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A
SÍNDROME DO DESUSO: SUAS
IMPLICAÇÕES NOS PROCESSOS DE DESENVOLVIMENTO DE RECURSOS
HUMANOS
JOÃO
ALFREDO BISCAIA
CONSULTOR
DO MVC
O
CONCEITO
Quando
deixamos de praticar, exercitar ou utilizar os vários
recursos de que dispomos – na dimensão física,
intelectual e afetivo/emocional – começam a
surgir um conjunto de sinais ou características
associados ao seu não uso.
Com
o decorrer do tempo os recursos disponíveis sofrem um
processo de atrofiamento, definhamento, enfraquecimento,
degeneração, tornando-se praticamente inoperantes, por
não serem usados.
O
DESUSO FÍSICO
A
não prática regular de exercícios físicos, faz com que
o nosso corpo comece a ficar flácido e com menos energia
e agilidade. Ao iniciarmos, ou reiniciarmos essa prática,
após um período de abstinência, os nossos músculos
ficam doloridos durante algum período, até se
"acostumarem" a essa nova situação de serem
constantemente ativados.
Os
médicos aconselham que, no início, as atividades
físicas devam ser moderadas, acelerando o ritmo à medida
que a pessoa vá adquirindo melhor condicionamento.
Iniciar
atividades físicas num ritmo excessivo pode causar
sérios problemas à saúde, por que o corpo não está
habituado ao esforço. Somente a seqüência regular de
atividades é que irá assegurar um condicionamento
físico adequado, seguro e sem traumas.
Segundo
informação de um profissional de Área de Educação
Física, a vontade e o prazer em fazer exercícios
físicos são naturalmente adquiridos após um período
constante de atividades, que varia de 6 a 12 meses. Este
é o prazo médio mínimo necessário para que o nosso
corpo comece a sentir os efeitos positivos e prazerosos da
endorfina.
Somente
depois deste prazo é que temos chances de incorporamos
realmente o saudável hábito de praticar atividades
físicas. Antes dos 6 meses de atividade física, corremos
o risco de retornar ao comportamento antes praticado.
Portanto,
para que possamos manter nosso estado físico em forma,
precisamos constantemente colocar o nosso esqueleto em
ação/movimento, com atividades freqüentes que evitem o
estado de inércia.
Pergunta:
Será que os processos de treinamento na sua empresa levam
cm consideração alguns desses princípios?
O
DESUSO INTELECTUAL
Por
analogia, se não utilizarmos os recursos disponíveis no
nosso campo intelectual estaremos vulneráveis a sofrer da
síndrome do desuso intelectual.
O
exercício permanente da reflexão e do pensar, o hábito
do estudo e da leitura, do questionamento, da dúvida, da
busca constante de alternativas criativas para situações
diferentes, da importância em se fazer conexões entre as
inúmeras áreas do conhecimento humano, são ações que
ativam a nossa dimensão intelectual.
Se
não incorporarmos esses hábitos muito provavelmente
nossa capacidade intelectual também sofrerá, no decorrer
do tempo, um processo de atrofiamento e definhamento.
Por
exemplo, se não nos dedicarmos ao exercício diário da
leitura – no mínimo uns 30 minutos – certamente
estaremos deixando de ativar a nossa dimensão
intelectual, da mesma forma que acontece com nosso
condicionamento físico. No início, também pode ser
difícil, mas com o tempo será extremamente compensador.
A
desenvoltura em escrever também obedece ao mesmo
princípio: quanto mais escrevermos, mais estimularemos os
nossos recursos até então adormecidos.
Os
sinais da síndrome do desuso no campo intelectual
aparecem na falta da capacidade de concentração, na
ausência de interesse pelo novo, na dificuldade em pensar
diferente, na resistência à mudança, no raciocínio
binário, maniqueísta, linear, lento, além na brutal
dificuldade em adotar comportamentos produtivos, ao
invés de repetitivos.
Tendo
como referência algumas leituras sobre a mente humana, e
nas conversas que tenho mantido com meu filho Pedro
(cursando o 4º ano de Psicologia da Universidade Federal
do Paraná), arrisco afirmar que nossos neurônios podem
também sofrem a síndrome do desuso.
Quando
não os utilizamos na intensidade e freqüência
apropriadas, acredito que deva haver uma menor
desenvoltura para adquirir novos conhecimentos e de
ampliar o nosso repertório de comportamentos e atitudes.
O
fenômeno da sinapse, que representa o processo de
comunicação entre dois neurônios, é formado e
estimulado à medida que buscamos aprender coisas
diferentes e praticar novos comportamentos.
Quanto
mais estivermos abertos e dispostos a assimilar novos
conhecimentos e comportamentos, maiores as chances de as
conexões existentes entre os nossos bilhões de
neurônios tornarem-se maiores, mais ágeis, complexas e
férteis.
Isso
nos credencia a agir com um conjunto de comportamentos
muito mais adaptativo às dificuldades que surgem no
ambiente onde vivemos.
O
fato é que o nosso cérebro só consegue ver aquilo que
está preparado para ver. E, para ampliar a nossa visão,
dependemos da qualidade e quantidade de alternativas que
criamos e colocamos à nossa disposição.
Da
mesma forma, quando esta sinapse não é continuamente
usada e alimentada com novas informações e indagações,
a tendência é que as ligações entre os neurônios se
tornem cada vez mais frágeis, tênues, até a sua
eventual inoperância. Como decorrência, o elenco de
respostas fica muito lento, restrito e pouco fértil em
relação às exigências da vida pessoal e profissional.
Pergunta:
Será que as lideranças de sua empresa estão dedicando
tempo e atenção ao desenvolvimento permanente de
atividades que favoreçam a ampliação de competências
intelectuais?
O
DESUSO AFETIVO/EMOCIONAL.
Até
hoje são freqüentes as pessoas mencionarem o ensinamento
de Descartes do século XVII (1630) de que "o ser
humano é racional".
Milton
de Oliveira, profissional da mais alta competência e
reconhecimento na área comportamental, completa de
maneira muito oportuna:
"O
ser humano também é racional".
São
as nossas relações de natureza afetivo e emocional que
nos impulsionam para o crescimento como indivíduo e
profissional. As grandes marcas em nossas vidas são de
cunho eminentemente afetivo-emocional.
A
realidade da minha vida tem me comprovado que tudo que foi
emoção um dia sempre voltou para me visitar.
Infelizmente,
constato que, no mundo empresarial, a síndrome do desuso
no campo das relações afetivo/emocional é marcante.
Percebo as enormes dificuldades que existem na expressão
das emoções e sentimentos, sejam elas consideradas
favoráveis ou desfavoráveis. Chego a pensar que muitas
pessoas acreditam que manifestar emoções e sentimentos
é sinal de fraqueza, ou algo absolutamente inconciliável
com a vida nas organizações.
Quando
o "sentir" fica sufocado, surgem conseqüências
negativas para o pensar (intelectual) e para o agir
(físico). A somatização do "não se permitir
sentir", pode trazer sérios problemas à saúde.
Igualmente
às duas dimensões anteriores, a física e a intelectual,
tenho convicção de que precisamos aprender a usar
produtivamente nossa afetividade e emoções. Para que
isso aconteça, são necessários reforços periódicos.
Pergunta:
Como se encontra o nível de emoção e afetividade nas
relações entre as pessoas de sua organização?
A
SÍNDROME DO DESUSO NOS PROCESSOS DE DESENVOLVIMENTO DE
RECURSOS HUMANOS
Se
pertinente e válida as premissas mencionadas, posso estar
seguro em afirmar o seguinte: para que um novo
conhecimento seja fixado e um novo comportamento incorporado
ao nosso repertório, é imprescindível haver um contínuo
e permanente reforço.
Treinamentos
esporádicos, não sistemáticos, que simplesmente "acontecem"
sem uma seqüência planejada têm se comprovado de resultados bastante
duvidosos nos médios e longos prazos, principalmente em decorrência da
síndrome do desuso.
Infelizmente,
muitas organizações só se valem das avaliações de reação, feitas
logo após os eventos, para a validação dos investimentos feitos.
A
efetividade dos processos de treinamentos não pode se valer apenas das
avaliações de reação já que na maioria das vezes são altamente
positivas, pois as pessoas, ao responderem, estão envolvidas
emocionalmente com as novidades recebidas, na ingênua crença que as
daqui pra frente às coisas vão ser diferentes pelo toque mágico do
treinamento realizado.
Tenho
visto muitas empresas ficarem profundamente decepcionadas um mês após os
eventos. Constatam que tudo voltou a ser exatamente como antes do
treinamento, ou até pior, pois foram levantadas expectativas de
mudanças, que deixaram de acontecer.
Os
profissionais da área de educação, provavelmente devem conhecer
resultados de pesquisas que avaliam o percentual de retenção dos
ensinamentos transmitidos durante eventos de 2 a 4 dias.
Os
dados são os seguintes: aproximadamente 80% das pessoas que participaram
de treinamento esquecem, dentro de 4 horas, 70% do que foi dito; elas
esquecem outros 10% no decorrer das próximas 6 horas. Após três
semanas, a retenção do que foi examinado cai para 5%. Positivamente não
são números favoráveis para aqueles que investem apenas em um programa
de desenvolvimento e não em um processo educacional de longo prazo,
planejado, intencional, e, principalmente, com reforços periódicos.
Não
havendo uma continuidade, em reforço, uma atenção concentrada em
abandonar as velhas práticas, o retorno à situação anterior ao
treinamento é fatal, inevitável.
A
SÍNDROME DO DESENVOLVIMENTO DE LIDERANÇAS
Os
processos destinados ao desenvolvimento de lideranças são aceitos e
reconhecidos pelos estudiosos do assunto como sendo uma atividade que
mobiliza as nossas dimensões físicas, intelectual e afetivo/emocional.
Os
treinamentos realizados pela sua empresa contemplam essas dimensões?
Quanto
à parte física, não restam dúvidas de que precisamos ter um corpo que
responda às exigências tumultuadas do nosso dia-a-dia. A disposição e
o bem-estar físico são condições requeridas para termos agilidade
mental. A atenção que as empresas estão dando às condições físicas
de seus principais profissionais é um sinal da necessidade em dar ênfase
a esse aspecto.
A
prática da liderança requer a utilização contínua da reflexão, da
capacidade de pensar, da sensibilidade e notadamente na competência de se
relacionar eficazmente com as pessoas que lidera. A competência em
assegurar relacionamentos produtivos não é apenas uma questão de
habilidade cognitiva, mas sim afetiva/emocional.
Todas
esses assuntos requerem necessariamente ações reflexivas, muitas vezes
de longo tempo de maturação. As decisões gerenciais exigem o
"pensar, antes do agir", que nada mais é do que a competência
diagnóstica, qualidade imprescindível e essencial para o processo de
tomada de decisão, fator crítico para o sucesso profissional de pessoas
que exerçam a liderança.
FINALIZANDO:
Quando
os dirigentes das empresas decidem realizar programas de treinamento, não
podem acreditar que, de uma hora para a outra, seus profissionais irão
adotar novos comportamentos diferentes daqueles que sempre usaram, de uma
forma nem sempre eficaz. Se assim for feito, restará a decepção, e a
sensação de que não valeu a pena, em curtíssimo espaço de tempo.
É
recomendável que haja uma noção de processo de desenvolvimento e não
apenas programa ou atividades.
Desenvolvimento
de Recursos Humanos, como processo, ocorre no tempo, em relação ao qual
temos que considerar as suas três dimensões: futuro, presente e passado,
correspondendo a três momentos: planejamento, execução e avaliação.
E,
se os conhecimentos não se transformarem em prática, constituindo a
unidade teórica-prática, eles de nada servirão, criando a ilusão do
falso conhecimento. É a síndrome do desuso.
P.S:
Um dos bordões que utilizo nos eventos realizados para o
Desenvolvimento de Lideranças, para descontrair o ambiente,
é o seguinte:
Lembre:
Tudo aquilo que não utilizamos atrofia.
Será
que você tem usado todos os seus recursos existentes na intensidade e
freqüência necessários ao seu desenvolvimento, inclusive "aquilo
que você está pensando"?
Obs.:
Material retirado do PROGRAMA DESENVOLVIMENTO DAS COMPETÊNCIAS DO
EXECUTIVO/GESTOR DO SÉCULO XXI.
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