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JOSÉ AUGUSTO
WANDERLEY
Autor do livro: Negociação Total
(10ª edição)
REUNIÕES: SINERGIA OU CAOS?
As reuniões são o
espelho de uma empresa.
A sinergia e a
vantagem competitiva passam pela excelência das reuniões.
A todo o momento
vemos artigos e pessoas mostrando a importância e necessidade de
se obter sinergia, seja na empresa, seja nas equipes. De fato,
sinergia é um dos fenômenos fundamentais de qualquer sistema.
Joseph Chilton Pearce, educador, conferencista e autor de
livros sobre desenvolvimento dos potenciais humanos, onde
considera a obtenção de sinergia como a verdadeira prova da
inteligência de uma pessoa. A questão que se coloca, portanto, é
como obtê-la. E aqui surge um ponto fundamental, e que normalmente
as pessoas não se dão conta, que é a correlação entre reuniões
produtivas e sinergia. Caso fosse possível obter sinergia com
reuniões improdutivas, estaríamos diante de um grande paradoxo, ou
seja, a existência de uma empresa excelente, com um ótimo clima
organizacional, tendo ao mesmo tempo reuniões de baixa qualidade,
perda de tempo, desrespeito entre os participantes, distorções no
processo de comunicação e conflitos contraprodutivos.
Portanto, se você
quiser uma empresa excelente, uma das condições necessárias é a
existência de reuniões altamente produtivas, sobretudo
considerando-se que a média gerência passa pelo menos 35% do seu
tempo em reuniões. Já, para a alta administração, esta porcentagem
poderá ultrapassar os 50%. Mais ainda: a Meeting Professionals
International, principal organização no setor de reuniões nos
Estados Unidos, constatou na sua pesquisa anual, chamada
Meeting Outlook, que o número médio de reuniões deve crescer
continuamente.
E, o que a prática
tem revelado a respeito da efetividade das reuniões? As análises
de administração do tempo mostram que reuniões estão entre os
maiores desperdiçadores de tempo. Há estimativas que
aproximadamente 80 % das reuniões apresentam resultados aquém
daqueles que seriam desejáveis. Uma das coisas mais comuns, em
qualquer empresa, são as queixas das pessoas sobre a baixa
qualidade das reuniões. E, o que é mais intrigante, é que estas
queixas ocorrem também em empresas que efetuam uma gama muito
grande e variada de treinamentos e cujo pessoal de recursos
humanos apresenta alto nível de competência.
A questão
fundamental, portanto, é identificar porque há uma grande
quantidade de reuniões improdutivas, mesmo em empresas que tenham
perfeita consciência da importância do desenvolvimento de seus
recursos humanos. Existem cinco razões principais para
isto:
1).
O
paradigma com que se trata reunião está equivocado.
Surpreendentemente a importância das reuniões para as empresas não
é, nem de longe, devidamente constatada. Assim, são tratadas como
uma coisa menor, como o primo pobre do treinamento quando, na
realidade, deveriam ser tratadas como uma competência essencial,
pois é impossível obter sinergia, seja numa organização, seja numa
equipe, sem a existência de reuniões produtivas.
2).
Como
conseqüência deste paradigma equivocado, em geral, a forma como
tem sido feito o treinamento de reuniões não permite identificar e
tratar como toda a complexidade existente numa reunião. Em geral
são tratados, basicamente, os aspectos operacionais, como agenda,
ata e checklist da preparação. Entretanto, há toda uma
fundamentação conceitual que é ignorada e é, justamente aí, que
reside a carência dos treinamentos em reuniões. Portanto, para a
existência de reuniões produtivas são necessários que, além dos
aspectos operacionais, sejam considerados todos os aspectos
pertinentes à dinâmica de grupos. Caso contrário, todo treinamento
em reuniões sempre deixará a desejar.
3). Uma
outra coisa que deve ser considerada é que existem muitos tipos de
reuniões e todas são tratadas como se fossem da mesma natureza.
Assim temos, entre outras, reuniões de negociação, tomadas de
decisão, solução de conflitos, planejamento estratégico, mudança
organizacional e feedback e avaliação e, cada uma destas
formas, embora tenham aspectos comuns, apresentam muitas
particularidades que podem torná-las bem diferentes umas das
outras. E esta pode ser uma das dificuldades, ou seja, não
identificar estas distinções. Os esquimós, por exemplo, tem 20
palavras diferentes para tratar de neve. Assim, há um tipo de neve
em que pode andar, em outro se afunda, e assim por diante. Já os
índios maidus, uma tribo existente ao norte da Califórnia, tem
apenas três palavras para tratar todas as cores: Tit (verde e
azul), Lak (vermelha) e Tulak (amarela, laranja e marrom).
Portanto, enquanto os esquimós conseguem fazer distinções sutis,
os maidus têm um vocabulário que os deixa muito limitados. Em
termos de reuniões, estamos mais para maidus que para esquimós.
Assim, acabamos tratando da mesma forma nas reuniões coisas que
apresentam características muito diferentes. Uma reunião de
negociação, por exemplo, é muito diferente de uma de planejamento
estratégico ou de uma de aprendizagem vivencial.
4).
Por se
considerar como parte do treinamento em reuniões apenas os
aspectos operacionais, ignorando-se os fundamentos da dinâmica de
grupos, uma quantidade de desvios bastante graves acaba não sendo
percebida. Assim, por não se considerar temas como coesão, status
e poder, normas e padrões, comunicação e liderança, acabamos
caindo, entre outros, nas armadilhas do pensamento grupal e da
valência das soluções. O pensamento grupal é um fenômeno
descoberto por Irving Janis a partir do estudo de fiascos
históricos dos americanos, como Pearl
Harbor, a Guerra da Coréia e a invasão da Baía dos Porcos,
em Cuba. A explosão da espaçonave Challenger também foi
atribuída ao pensamento grupal. A valência da solução é um
fenômeno que se caracteriza pelo fato de um grupo optar por uma
solução pior em virtude da maior quantidade de argumentos dados. A
quantidade acaba prevalecendo sobre a qualidade.
5).
O
treinamento em reuniões deve importar em mudança comportamental.
Portanto, um seminário apenas não é suficiente. Deve haver todo um
acompanhamento pós-seminário que garanta a efetivação das
mudanças. Nunca é demais lembrar que a mudança comportamental
passa por três fases: consciência da necessidade, mudança e
segunda natureza, que é quando os conhecimentos se transformaram
em habilidades. Todo treinamento em reuniões que não leve em conta
o ciclo completo da mudança comportamental é um treinamento
deficiente. E esta é, com certeza, uma das maiores razões de
muitos fracassos.
Assim, se quisermos
ter sinergia em nossas organizações e equipes, devemos mudar nosso
paradigma a respeito de reuniões e dar ao treinamento em reuniões
a importância e o destaque que merece. Como fazer isto? Através de
dois procedimentos:
1).
Provocando uma mudança na cultura organizacional, de modo a fazer
com que reuniões produtivas também sejam um valor e um dos itens
da avaliação de desempenho. Na realidade, os verdadeiros valores
de uma empresa são definidos pela forma como as pessoas são
avaliadas e recompensadas. Por exemplo, uma empresa que diz
valorizar a iniciativa, mas que pune quem erra e não faz nada com
quem se omite está, na verdade, dizendo para todos os empregados:
“Por favor, não faça nada. Ter qualquer iniciativa pode ser muito
perigoso.”.
2).
Um outro ponto para a mudança de paradigma no trato com reuniões é
a adoção de um modelo conceitual que leve em devida conta todos os
aspectos relevantes em uma reunião. A Matriz de Desempenho em
Reuniões®
tem este propósito.
Quando estamos em
uma reunião, trabalhando para realizarmos determinado objetivo,
duas considerações devem ser feitas. Por um lado, a tarefa e os
comportamentos que se manifestam durante a sua realização. Por
outro, os processos e conteúdos da tarefa e dos comportamentos. O
processo refere-se ao conjunto de ações, interações e
procedimentos que se verificam enquanto a tarefa é realizada. O
conteúdo refere-se à natureza da tarefa e dos comportamentos
envolvidos. Estes quatros elementos, tarefa, comportamentos,
processo e conteúdo, são a base da Matriz de Desempenho em
Reuniões®, na qual as colunas
referem-se ao comportamento e à tarefa e as linhas ao processo e
ao conteúdo. Assim, conforme a figura, cada interseção de linha
com coluna fornece uma dimensão, ou seja: (1) dimensão - conteúdo
comportamental; (2) dimensão - processo comportamental; (3)
dimensão - processo da tarefa - e (4) dimensão - conteúdo da
tarefa.
MATRIZ DE DESEMPENHO
EM REUNIÕES®
|
|
COMPORTAMENTO |
TAREFA |
PROCESSO
|
(Processo
comportamental) (2)
dinâmica de grupos |
(Processo da tarefa)
(3)
negociação
criatividade
aprendizagem vivencial
processo decisório |
|
T |
M |
E |
|
CONTEÚDO |
(Conteúdo
comportamental) (1)
crenças
valores
necessidades
metaprogramas |
(Conteúdo da tarefa)
(4)
conhecimento do assunto |
|
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|
|
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O conteúdo
comportamental - dimensão (1) refere-se aos valores, atitudes,
percepções, preconceitos e personalidade dos participantes.
O processo
comportamental - dimensão (2) trata dos comportamentos manifestos,
ou seja, visíveis. Existem, basicamente, três tipos de
comportamentos que são os voltados para a tarefa (T), para a
manutenção (M) e para o eu (E). Os primeiros referem-se a
procedimentos, tais como iniciar, sumarizar, clarificar e
orientar. Os comportamentos de manutenção estão relacionados à
participação, influência, atmosfera, afiliação e sentimentos. Já
os comportamentos voltados para o eu são aqueles que evidenciam
uma grande necessidade de se levar vantagem, implicando em lesão,
perda total, ou até mesmo destruição da outra parte. São do tipo
ganha/perde.
O processo da tarefa
- dimensão (3) refere-se às etapas que devem ser percorridas do
início até o final da tarefa, seja ela uma negociação, tomada de
decisão ou uma simples comunicação.
O conteúdo da tarefa
- dimensão (4) refere-se aos resultados que se quer, bem como o
conjunto de conhecimentos técnicos para se chegar aos mesmos. Está
relacionado ao que costumamos chamar de conhecimento do negócio.
A Matriz de
Desempenho em Reuniões® quando assimilada e
adequadamente utilizada, permite que se caracterizem corretamente
os fatores relevantes em uma reunião, ao mesmo tempo em que indica
uma ordem de precedência para tratamento dos mesmos,
constituindo-se num instrumento extremamente valioso para as
etapas de planejamento e preparação, execução e controle de
reuniões.
Portanto, um
treinamento em reuniões que não leve em conta todos os elementos
do Matriz de Desempenho em Reuniões®, é um treinamento
incompleto. Esta é uma das principais causas da falha do
treinamento em reuniões: não levar em devida conta toda a
complexidade existente numa reunião e, como conseqüência, não
considerar com propriedade todos os instrumentos operacionais
necessários, entre eles “O que observar em grupos” e “Papéis
existentes em reuniões”.
É o entendimento de
reunião desta forma que vai dar a dimensão e a profundidade que
deve ter o treinamento em reunião. Caso contrário, o treinamento
não passará de um conjunto de dicas e macetes com poucos
resultados efetivos.
O que se quer deixar
como mensagem final:
1. Não
existe nada relativo ao ser humano que não esteja presente numa
reunião, daí a sua complexidade;
2. Não
pode haver sinergia organizacional se não houver sinergia nas
reuniões. A sinergia numa empresa passa obrigatoriamente pela
existência de reuniões produtivas. Pensar de outra forma é
transformar sinergia num simples jogo de palavras ou não entender,
de fato, o significado da palavra. Além disto, reuniões produtivas
podem se constituir numa importante vantagem competitiva;
3. As
habilidades exigidas para se fazer uma boa reunião são
indispensáveis para a excelência de um gerente. Portanto é
fundamental o treinamento em reuniões;
4. O
treinamento em reuniões permite um feedback imediato. A
reunião foi ou não foi produtiva? Assim, podem ser efetuadas
correções e novos desenvolvimentos;
5. O
treinamento em reuniões é uma excelente ferramenta para o
aprendizado continuado;
6. Se as empresas transformassem 80% de suas reuniões em reuniões
produtivas teriam ganhos substanciais em produtividade,
competitividade, resultados e melhoria do clima organizacional.
Texto retirado dos Pocket MBAs Comportamento Organizacional
em Negociação e Melhoria da Performance Gerencial.
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