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FERNANDO
HENRIQUE DA SILVEIRA NETO
Consultor
do Grupo MVC
O
PALIMPSESTO DO TEMPO
Cena
1:
Julho
de 1986 - Fernanda Montenegro começa o espetáculo no Teatro
de Arena no Rio com dez minutos de tolerância, mas vinte
minutos depois ainda tem gente entrando. Às 21h30 as portas
são fechadas e alguns espectadores não conseguem entrar. E
reclamam!
Cena
2:
Dezembro
de 2003 - Na estréia de Antônio Fagundes, em Portugal, os
três mil lugares do teatro estão praticamente ocupados.
Alguns lugares ficam vagos devido ao atraso de cerca de 200
pessoas, que reclamam da pontualidade. Abrem-se as cortinas na
hora marcada para iniciar a peça. Os atrasados que
protestaram na porta voltam à bilheteria e compram ingressos
para domingo. E no segundo dia não há nenhum atraso!
Cena
3:
Julho
de 1986 - O ministro do Planejamento João Sayad chega com
atraso de quarenta minutos à sede do Banco Mundial em
Washington para assinar o maior empréstimo individual até
então concedido pelo banco a um país. O presidente do Banco,
Barber Conable, chega pontualmente ao meio-dia, espera meia
hora e, como tinha outros compromissos, vai embora, deixando
para o encontro um representante do segundo escalão, conforme
relato do então correspondente da Folha, Paulo Francis.
Cena
4:
Outubro
de 2003 - O presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo
Cunha, viaja na véspera para assistir à instalação na ONU
de um "Diálogo de Alto Nível", marcado para as 10h
do dia seguinte. Atrasa-se e, quando chegou ao plenário, ele
estava vazio. Ele já estava na ONU pouco antes das 10h, mas
esquece que deveria se credenciar, e ainda conversa durante
vinte minutos admirando os painéis "Guerra e Paz",
de Cândido Portinari. Sobe ao plenário e tem a surpresa: o
evento durara uns dez minutos e já acabara. Diária típica
do Hotel Morgans, onde ficou hospedado, pago pelo contribuinte
brasileiro: US$ 500.
Cena
5:
Março
de 2004 - A neta do senador Antônio Carlos Magalhães, que a
levou ao altar, casa-se com um empresário paulista, mas tem
de esperar no carro acompanhada do avô, pois chega antes do
noivo à igreja. Na hora em que entrega a noiva no altar, o
senador dá um puxão de orelha no noivo pelo atraso.
Cena
6:
Basta!
Escrevo e trabalho com o assunto há algum tempo, vez por
outra falando da naturalidade que o brasileiro lida com
atrasos. E não vejo muito progresso de lá pra cá. Meus
novos textos parecem repetir as mesmas idéias escritas há
vinte e muitos anos, agora com uma linguagem mais moderna e
elegante, mas a essência, aquilo que é o mais básico e mais
central, permanece, como se fosse um palimpsesto que, apagado
várias vezes, revela, de novo, o mesmo conteúdo. Aí eu me
pergunto se estou defasado, fora de época e contexto e, a
cada nova notícia que leio sobre o assunto, confirmo que
não.
Na
coluna Ponto de Vista, que mantém na revista Veja,
o excelente Cláudio de Moura Castro publicou em 24 de março
de 2004 o artigo "O tempo do desenvolvimento",
onde faz uma comparação entre os nossos hábitos e os de
outros povos em relação a tempo, atrasos e suas
conseqüências. Sua frase "quanto mais tempo se perde
por desorganização ou esperando pelos outros, menos tempo se
utiliza produzindo e menos riqueza é gerada; e isso sem
ganhar em lazer" é firme e esclarecedora. Ele diz
também que "o respeito pelo tempo dos outros aumenta a
produtividade social, pois o tempo de todos não é
desperdiçado pelas esperas". E na revista Pequenas
Empresas & Grandes Negócios de março de 2004,
Adriana Fonseca publicou o artigo "Momentos valiosos",
onde escreveu "(...) apesar de tudo o que já se falou
sobre gestão de tempo nos últimos anos, porque ainda
continuamos a entregar trabalhos fora do prazo, a nos
atrasarmos para compromissos e a ficarmos estressados com o
trabalho?".
Sempre
tentei entender porque tantas pessoas se atrasam para
compromissos e encontros marcados. Quem cumpre horários
sempre discute ou briga com os atrasados, e o primeiro
contato, que muitas vezes dita o rumo de uma conversa ou
encontro, pode ficar comprometido com o mal estar gerado nesse
momento. Tudo por causa da hora. Mas será tão simples assim?
Apenas uma desatenção para com o outro? Ou uma questão de
disciplina interna, de falta de organização ou outros
fatores importantes que devem ser analisados?
Vejamos
alguns deles:
Dispor
do tempo dos outros é uma forma de exercitar poder que, no
Brasil, tem sua prática bastante difundida. O médico
amontoa gente na sala de espera (viu como precisam de mim,
como sou importante?). A reunião só começa quando o chefe
chega seja o presidente, diretor, chefe de seção ou
encarregado de turno e isso pode demorar dez minutos ou mais
de uma hora. O Presidente da República ou o Ministro de
Estado atrasam audiências por várias horas, mas como
reclamar se vão pedir favores? Conhecido vice-presidente
acabava atendendo às 2 da manhã, mas e daí? Precisam de
sua indicação política! Puro exercício de poder, uma
forma clássica de egoísmo, um antônimo de caridade, se é
que me entendem.
Os
espetáculos teatrais ingleses começam no horário marcado,
e você pode ser o rei de copas, mas vai ter que aguardar o
final do primeiro ato, lá atrás, em pé, e só sentará
durante o intervalo. Thomas Watson, fundador da IBM,
trancava a porta ao início das reuniões e impunha
penalidades aos atrasados. O condutor do trem-bala japonês
desculpa-se com os passageiros pelo atraso de um minuto
ocorrido na partida da viagem, e a cada momento volta a se
comunicar pelo sistema de som explicando como o atraso está
sendo compensado e, é claro, volta a se desculpar. Mas como
estamos na terra das palmeiras, a Pindorama, te aconselham a
relaxar. É neura, dizem alguns. Falta de educação e de
respeito ao próximo, rebato.
"Eu
me atraso sim, e não admito que fiquem me cobrando porque
não chego na hora. Eu não sou criança". Não,
realmente não você não é criança, você é mimado ou
bobo, isso sim. Só falta bater o pezinho e dançar aos
pulos como índio de filme de cowboy. Ora,
convenhamos, quem não tolera cobranças não pode cobrar,
qualquer que seja o assunto. Se alguém cobra seus atrasos
não é porque você é atrasado, é porque seu atraso
atrapalhou o dia dele, atrasou-o para outros compromissos ou
o que quer que seja. Mas se você não tolera ser cobrado,
então bate pezinho, bate...
"Eu
bem que tento, mas me enrolo todo. Já comprei agenda, já
tentei acordar mais cedo, faço o maior esforço para chegar
na hora, não dou conta da minha papelada, me enrolo nos
e-mails, enfim, não consigo mesmo". Sua patologia
aponta para uma terapia, pois parece que você não
malbarata apenas tempo e horários, mas outras coisas e
valores. Ou, então, gosta de sofrer.
Eis
um caso tipo da síndrome do super-homem, aquele que pode
voar, chegar quase que imediatamente onde se fizer
necessário, resolver muitos assuntos rapidamente e bem, dar
conta de tudo, absolutamente tudo, sem sequer desmanchar o
topete, como o herói do gibi. Mas isso só é possível
naquele mundo dos quadrinhos. Muitos executivos precisam de
um aviso mais sério do próprio corpo (estresse, AVC,
infarto) ou da empresa (alerta da área de saúde
ocupacional, aviso dos colegas ou chefias, demissão) para
entenderem as possibilidades e limitações do trabalho, do
organismo e do mundo em geral. Querer fazer tudo é sinal de
que algo ficará por ser feito, e muitas vezes o mais
importante e significativo. Mas quem não quis ser
super-herói quando garoto?
Este
caso é clássico, e ocorre sempre que usamos mais o
"eu acho que dá" do que "dois e dois são
quatro". Explicando melhor: o "eu acho que
dá" se vale das boas intenções, da crença de que
todos são bons e vão me ajudar, do trânsito que vai estar
livre em pleno horário de rush, da boa vontade com
que serei atendido no banco ou no órgão público e coisas
desse tipo. O "dois e dois são quatro" conta com
o atraso e mau humor dos outros, com o trânsito lento, com
o individualismo que existe hoje (eu primeiro), com mau
atendimento por conta de baixa qualificação e com fatores
parecidos com estes. Consulte Nietzsche. Ou melhor, calcule
prazos e horários com base na realidade e não na
imaginação e desejos. Eu sei, o mundo pode e vai melhorar,
mas viva neste que está aí, e não no do conto da fadas em
que ele se transformará no futuro.
Quem
sabe uma dose de assertividade lhe faça bem! Pense se vale
a pena ceder sempre para contentar um lado, deixando com que
o outro lado pague por sua fraqueza. Pense um instante em
colocar você e seus interesses antes dos interesses dos
demais, quando isto for necessário, e aprenda, treine,
pratique dar respostas mais firmes quando precisar delas. Eu
sei que você é gente boa, quer atender a todos que te
pedem um trabalho ou um favor, mas pense também em você e
naquilo que trará resultados para seu trabalho ou sua vida,
e aprenda a não ceder sempre. Principalmente nos horários.
Procure
respeitar os seus horários porque respeitará assim também
os outros. Como diz Moura Castro, "fazer com
antecedência é mais rápido e mais barato". E
acrescento: mais produtivo e menos estressante; mais
ecológico e menos agressivo; mais correto e mais ético.
Material
retirado dos Programas de Planejamento, Organização do
Trabalho, Gestão do Tempo e da Energia
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