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JOSÉ
AUGUSTO WANDERLEY
Consultor
do MVC
NEGOCIAÇÃO:
FAZENDO A DIFERENÇA
Passamos
boa parte do nosso tempo negociando. Há quem diga que são
oitenta por cento do tempo. São negociações com clientes,
fornecedores, chefes, colegas, subordinados, familiares e
amigos. O certo é que o nosso sucesso pessoal e profissional
está profundamente relacionado à nossa competência em
negociar. Negociação é o processo de alcançar objetivos
através de um acordo. Algumas negociações ocorrem em clima
bastante positivo. Outras em meio a grandes tensões e
antagonismos. O contrário de negociação é a imposição e a
forma mais extrema de imposição é a guerra.
Entender
e focar no que é essencial numa negociação é que faz a
diferença entre uma atuação medíocre e uma de alto nível.
Assim, recorrendo ao conhecido Princípio de Pareto devemos nos
perguntar quais são as poucas coisas relevantes em relação
às muitas coisas triviais. Ou afinal, o que é a sabedoria
profunda de que trata Demming? Ou o que é perene e o que é
passageiro, fogo de palha e fruto da moda? Como separar o joio
do trigo?
Nos
meus mais de 20 anos de experiência em treinamento, vendo cair uma porção de castelos de areia, pude chegar a
alguns poucos pontos básicos. Vejamos alguns deles e que
decididamente fazem a diferença.
1)
As três competências de negociação
Existem
três competências em negociação: individual, em equipe e
organizacional. A competência individual é importante, mas às
vezes pode não ser suficiente. É preciso que também
desenvolvamos as competências de equipe. Em muitas
oportunidades é necessário negociarmos em equipe. Uma equipe
bem preparada é uma ponte para o sucesso. Uma equipe mal
preparada é uma séria candidata ao fiasco. Mas só isto pode
não bastar. É preciso que também haja competência
organizacional. E uma das características da competência
organizacional é um quadro de negociadores bem dimensionado.
Tenho visto empresas com carência de quadros, em que as pessoas
têm que negociar uma série muito grande de coisas e que acabam
não tendo condições de preparar as suas negociações. Ora, a
maioria das negociações é ganha ou perdida de acordo com a
qualidade da preparação. É preciso não confundir empresa
enxuta com empresa subdimensionada.
2)
É sempre possível fazer diferente e melhor.
Esta
é uma ótima crença para se desenvolver e cultivar, isto
porque, tudo o que se faz numa negociação é uma alternativa.
Existem infinitas formas de fazer as coisas. O sistema de
crenças de uma pessoa é básico para entender o seu
desempenho. Para exemplificar vejamos o efeito placebo. Uma
pessoa, comprovadamente doente, toma um suposto medicamento, que
não passa de farinha com açúcar e, acreditando que está
tomando efetivamente um remédio, acaba se curando. Se você
acreditar que sempre pode fazer diferente e melhor, não importa
quão bem você já esteja fazendo alguma coisa, você
encontrará respostas, às vezes de forma surpreendente. Kekulé
descobriu que o benzeno é uma cadeia fechada de átomos de
carbono através de um sonho. O cérebro trabalha 24 horas por
dia. É preciso fazer com que ele seja um ótimo aliado. Caso
contrário ele pode ser um poderoso inimigo. Não são poucos os
casos de auto-sabotagem, em que uma pessoa tem tudo para fazer
uma ótima negociação e acaba enveredando por equívocos de
última hora. É o conhecido "nadou, nadou e morreu na
praia".
3)
Se você quer conhecer a efetividade de um negociador, entenda
como funciona o seu OCDA
OCDA
quer dizer: observar, compreender, decidir e agir. No fundo é
isto que faz a grande diferença de desempenhos.
Tudo
começa pela capacidade de observar, de perceber. A percepção
é a chave do comportamento. Nós nos comportamos de acordo com
a realidade percebida e não de acordo com a realidade objetiva.
Segundo o conceito desenvolvido por Alfred Korzybski, o mapa
não é o território. O que podemos perceber da realidade está
diretamente relacionado àquilo que os nossos mapas e modelos
mentais nos permitem ver. Raras são as pessoas que procuram,
conscientemente, identificar e enriquecer seus mapas mentais.
Antoine
de Saint-Exupéry, autor do Pequeno Príncipe, estava certa vez
num oásis. O dia estava muito bonito quando um beduíno lhe
avisou que viria uma tempestade. Saint-Exupéry perguntou como
era possível aquela previsão. O beduíno apanhou um pequeno
inseto e disse: veja, este inseto não é daqui. Vem trazido
pelas grandes correntes aéreas e quando se precipita, antecipa
uma tempestade. Assim, perceber as informações relevantes a
tempo pode fazer a diferença entre prevenir e remediar. Mas
não é só isto.
Compreensão
superior gera resultado superior, ou seja, o sucesso numa
negociação está diretamente relacionado à capacidade de
compreender e de interpretar uma situação. Joseph Kennedy, pai
do presidente americano John Kennedy, era investidor da bolsa de
ações antes do crack de 1929. Certo dia foi engraxar
seus sapatos quando o engraxate lhe falou coisas extremamente
procedentes sobre ações. Este fato comportava pelo menos 3
possibilidades de interpretação. 1) Desqualificar o engraxate.
Como pode um engraxate falar coisas relevantes a respeito de
qualquer coisa? 2) Acreditar que o engraxate era uma pessoa de
muito talento, que talvez não tivera uma oportunidade, e quem
sabe até convidá-lo para a sua equipe. 3) Que foi a
interpretação de Joseph Kennedy: Se até o engraxate sabe,
está na hora de vender todas as minhas ações. E foi assim que
ele se livrou do grande colapso da bolsa. Portanto, compreensão
superior, resultado superior.
Existem
algumas razões pelas quais as interpretações são falhas. Uma
delas é não se estar consciente da importância da fase de
compreensão. Outra é o julgamento precipitado. Uma terceira:
as metáforas que se utiliza. Por exemplo: para algumas pessoas,
o mercado está para guiá-las. Para outras, para servi-las.
Qual das duas você acha que o megainvestidor Warren Buffet
utiliza?
De
acordo com Peter Drucker, considerado como o guru dos gurus,
inclusive pela sua capacidade de ver o óbvio, "o produto
final do trabalho de um administrador são decisões e
ações". Em síntese, negociação é processo decisório
compartilhado. Há três decisões que são importantíssimas: o
que focar; o que as coisas significam para nós; o que fazer
para obter resultados. E isto é fundamental em qualquer
processo de negociação. Assim, numa negociação, esteja
atento ao seu OCDA e ao do outro negociador. No fundo, tudo é
OCDA, e saber disto pode fazer uma grande diferença.
4)
O MIN – Modelo Integrado de Negociação
O
MIN é um modelo, ou mapa, que desenvolvemos e que revela todos
as áreas presentes em qualquer negociação. Existem cinco
áreas que são os cenários, o conhecimento do assunto, o
processo de negociação, os relacionamentos interpessoais e a
realidade interna dos negociadores. Todas as vezes que você
negociou ou venha a negociar, estas cinco áreas sempre se fazem
presentes.
Numa
negociação existem três cenários. O primeiro, diz respeito
ao local e às pessoas que estão diretamente envolvidas na
negociação. O segundo, ao que está por trás destes
negociadores, tal como pessoas que consideram importantes ou
têm como modelo, e pessoas que definem seus limites de
autoridade e lhes dão os parâmetros aos quais devem se ater. O
terceiro trata dos aspectos macroeconômicos, sociais e
culturais.
O
conhecimento do assunto, objeto da negociação importa, entre
outros, em conhecimentos técnicos, econômicos, financeiros,
sociais, administrativos, jurídicos, contabilidade de custos e
matemática financeira. Este ponto é de extrema importância,
pois quem não conhece o assunto não tem condições de saber o
que é uma boa e uma má negociação e quais as implicações e
conseqüências da sua negociação.
O
processo de negociação importa em aspectos tais como etapas,
estratégias, táticas e a forma de se efetuar concessões e
superar impasses. Ter a consciência de que negociação é um
processo que só acaba com o cumprimento do acordo é
fundamental, pois de nada adianta um acordo que, quando foi
formalizado se constituía num verdadeiro sucesso, mas que na
sua implementação, por má fé ou incompetência, acaba se
transformando num doloroso desastre.
O
relacionamento interpessoal começa com a capacidade de separar
as pessoas dos problemas que ocorram na negociação. Esta área
também diz respeito ao processo de comunicação, à capacidade
de identificar os estilos comportamentais dos negociadores e de
negociar de forma apropriada com o estilo dos outros.
Finalmente
vem a realidade interna dos negociadores que importa em aspectos
como: estados mentais e emocionais, crenças e valores.
Saber
identificar e trabalhar com competência em todas estas áreas
é fundamental para quem quiser ser um negociador de alto
impacto.
5)
As duas formas de se conduzir uma negociação
Existem
duas formas de condução de uma negociação. Uma é a barganha
de propostas. Outra é a solução de problemas. Quem faz
barganha de propostas, não está interessado em conhecer a
fundo o que está sendo negociado. Procura defender seus
interesses sem se preocupar com os da outra parte. Tem uma
proposta ou solução para a questão e se preocupa em defender
a sua posição. Não se propõe a chegar a um entendimento
comum e compartilhado da questão com o outro negociador.
Existem três formas de barganha de propostas: suave,
manipulatória e agressiva.
Já
a solução de problemas tem outro enfoque. Tem como princípio:
primeiro compreenda e só depois encontre a solução. Portanto
antes de se chegar a um acordo é preciso entender a questão,
pelas várias óticas das pessoas envolvidas.
Qual
a melhor forma de condução de uma negociação? Depende de
cada situação. Existem situações em que a barganha de
propostas pode ser perfeitamente válida. Por exemplo, quem for
comprar uma roupa ou eletrodoméstico pode utilizar-se da
barganha. Não é preciso agir como um solucionador de
problemas. Existem situações, entretanto, em que a única
forma correta de procedimento é a solução de problemas.
Imaginemos as divergências entre dois setores de uma mesma
empresa. Procedimentos do tipo barganha de propostas costumam
levar ao perde/perde, ao enfraquecimento e destruição da
própria organização. Não é possível haver sinergia
organizacional se as negociações internas não forem
conduzidas com base na solução de problemas. A barganha de
propostas não é necessariamente antiética ou imoral. Tudo
depende da forma como é feita. É apenas uma forma limitada de
conduzir uma negociação.
6)
Foco e flexibilidade
Esta
é uma questão final e decisiva. De pouco adiantam os pontos
anteriores se não tivermos foco e não mantivermos a
flexibilidade. Estamos canalizando nossa atenção e energia
para aquilo que de fato é importante e produz resultados? Ou
estamos desperdiçando nossos recursos? O fato é que não
existe nada tão fácil quanto perder o foco. Mas além do saber
manter o foco, é preciso ter flexibilidade. Flexibilidade é a
capacidade de encontrar caminhos, alternativas e táticas que
nos levem a alcançar os nossos objetivos. Bons negociadores
são flexíveis. Mas é preciso não confundir flexibilidade com
ser bonzinho e ceder. Flexibilidade significa comportamento
adequado à situação. Quem dá dois passos para frente e um
para trás, andou um passo à frente. E isto também é
flexibilidade.
Mas
não adianta saber tudo isto. É preciso fazer. Afinal, muitos
sabem, mas poucos fazem. Os vencedores sabem e fazem.
Material
retirado do programa de Negociação Gerencial: Foco Em
Resultados.
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