloga húngara
Agnes Heller costuma falar das necessidades induzidas ou
alienadas, como posse, dinheiro e acúmulo quantitativo e
interminável, que não derivam da natureza íntima do
homem, mas da sociedade competitiva. Cita também as
necessidades existenciais, como alimento, repouso e
reprodução, e as necessidades radicais, como amor,
amizade, diversão, introspecção e convívio. E diz que
as pessoas têm que escolher ou dividir-se entre estas
necessidades, mas deixa claro que há personalidades
que terminam por alienar-se, privilegiando a satisfação
de suas necessidades induzidas.
Um exemplo dessas necessidades é a história de Robert
Reich, ministro do Trabalho de Clinton de 93 a 97, famoso
pela sua obsessão com o trabalho. Trabalhava quinze horas
por dia, e não era raro trabalhar vinte. Até que um dia
telefonou para um dos filhos para dizer que não poderia
chegar em casa mais cedo conforme prometera. O filho
concordou como sempre, mas pediu ao pai que o acordasse ao
chegar em casa. "Eu vou chegar muito tarde. É alguma
coisa importante?", perguntou. "Não. Eu queria
apenas sua companhia. Saber que você está aqui em
casa." Reich percebeu então que, em troca de poder e
dinheiro, estava perdendo sua família e outros prazeres
essenciais da vida. Pediu demissão. E seu livro The
Future of Success, escrito nas horas de ócio que agora
tem, é um depoimento importante sobre sua mudança
pessoal.
Aliás, é curioso como se fala que o norte-americano
de hoje está trabalhando mais. O fato é que a imensa
maioria está trabalhando o mesmo que trabalhava há
quarenta anos atrás, e para confirmar isso é bom
consultar o livro Time for Life: The Surprising Ways
Americans Use Their Time, em que John Robinson e Geofffrey
Godbey estudam com seriedade os dados estatísticos do
Bureau de Censo dos Estados Unidos e mostram suas conclusões.
O renomado Robert Putnam, na introdução do livro,
recomenda uma leitura do mesmo com cuidado científico.
Há uma outra corrente de pensamento, liderada por Juliet
B. Schor, que em The Overworked American fala do americano
moderno e sua sobrecarga de trabalho, citando outras
fontes e estudos. Como ela, alguns autores apontam grande
incerteza e mudanças profundas acontecendo nos próximos
anos, e dizem que o ócio é simplesmente incompatível
com este estado de coisas. Faz parte de suas crenças que
é necessário trabalhar mais para enfrentar tais mudanças.
Pessoalmente acho que ela não considera a imensa força
de trabalho norte-americana, e toma como padrão o pessoal
de Wall Street ou do Vale do Silício, esses sim
verdadeiros ergomaníacos (workaholics).
Mas é o ócio significando trabalho mental, segundo o
Aurélio, que será cada vez mais necessário para
lidarmos com essas mudanças, e não o simples adicionar
mais horas e ficar mais tempo no escritório, na fábrica,
na loja ou onde quer que se trabalhe.
Tendências que moldarão o futuro apontam quase todas
para menos horas de trabalho, e Faith Popcorn, chamada por
muitos de a Nostradamus do marketing, fala em seu livro
The Popcorn Report que, entre estas tendências, estão o Cocooning
(encasulamento, ficar mais tempo em casa), o Cashing
Out (sair fora, questionar a superexigência na
carreira), o Down Aging (nostalgia da liberdade da
infância) e o Being Alive (sobreviver, mudar de
ritmo, reforçar qualidade de vida). E convém lembrar dos
franceses, cuja carga horária determinada pelo
governo agora é de 35 horas semanais e não mais 39 como
anteriormente.
Mas por que pessoas ficam no trabalho depois do horário?
Por que tantas horas além do expediente?
No artigo O Campeão de Horas Extras, publicado na
revista Você S.A. em outubro de 2000,
analiso os reais motivos que as levam a tal. Eis alguns
deles:
* Ausência de outros interesses
na vida:
A falta de interesse por outra coisa que não seja o
trabalho pode significar que estamos diante de um viciado.
Em Diseasing of America: Addiction Treatment Out of
Control o Dr. Stanton Peele mostra que, desde a
adolescência, jovens propensos a se tornarem
viciados têm em comum a crença de que não há nada de
interessante para fazer com o seu tempo. Uns optam por
preencher o tempo com drogas, outros com o crime e muitos
com o trabalho.
* Valorizar o fato de estar
trabalhando (mostrar-se ativo) em vez de resultados
obtidos:
Vale sempre lembrar aqui o que Nietzsche disse em Humano,
demasiado humano (1886): se o ócio é realmente o
começo de todos os vícios, então ao menos está bem próximo
de todas as virtudes; o ocioso é sempre um homem melhor
do que o ativo.
* Falta de respeito pelo outro;
* Desestruturação ou
desorganização dos processos e métodos pessoais de
trabalho;
* Medo de admitir que sua carga
horária vai diminuir;
* Aplicar o velho truque de esticar o trabalho:
No clássico A Lei de Parkinson (1957), traduzido
para o português pelo grande humorista Silveira Sampaio,
C. Northcote Parkinson afirma na primeira frase do capítulo
I que o trabalho aumenta a fim de preencher o tempo
disponível para sua conclusão... Pouco mudou desde
então para muitas pessoas.
O que está faltando é o que a profª. Liliana Segnini
chamou de autorização social, ou seja, a quebra,
em plena era pós-industrial, do mito do trabalho
realizado sob premissas e condicionamentos da era
industrial que ainda vigoram e são aceitos como modelo.
O mundo está mudando sim, mas cada vez mais produtos serão
produzidos com menor necessidade de mão-de-obra direta e
maior utilização de máquinas e computadores. Isto não
é novidade, e já ocorreu em outros momentos da história.
A invenção da prensa por Gutemberg desempregou os
copistas que durante séculos reproduziram à mão textos
e iluminuras. O uso do tear mecânico multiplicou a oferta
de tecidos a preços acessíveis na Inglaterra, e gerou
desemprego para milhares de pessoas que produziam com
teares manuais. A Volkswagen produz no Paraná, em São
José dos Pinhais, carros de muito melhor qualidade e de
tecnologia avançada, empregando muito menos gente do que
seus carros fabricados por processos convencionais em São
Bernardo do Campo ou em Taubaté. Os Estados Unidos têm
grandes excedentes agrícolas utilizando hoje menos de 3%
da força de trabalho norte-americana, e esta proporção
só tende a diminuir com o emprego de mais tecnologia.
Se existe gente trabalhando demais, e isso existe
mesmo, é preciso verificar quem são e porque ainda o
fazem. Algumas características parecem ser comuns a
essas pessoas:
* são em sua maioria moradores de grandes cidades;
* trabalham em empresas onde a competição interna é
grande e, para crescer, ou mesmo sobreviver, é preciso não
só trabalhar muito como mostrar a todos que faz isso;
* acreditam que quanto mais trabalharem mais resultados
produzirão;
* muitos dependem de seus empregos mais do que de seus
talentos;
* outros são perfeccionistas ou inseguros, e demoram
muito para dar por terminado qualquer trabalho que fazem,
mesmo os mais simples;
* acreditam que fazem hora extra para proporcionar mais
segurança e conforto para a família, família essa que
se queixa de não poder vê-las, pois estão trabalhando
muito além do que deveriam e quase não ficam em casa;
* não sabem dizer não para seus chefes, para seus pares,
para seus subordinados (colaboradores, vá lá...) e até
para si mesmos.
Bryan Robinson trata com seriedade o tema do ergomaníaco
(workaholic) em seu livro Chained to the Desk,
um guia para o viciado em trabalho, seus amigos,
familiares e sócios. Consulte-o e acredite nessa doença.
E a revista Veja de 23/03/2001 apresentou na coluna Saúde
um texto intitulado Férias? Nem pensar, onde a síndrome
do lazer é apresentada como a doença da obsessão pelo
trabalho, que acomete as pessoas quando estão longe de
seus afazeres profissionais. A síndrome ocorre durante as
folgas, e assim seus portadores não tiram férias, ou o
fazem por poucos dias, e nos fins de semana sentem-se
nervosos e seu sistema imunológico enfraquece,
tornando-as propensas a contrair doenças e viroses.
Mas voltemos a raciocinar com De Masi: um homem de
20 anos de idade tem hoje, diante de si, pelo menos 60
anos de vida, ou 525 mil horas. Se até os 60 anos
trabalhar 8 horas por dia durante 365 dias, menos férias,
sábados e domingos, terá trabalhado 2 mil horas por ano,
ou 80 mil horas nos quarenta anos de trabalho restantes.
Assim, trabalhará apenas 15% do seu tempo.
Se lembrarmos que há pouco mais de um século, em plena
era industrial, a expectativa média de vida do homem
beirava os 40 anos e o trabalho infantil era prática
comum, trabalhando desde os 8 anos, cerca de 12 horas por
dia inclusive fins de semana, o homem trabalhava 140 mil
horas, isto é, aproximadamente 50% de sua vida. Será
mesmo que estamos e vamos continuar a trabalhar mais?
Em In Praise of Idleness (1935), publicado
recentemente no Brasil pela Editora Sextante (O Elogio
ao Ócio), o filósofo Bertrand Russell diz que
o caminho para a felicidade e a prosperidade se baseia
na diminuição organizada do trabalho. E também
que os modernos métodos de produção nos deram a
possibilidade de ter facilidades e segurança para todos,
mas que em vez disso, escolhemos o excesso de trabalho
para alguns e a miséria para outros.
Até aqui continuamos a ser tão vigorosos quanto éramos
antes do advento das máquinas; nisto temos sido tolos,
mas não há razão para que continuemos tolos assim
indefinidamente.
Por fim, é sempre bom lembrar o economista John
Maynard Keynes, quando perguntava se cada um de nós
já estava pronto para se encontrar com seu verdadeiro e
constante problema, que é como empregar o tempo
livre que a ciência e o conjunto de interesses terão
ganho para que você viva bem, agradavelmente e com
sabedoria. Keynes escreveu isso em 1930 para seus
netos, como uma visão e antecipação do futuro.
E esse tempo vislumbrado por ele
não está mais por vir, ele já está começando.
Voltar
|
|