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FRANCISCO R.
BITTENCOURT
Consultor
Sênior do MVC
O
JOGO COMO METODOLOGIA DO APRENDIZADO
Uma
pessoa não pode ensinar algo a um homem.
Uma
pessoa somente pode aprender consigo mesma.
Galileu
Galilei
INTRODUÇÃO
A
adoção de um jogo, como método de trabalho para conscientizar
um grupo de profissionais em relação à determinada abordagem
conceitual, ou prática, considerada fundamental para o trabalho
apresenta um conjunto de cuidados, para o seu sucesso:
-
Se
o jogo apresenta uma alta ameaça e um alto desafio, tende a
provocar sentimentos de ansiedade e gera inibição do
aprendizado;
-
Se
o jogo apresenta uma alta ameaça e um baixo desafio, tende a
provocar sentimentos de desconforto e inibe o aprendizado;
-
Se
o jogo apresenta uma baixa ameaça e um baixo desafio tende a
provocar sentimentos de indiferença e inibe o aprendizado;
-
Se
o jogo apresenta uma baixa ameaça e um alto desafio, tende a
provocar sentimentos de adequação e gera maior eficácia no
aprendizado1.
________________
1
- Entendendo o cérebro – Rumo a nova ciência do Aprendizado, Organização
para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico, apud VILA,
Magda & SANTANDER, Marli. Jogos Cooperativos no Processo de
Aprendizagem Acelerada.
A
construção de jogos, portanto, deve levar este aspecto em
consideração, de forma a gerar uma perspectiva de bom resultado
e não um exercício de frustração ou insucesso.
JOGANDO
PARA VALER
As
pessoas entram no jogo com um misto de curiosidade e uma
necessidade de provar a ela mesma, e aos demais, que está em
condições de responder a desafios. Estes desafios devem provocar
uma motivação suficiente para manter acesa a chama da
competitividade. Se isto for alcançado, o jogo terá alcançado
seus resultados de forma eficaz.
Faz-se
necessário elaborar o jogo com todo o cuidado. Suas instruções,
ou briefings, devem ser geradores da vontade de participar,
e não um aglomerado de instruções ininteligíveis; devem,
portanto, ser acessíveis ao nível cultural do grupo a ser
treinado.
A
criatividade só faz sentido se estiver associada a um objetivo.
Se não houver este objetivo não há como ser criativo2.
__________
2
- MENNA BARRETO, Roberto. Criatividade no Trabalho e na Vida. SP:
Summus Editorial, 1997
A
adoção do jogo como metodologia de aprendizado deve ter um
objetivo específico. O jogo pelo jogo, não tem valor.
Provavelmente não atingirá seu objetivo e os participantes
tenderão a considerá-lo perda total de tempo.
O
que queremos explorar com o jogo? Quais os instrumentos de ação
a serem explorados durante sua realização? Por que aplicar o
jogo e não um treinamento convencional, com exposições
dialogadas e algumas atividades práticas para consolidação de
conceitos?
O
jogo só faz sentido se for necessário associar a aplicação
prática a um conceito de importância fundamental, para o
negócio ou à operação.
O
jogo deverá estar ligado a outras atividades de aprendizado,
durante as quais os profissionais terão a oportunidade de acessar
novos métodos de trabalho, ou formas comportamentais mais
eficazes de atingir seus resultados.
O
jogo, pelas suas características, permite um diagnóstico das
situações apresentadas. Ele permite também que se observe nos
participantes, eventuais atitudes capazes de identificar
desenvolvimento pleno ou áreas de carência.
Desta
forma, o jogo, além de ser conduzido por um facilitador (em
geral, um profissional de fora da empresa), deve ser observado,
formalmente, por profissionais da empresa patrocinadora.
Esta
observação permitirá a introdução de variáveis modificadoras
sobre o jogo, durante sua realização. Permitirá também, que o
facilitador seja municiado de informações sobre os diversos
desempenhos e sua importância no contexto.
O
jogo tem uma estrutura já consolidada, mas permite alterações
em sua ação, no sentido que novos pontos possam ser observados
(comportamentos, respostas a desafios, reações a determinados
tipos de pressão, propostas de ação).
O
jogo deve ter um fechamento, para os participantes sentirem que
conseguiram completar um ciclo. Jogos que envolvem negociação,
por exemplo, devem dar a sensação que todo um ciclo negocial foi
completo. É assim na vida real, deve ser assim no jogo!
As
regras do jogo devem ser claras e clarificadas (a redundância se
faz necessária) no seu início. Se as regras são diferentes da
realidade, elas devem ser demonstradas e justificadas no início,
para que os participantes não gerem barreiras à sua
experiência.
A
adoção de um contrato de desempenho entre o facilitador e os
participantes é essencial. Ele permite que a fase inicial, as
fases intermediárias e a conclusão sejam perfeitamente
assimiladas por toda a comunidade envolvida.
ETAPAS
DO JOGO
É
importante que, para o jogo ser respeitado, tenha um conjunto de
etapas, capazes de ordenar sua estrutura e implantação:
-
O
material deve ser elaborado com antecedência, de maneira a
permitir eventuais correções, antes da realização do jogo;
-
A
distribuição de papéis, de forma à construção de
equipes, que, na medida do possível, devam ser formadas por
componentes que, habitualmente, não trabalhem juntos de forma
rotineira;
-
Além
do briefing, que contém todas as informações para os
participantes, deve haver um conjunto de documentos de apoio,
para colocar em prática toda a operacionalização do jogo;
-
A
leitura do material deverá ser feita no início do jogo, para
internalização dos conceitos, etapas e objetivos;
-
O
facilitador deverá se colocar à disposição, para o
esclarecimento de dúvidas e questionamentos sobre o jogo;
-
O
tempo do jogo deverá fazer parte do contrato de desempenho,
permitindo aos participantes estruturarem seu planejamento;
-
O
contrato de desempenho deverá estabelecer que todos os
acontecimentos ocorridos durante o jogo farão parte do mesmo;
não devendo extrapolar o ambiente, sob pena de comprometer
toda a atividade;
-
Deverá
ficar claro para os participantes a impossibilidade (ou não)
de se criar regras adicionais, para a execução do jogo; não
é recomendável, pois torna ilimitado o seu contexto; as
regras existem e devem ser respeitadas por todos;
-
A
avaliação ao final do jogo é importante para a construção
de uma ponte entre o vivenciado durante o jogo e a realidade a
ser alcançada ao final.
TIPOS
DE JOGOS
O
universo dos jogos permite uma série de aplicações, a partir de
recursos e instrumentos disponíveis:
-
Jogos
que tenham a finalidade de aproximar as pessoas e quebrar
gelos e barreiras iniciais para o exercício de ações
coletivas;
-
Jogos
de integração de equipes, nos quais os participantes,
através do desempenho de papéis, interajam com seus
companheiros de equipe;
-
Jogos
reflexivos, que permitam ao participante fazer uma
auto-avaliação de suas atitudes e comportamentos frente a um
objetivo;
-
Jogos
estratégicos ou de gestão, onde os participantes têm a
oportunidade de verificar sua iniciativa e reação a
instrumentos básicos de gestão – planejamento,
organização, negociação e busca de resultados;
-
Jogos
de resgate ou fechamento, onde os participantes possam voltar
à realidade com a experiência vivida. Estes jogos podem ser
aplicados, complementarmente, a quaisquer outros tipos de
jogos.
MODELOS
DE JOGOS
Para
a aplicação da metodologia encontram-se disponíveis vários
modelos a serem utilizados:
-
Jogos
vivenciais, onde os participantes desempenhem papéis
específicos, pré-determinados, em uma comunidade de
situações monitoradas;
-
Jogos
do tipo quebra-cabeças (puzzles), excelentes para o
aprendizado lúdico em equipe; o grau de dificuldade deve ser
proporcional à capacidade e formação dos participantes;
-
Jogos
negociais, com abordagem na negociação comercial, na
negociação gerencial e na negociação sindical;
-
Jogos
dirigidos, onde, a partir de uma série de informações, o
grupo deva atingir um objetivo, em determinado prazo e sob
determinadas condições;
-
Jogos
conceituais, onde o grupo, por meio de instruções
específicas, conclua a estrutura de um determinado conceito,
substituindo uma exposição ou palestra do facilitador: este
tipo de jogo, em geral, possui um gabarito, com os conceitos a
serem trabalhados.
O
uso da informática na aplicação de jogos deverá ser levado em
consideração, desde que sua introdução seja um recurso, não
eliminando a auto-avaliação e a reflexão dos participantes
quanto à qualidade de seu desempenho.
CONCLUSÃO
O
jogo, como metodologia de trabalho, em programas de aprendizado,
é um instrumento de grande valia para os profissionais envolvidos
com o desenvolvimento individual e organizacional.
Na
visão de Schrage, a mudança comportamental é mais importante
que as alterações tecnológicas. As perspectivas mais
interessantes não ocorrem da observação do que esses novos
dispositivos possam realizar, mas de sua utilização para
observar como as pessoas e suas organizações se comportam.
___________
SCHRAGE,
Michael. Jogando para valer: como as empresas utilizam
simulações para inovar. RJ: Campus, 2001.
É
importante lembrar:
-
O
jogo tem como finalidade simular uma realidade que, embora
diferente da vivida "lá fora", traga atitudes e
comportamentos semelhantes aos praticados;
-
A
capacidade em responder aos desafios mostrando uma
similaridade próxima da realidade: pode haver um
"teatro" nos primeiros minutos, mas ele não resiste
por muito tempo pois a realidade logo aparece;
-
Não
se montar jogos com semelhança total com a realidade da
instituição patrocinadora: haverá um risco muito grande de
se discutir, durante o jogo a operação e não os
comportamentos e seus resultados;
-
Ao
se colocar uma realidade específica para o jogo, ele traga,
de imediato, a veracidade das atitudes e comportamentos e
estes é que devem ser analisados, quanto à sua eficácia e
capacidade geradora de resultados.
O
jogo é um excelente instrumento de análise, diagnóstico e
identificação de necessidades de desenvolvimento e
aperfeiçoamento.
Mas
não é uma panacéia que resolverá conflitos ou disfunções
comportamentais internas.
Porém
permitirá que se identifiquem quais são e onde atuam. E,
portanto, têm condições de indicar os prováveis caminhos para
a solução.
MATERIAL
RETIRADO DO PROGRAMA JOGOS DE NEGÓCIO.
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