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FRANCISCO
R. BITTENCOURT
Consultor
do MVC
SE
NEGOCIAR É UMA ARTE, O NEGOCIADOR É UM ARTISTA...
INTRODUÇÃO
Há
uma corrente de profissionais que discute a negociação como uma
arte. O bom negociador exerce esta arte com maestria, extraindo
dos seus recursos e instrumentos de trabalho toda uma gama de
opções, que deslumbram os observadores atentos e que levam seus
interlocutores a sucumbir à sua eficácia no manuseio de fontes
de atuação gerenciadas por um poder de persuasão eficaz.
A
negociação, como a criatividade, depende muito mais da
disciplina e do esforço do negociador do que sua criatividade,
seus "insights" e repentes decorrentes de sua
sagacidade. A negociação depende seguramente de sua percepção
crítica, da forma como estabelece, de forma prévia, o desenho de
um cenário real, onde a negociação tomará palco e onde os
objetivos serão atingidos de forma consistente.
Preparar-se
para a negociação envolve uma seqüência de atitudes, por parte
do negociador, às quais ele deve dedicar um tempo expressivo,
pois somente assim superará lacunas que o ambiente negocial não
consegue preencher sem sua ação efetiva.
Questionar
a si mesmo, às suas posições, ao seu ou aos seus
interlocutores, às posições deles, é uma forma eficiente de
construir um alicerce sólido para suas investidas, quando não,
ousadas táticas negociais.
A
VERDADEIRA "ARTE" NEGOCIAL
Comece
avaliando o conjunto de fatores que impactam o processo negocial,
eventuais opções de resultados, favoráveis ou não, e seus
efeitos sobre o negócio ou o problema que é foco da
negociação:
-
Avalie
o que fará se não fechar um acordo com seu interlocutor
atual;
-
Avalie
o que o seu interlocutor fará se não fechar um acordo com
você;
-
Avalie
as verdadeiras questões da negociação;
-
Avalie
o quanto cada questão é importante para você;
-
Avalie
o quanto cada questão é importante para seu interlocutor;
-
Avalie
a área de barganha;
-
Avalie
onde há possibilidade de trocas;
-
Avalie
o que você fará se fechar um acordo na negociação;
-
Avalie
o que seu interlocutor fará se fechar um acordo na
negociação.
FONTE:
BAZERMAN,
Max H. & NEALE, Margareth A., Negociando Racionalmente,
SP, Atlas, 2002.
Estes
questionamentos permitem ao negociador levantar um universo de
dados sobre as possibilidades e perspectivas favoráveis ou não,
em relação às suas estratégias, ao modelo de construção de
suas táticas e também, principalmente, à elaboração de sua
linha de argumentação, frente a seus interlocutores.
Este
momento de questionamentos é propício para que alguns conceitos
fiquem claros para o negociador, ou se for o caso de negociação
em equipe, para os negociadores. Este cuidado permitirá a todos
falarem a mesma linguagem, conhecendo de forma comum e homogênea
os conceitos que permeiam a negociação:
Negócio:
intercâmbio
de valor entre duas ou mais partes, capaz de satisfazer seus
respectivos interesses;
Valor:
substância ou meio de troca utilizado durante uma negociação;
são diversos elementos tangíveis e intangíveis que podem ser
intercambiados como forma de satisfazer os respectivos interesses;
Interesses:
necessidades, desejos, aspirações ou resultados específicos que
as partes envolvidas em uma determinada negociação procuram
satisfazer;
Negociação:
processo utilizado para alcançar o intercâmbio de valor capaz de
satisfazer os interesses de todas as partes envolvidas;
Opções:
diversas formas de consolidar os elementos de valor envolvidos
numa negociação. As opções não são a mesma coisa que os
interesses: as opções constituem formas de poder satisfazer
interesses.
FONTE:
ALBRECHT,
Karl & ALBRECHT, Steve, Agregando valor à Negociação,
SP, Makron Books, 2001.
O
negociador, em sua fase preparatória, deverá levar em conta a
existência de um conjunto de fatores capazes de influenciar de
maneira real, com reflexos nos resultados, todo o
"continuum" onde se realiza a negociação:
-
O ambiente externo à negociação;
-
A organização que patrocina o processo negocial;
-
As relações interpessoais entre os diversos negociadores;
-
A figura do negociador, ou negociadores, individualmente.
Para
cada um destes ambientes há um grupo de fatores que nos permite,
conhecendo-os, delinear de forma mais objetiva o movimento
negocial no qual estamos inseridos. Estes fatores atuam
prioritariamente em uma determinada zona de influência, mas
exercem sua atuação em todos os demais segmentos, exigindo dos
negociadores a priorização de seu pensamento, no sentido de
encontrar o caminho mais eficaz para responder ao seu impacto.
O
AMBIENTE EXTERNO À NEGOCIAÇÃO:
-
Nível
da demanda gerada :
responsável pelo processo negocial. À medida que um fenômeno
ocorrido fora do ambiente formal e institucional gera uma
determinada necessidade, esta provavelmente implicará um
processo negocial, para que determinado resultado seja atingido;
-
Custo
do dinheiro: alterações
no sistema econômico e financeiro que sejam capazes de
impactar a administração dos bens, negócios e serviços
alvos do processo negocial;
-
Velocidade
das mudanças tecnológicas:
evolução de processos no cenário tecnológico, afetando
estruturas, modelos de gestão, mecanismos e formas de ação,
exigindo assim contrapartidas nem sempre sob o domínio ou
direção dos sistemas dinâmicos de produção, exigindo
negociações para sua concretização;
-
Modificações
nas leis e na política:
ocorrência de natureza sócio-político-econômica afetando o
ir-e-vir da sociedade, e que acarrete a necessidade de
readequação dos sistemas e da operacionalização dos
processos produtivos;
-
Conjuntura
econômica:
talvez o mais "popular" dos fatores de influência,
onde a globalização, por exemplo, surge como uma das mais
evidentes;
-
Modificações
na concorrência:
alterações no segmento de atuação das organizações,
geradora de contrapartidas e respostas exigidas pelo cliente,
para que as organizações se mantenham atuantes e ativas no
mercado produtivo.
AMBIENTE
ORGANIZACIONAL
-
Procedimentos
formais de operação: o
funcionamento das organizações afeta significativamente a
atuação de negociadores – compradores institucionais,
vendedores, gestores, executivos – e, conseqüentemente geram
processos negociais internos tão complexos quanto os processos
com a clientela externa;
-
Políticas
organizacionais:
objetivos estratégicos e táticos, missões, princípios e
outras exigências institucionais capazes de criar espaços
para processos formais de negociação na organização, por
meio de regras, normas e procedimentos;
-
Estrutura
organizacional dominante:
autonomia, processos de delegação, departamentalização,
acesso a processos decisórios, enfim, um conjunto de
características do modelo de funcionamento da organização,
que, em geral provocam o diferencial competitivo tão
procurado pelas empresas no mercado contemporâneo;
-
Sistemas
organizacionais vigentes:
implantação de sistemas, em geral denominados facilitadores
do processo organizacional, mas que tendam a reduzir a
liberdade de ação, para que não se comprometa sua
eficácia, exigindo negociação interna intensa;
-
Objetivos
organizacionais:
razões de ordem estratégica e, por vezes, tática,
provocadora de adequação e adaptação dos objetivos
internos: departamentais, divisionais e até mesmo
individuais, para que sua consecução se torne realidade.
RELAÇÕES
INTERPESSOAIS
-
Status
dos negociadores: a
diferença de status – social, econômico, profissional dos
negociadores, internos e externos capaz de mudar o curso de um
processo negocial;
-
Capacidade
de persuasão:
embora a persuasão seja uma fonte de poder que atue sobre a
personalidade do indivíduo ela se manifesta somente diante de
um outro negociador, impactando fortemente o desempenho dos
negociadores;
-
Autoridade
dos negociadores:
fator de influência com ligação expressiva aos outros dois
anteriores, pois a autoridade exercida por um negociador tem
impacto importante sobre a atuação dos demais – nem sempre
no mesmo nível hierárquico ou social;
-
Empatia
entre negociadores:
fator fortemente influenciador nas relações interpessoais
entre negociadores, à medida que age como facilitador dos
processos negociais, quando manifestado de forma perceptível
e sentida pelos negociadores.
INDIVIDUAL
-
Idade
dos negociadores: a
idade cronológica dos negociadores afeta grandemente o seu
comportamento e, dessa forma, impacta sua ação como negociador
trazendo aspectos da subcultura individual para a interpessoal
e, por extensão, à cultura negocial;
-
Posição
formal ocupada no trabalho:
o cargo exercido pelo negociador afeta sua ação individual
e, no terreno interpessoal, provoca impactos com relação à
autoridade, ao status e até mesmo à empatia em relação aos
outros negociadores;
-
Personalidade
dos negociadores:
como a idade, as características individuais dos
negociadores, suas singularidades são fatores determinantes
de seu perfil individual e com influência indiscutível em
sua personalidade e seu modo de agir;
-
Educação
formal dos negociadores:
no cenário competitivo, este aspecto que, no passado teve
influência menor, se tornou uma premissa importante, afetando
significativamente as estruturas organizacionais e o perfil
negocial nas organizações competitivas;
-
Atitudes
perante o risco negocial:
considerando a atitude uma condição eminentemente
individual, a forma como o negociador reage aos estímulos
decorrentes da negociação funciona como um forte
influenciador de sua ação pessoal.
O
conhecimento destes fatores de influência credencia o negociador
a se instrumentalizar para agir, de forma eficaz, e obter
resultados no processo negocial. A negociação fundamenta, como
já visto em textos anteriores, sua estratégia em um tripé:
-
A oportunidade de usar o tempo;
-
A oportunidade usar a informação;
-
A oportunidade de usar as fontes de poder.
Para
que a atuação do negociador, a partir de sua linha estratégica,
atinja o comportamento de seus interlocutores, faz-se necessário
que modifique a percepção dos mesmos, o que se torna possível
dirigindo o seu foco de atuação para as três dimensões capazes
de alterar o comportamento dos indivíduos:
-
a
dimensão valorativa ,
afetando seus valores, crenças e ideologia;
-
a
dimensão cognitiva ,
afetando seus conhecimentos, e as informações disponíveis;
-
a
dimensão afetiva, afetando
suas necessidades, suas demandas e suas expectativas diante de
resultados.
CONCLUSÃO
Negociar,
portanto, é uma arte. Mas uma arte que requer uma técnica
apurada, uma competência consolidada, para que a eficácia possa
ser atingida, de forma otimizada.
O
negociador pode ser considerado um artista. Mas um artista que
domina sua técnica, que não se deixa levar pela sedução do
improviso, da desinformação ou mesmo do brilho pessoal.
Ele
conhece seus caminhos, os instrumentos (permanentes) e os recursos
(eventuais) com os quais poderá contar e aqueles que deverá
buscar no cenário de atuação.
A
elaboração de um plano prévio de atuação torna-se primordial
para que a certeza do sucesso, da garantia de que objetivos serão
atingidos, faz-se necessária:
UM
PLANO NEGOCIAL
a)
Defina
o problema que está tentando solucionar;
b)
Suas
metas específicas:
-
Qual
é a sua meta específica e otimista?
-
Qual
é a sua condição básica?
-
Quem
será responsável pela decisão?
-
Qual
o estilo de negociação do responsável?
-
Qual
é o histórico de relacionamento com este negociador?
c)
Os
interesses da outra parte:
d)
Propostas
viáveis:
e)
Poder
de Influência:
-
Até
um determinado momento, o que os interlocutores perderiam, se
o acordo não se realizasse?
-
O
que você perderia, se o acordo não se realizasse?
-
Você
pode afetar as alternativas da outra parte?
-
Como
você pode melhorar as suas próprias alternativas?
f)
Padrões
e normas Dominantes
FONTE:
SHELL, G.
Richard, Negociar é preciso, SP, Negócio Editora,
2001.
Na
visão de Sir Francis Bacon:
Nas
negociações complicadas, não devemos esperar que vamos semear
e colher imediatamente, mas sim devemos preparar o negócio e
então cultivá-lo, pouco a pouco.
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