Edição Especial - Negociação: A Competência do Século

       
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 Editorial  Questionamento
 Negociação e os números   Negociação Gerencial: O engodo dos 17 camelos

Atuando no mercado desde 1980, temos colecionado dados sobre o perfil do negociador brasileiro, assim como alterações em seu comportamento como negociador.

L. A. Costacurta Junqueira  

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Veja a história dos 17 camelos e compreenda porque numa negociação é fundamental perceber o que está por trás das aparências. Para um negociador não deve ser a primeira impressão a que fica e sim a última.



José Augusto Wanderley
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 Dilema  Dicas
Negociar é preciso, manipular não é    Negociação em vendas: Palavras poderosas

Quais são os limites entre negociação e manipulação? Influenciar quando levo o outro a mudar de posição pelo seu próprio interesse? Aceitar uma proposta por considerá-la um mal menor e não porque estou convencido?
J. B. Vilhena

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Algumas palavras têm mais poder que outras quando se trata de convencer o cliente a comprar algo. "Mais", "Reduzir", "Como" e "Imagine", devem fazer parte de seu repertório como Negociador em Vendas.


José Luiz Meinberg

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 Questionamento  Oportunidade
  A negociação e a venda, os negócios e a guerra   Negociação em compras: A parábola dos pães
 

Embora o processo de negociação não seja, necessariamente, uma guerra, o texto estabelece uma comparação entre ambas. A verdade é que a negociação pode mesmo se caracterizar como uma guerra se algumas estratégias e táticas não forem consideradas. Veja nossa experiência.



Cláudio Goldberg
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Embora o mercado atual esteja mais para compradores, do que para vendedores, são raros os textos voltados à Negociação em Compras. Nossa Matriz de Posicionamento de Compras se constitui em nova ferramenta para os compradores, e porque não dizer também para os vendedores.



Dorval Mallmann
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Expediente
  Publisher: Costacurta Junqueira e J.B.Vilhena Jornalista Responsável: Cristina Spera
  Equipe Insight: Maria Teresa; Leandro Santana
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EDITORIAL  

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L. A. Costacurta Junqueira

VP do Instituto MVC

 

 

NEGOCIAÇÃO E OS NÚMEROS

 

 

A primeira grande mudança no mercado é que o "Poder mudou de lado"; de patinho feio o comprador passou a ser aquele que dita as "Regras" da negociação. Considerando os quatro estilos básicos na negociação verificamos que há grande diferença entre os de maior e menor incidência (o normal seria uma distribuição de 25% para cada um). O estilo predominante é o catalisador (Inovação, Exclusividade), ficando o controlador (Resultados, Centralização) com a quarta posição, o analítico (Garantia, Segurança) com o segundo lugar e o apoiador (Relacionamento, Gestão de Conflitos) com a terceira posição. Como não há um estilo ideal, o grande problema parece ser a distribuição díspar dentro de uma mesma organização.

 

A grande incongruência acontece no item flexibilidade (maior ou menor resistência à mudança). O que se observa, dentro de um contexto econômico extremamente volátil, é que predominam os níveis mais baixos de flexibilidade; 70% dos negociadores têm flexibilidade 1 e 2, ficando os 30% demais com flexibilidade 3 e 4 (mais altas). O interessante é que essa série histórica (1998 a 2005) é a mesma, desde que começamos nossa pesquisa com os participantes há 20 anos.

 

Algumas outras características do negociador brasileiro:

  • Ainda acredita muito na improvisação;

  • Tem uma postura muito avaliativa (e não informativa);

  • Acredita que falar é melhor que ouvir;

  • Tem dificuldade em se colocar no lugar do outro;

  • Imagina sempre que a maior pressão está sobre seus ombros;

  • Acredita sempre que já conhece as necessidades da outra parte.

Para não cansar o leitor, nossa pesquisa abrange o período de 1998 a 2005, envolvendo 3.759 pessoas, sendo 81% do setor privado e 19% do setor público, de um total de 9.000 participantes de nossos seminários.

 

Boa leitura

 


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POLÊMICA

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Cláudio Goldberg

Consultor Sênior do Instituto MVC

 

 

A NEGOCIAÇÃO E A VENDA, OS NEGÓCIOS E A GUERRA.

 

 

Durante a década passada, boa parte das estratégias de negócio e de vendas sofria grande influência da abordagem militar. Assim como nos negócios, a negociação para vendas, aquela focada em resultados, é precedida de uma adequada e eficaz estratégia. Obviamente não existe uma fórmula para o sucesso, afinal as negociações são específicas de cada setor e companhia. Em nossas experiências, chegamos à constatação que sendo a negociação um processo que ocorre em etapas, existe uma fase que acontece antes de começar a negociação, chamada preparação, onde todo negociador deveria formular sua estratégia e fazer perguntas cujas respostas criem valor e determinem objetivos factíveis. É possível que não seja novidade para muitos, mas, nesta hora, podemos apelar para a metáfora militar e ilustrar nossas idéias com conceitos de estrategistas bélicos.

 

1 - Fizemos a análise necessária para a negociação (ou guerra)?

 

Antes de embarcarmos numa negociação devemos considerar o campo de forças das partes que estão negociando. Como enfatizava o general Clausewitz é fundamental conhecer os pontos fortes e recursos de que se dispõe, pois somente assim poderemos saber qual desempenho teremos em diferentes situações. Do ponto de vista dos negócios e da venda, isto está relacionado diretamente a fatores como recursos financeiros, diversidade de produtos e marcas, carteira de clientes, concorrentes.

 

2 - Estamos negociando na arena correta (ou campo de batalha)?

 

Essa pergunta é fundamental, no mínimo, para definir com quem estamos negociando, a causa e sua atitude na negociação, além de identificar táticas que sejam oportunas e produzam o efeito desejado. Alexandre, o Grande, tinha por hábito determinar o local e o momento das batalhas como forma de alavancar seu poder antes de entrar em combate. No mundo dos negócios atuais, podemos fazer referência à necessidade de uma companhia transformar seu posicionamento de fornecedora de produtos commodities, colocando-se como empresa de valor agregado, através da oferta de serviços que sejam importantes para seus clientes-alvo.

 

3 - Que alternativas abriremos para superar eventuais impasses?

 

A imobilidade não costuma ser uma opção viável para os negociadores de alto nível. Napoleão Bonaparte dizia que "o momento mais perigoso chega com a vitória". É muito comum enfrentarmos obstáculos antes de chegarmos a um acordo numa negociação. É preciso combinar diferentes matizes para utilizar idéias criativas e inventar as alternativas. Explorar as condições do negócio como redução de custos, inovação tecnológica para otimizar a cadeia de valor, introdução de novos produtos e serviços capazes de influir no mercado é algo crético para a vitória. A pergunta-chave é "Como conseguir que estas premissas gerem rentabilidade, ou seja, retorno sobre o investimento, ou ainda, vender com lucro".

 

4 - Que argumentos utilizaremos na negociação (ou combate)?

 

Os argumentos são ferramentas poderosas para influenciarem seu oponente a caminhar em sua direção para um acordo negociado. Certamente o conflito nunca se restringe às partes sentadas à mesa de negociação. Existem por trás do pano, figuras que influenciam o desenvolvimento da negociação. Certamente, como ilustram as histórias das guerras, percebemos que muitos dos generais tomavam decisões considerando sua posição e interesses em relação a seus superiores e questões de Estado. Nos negócios, devemos sempre considerar além dos objetivos (Por quê? Para que?), também o eleitorado que será suscetível à força dos argumentos colocados durante a negociação (Diretores, gerentes ou mesmo familiares). É preciso procurar buscar a verdade que se esconde por baixo do pano – a agenda oculta – para fazer valer a força do emprego de seus argumentos alavancando seu poder e influência no processo de negociação. Por isto devemos estabelecer o que é fundamental para o negócio acordado e definir uma estrutura significativa para o conhecimento.

 

5 - Como chegar à aceitação da outra parte com qualidade (ou conquistar a paz)?

 

Fechar um acordo é uma coisa. Outra é conseguir um acordo onde as duas partes ganhem. Da mesma forma na guerra pode-se ganhar e conquistar, mas conseguir a paz depois é, definitivamente, o que importa. Alexandre, o Grande, entendia que, para construir um império era necessário evidenciar que respeitava seus inimigos e convencer o povo conquistado de que sua proposta era justa e nobre. Prova disto, era que os macedônios por ele liderados eram proibidos de fazer saques. No que diz respeito aos negócios, trata-se de convencer seus clientes ou potenciais clientes a abandonarem antigas preferências e comprar nossos produtos ou serviços; de conhecê-los para entender suas necessidades e desejos estabelecendo vínculos afetivos que os façam propagar boca a boca a mensagem de sua empresa. Na negociação, pois, temos a máxima de tratar o outro com justiça, ou seja, legitimar sua proposta de acordo. Na verdade, ao reverso de utilizarmos a nossa opinião com o simples "eu acho", temos de usar os dados e fatos como base de prova de nossas alegações. Isto pode ser feito através de análises de mercado e pareceres de técnicos e profissionais especialistas. Além disto, temos também o fundamento da comunicação empática pela qual antes de nos fazer entender, buscamos compreender o outro, tanto no plano emocional quanto reacional, praticando a arte de ouvir ao máximo possível. Portanto, vale notar que é preciso colocar o processo de comunicação para gerar, captar, codificar as informações e, da mesma forma, superar barreiras de comportamento para transferir o conhecimento. Se feito de forma consistente e consciente, este processo permite obter um acordo com qualidade e aceitação.

 

6 - Temos o controle do tempo limite da negociação?

 

Um aspecto da venda e também da guerra que talvez não seja espetacular, mas que pode determinar seu desfecho é a questão do prazo. Em geral o processo de negociação acontece num espaço temporal. Os franceses, na guerra de 1812, ao invadirem a Rússia não foram derrotados somente no campo de batalha, mas, principalmente, pela chegada do inverno e a falta de tempo de prover suprimentos para suas tropas. O mesmo se aplica às empresas fornecedoras e clientes. A reposição dos estoques, a visita aos clientes, os prazos de execução dos projetos. Vejam, por exemplo, um varejista que precisa urgente definir sua grade de compras para a próxima campanha de marketing e tem prazos limites para acordar as condições comerciais; ou mesmo uma empresa que precisa contratar um software para um projeto que vai acontecer ontem. Quer isto dizer que, muitas vezes, pressionados pelo tempo somos forçados a dar concessões para viabilizar a estratégia maior que é o próprio negócio. Sendo assim, conhecer a data limite do oponente é conquistar uma vantagem competitiva significativa frente à outra parte.

 

Material retirado dos Pockets MBAs Comportamento Organizacional em Negociação e Desenvolvimento de Gestores e Profissionais de Vendas.

 

 


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DILEMA

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J. B. Vilhena

VP do Instituto MVC. Autor do livro Gestão de Marketing,

Ed. FGV.

 

 

NEGOCIAR É PRECISO, MANIPULAR NÃO É PRECISO.

 

 

Uma discussão que, invariavelmente, aparece nos nossos seminários de negociação é se a manipulação é uma estratégia válida para se obter um acordo.

 

Para que eu possa dividir com você minha opinião sobre a questão, gostaria de apresentar duas situações práticas, relatadas recentemente em um trabalho que fizemos para a EMATER do Paraná.

 

  1. Era preciso convencer o prefeito de uma determinada cidade a aderir a um projeto que interessava a toda uma região. O alcaide mantinha-se resistente, dizendo que a cidade que administrava não se beneficiaria tanto quanto as outras com o projeto. O técnico da EMATER conseguiu a adesão de todos os prefeitos da região e apresentou o fato consumado àquele que resistia: ou ele assinava o acordo ou todos os outros seriam prejudicados;

  2. Na época da renovação dos contratos de parceria entre a EMATER e os municípios atendidos, um gerente regional montou a seguinte estratégia: chegava para o prefeito e dizia que recomendava que ele não renovasse o contrato de assistência técnica. A justificativa para a recomendação era a falta de técnicos suficientes para atender a todos os municípios que gerava a necessidade de remanejar o técnico para outra cidade (coincidentemente, sempre para uma cidade que era dirigida por um rival político do prefeito que estava sendo aconselhado a abrir mão do técnico). O índice de renovações beirou os 100%.

Após ler esses dois casos, eu lhe pergunto: houve negociação ou manipulação?

 

Em minha opinião, uma das características da negociação é que ela se traduz em um processo no qual uma parte tenta INFLUENCIAR a outra na tentativa de obtenção de um acordo. Para tal, é necessário que haja interesses comuns, mas também opiniões divergentes sobre a melhor forma de se atingir os objetivos pretendidos. Entendo a palavra influência como a capacidade de fazer com que a outra parte veja as vantagens que obterá se alterar uma posição anterior. Ou seja, eu influencio quando levo o outro a mudar de posição por seu próprio interesse.

 

Na manipulação, crio uma situação em que o outro se sinta coagido a mudar de posição. Na realidade, a outra parte irá aquiescer quanto à minha proposta por considerá-la um mal menor e não porque esteja convencida de que será bom para ela.

 

Muitos negociadores chamam de negociação o que, em minha opinião, é uma forma disfarçada de coerção.

 

Nas duas situações anteriores, creio que se buscou manipular e não negociar. No primeiro caso o prefeito foi colocado perante um fato consumado, ou ele aderia ao projeto ou incorreria na ira de todos os municípios vizinhos. No segundo, continuar a contar com a ajuda de um técnico era a melhor forma de evitar o fortalecimento de um concorrente político. Não havia muito espaço para negociar, pois a situação era do tipo pegar ou largar.

 

Não somos inocentes nem quixotescos. A concorrência é acirrada, os clientes são ariscos e desconfiados e nem sempre é fácil vender nossos produtos, serviços ou mesmo ajuda (a EMATER é uma empresa que contribui de forma indiscutível para o desenvolvimento dos municípios que assiste). É por isso que muitas vezes temos de recorrer a expedientes pouco ortodoxos para atingir os nossos objetivos (excluam-se desses procedimentos questões ética ou moralmente condenáveis, pois essas são inaceitáveis). O ideal seria que houvesse suficiente transparência e confiança entre as partes para que tais expedientes fossem dispensáveis, mas nem sempre é assim.

 

Entretanto, há uma questão que não podemos ignorar: manipular não é negociar. A capacidade de influenciar é uma habilidade do negociador – assim como humildade, flexibilidade e paciência. Se recorrermos a outras alternativas estratégicas para obter o acordo, assumamos que estamos manipulando e não influenciando. E nos lembremos que quando aquele que foi manipulado descobre o engodo, normalmente perde totalmente a confiança no manipulador.

 

Material retirado do Pocket MBA Comportamento Organizacional em Negociação.

 

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DICAS

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José Luiz Meinberg

Autor do livro Gestão de Vendas, Ed. FGV e 

Diretor Comercial do Instituto MVC

 

 

NEGOCIAÇÃO EM VENDAS

PALAVRAS PODEROSAS PARA A ABERTURA, EXPLORAÇÃO E APRESENTAÇÃO!

 

 

Imagine a cena. Temperatura ambiente em torno de 40 graus. Alta umidade deixando a pele pegajosa. Vento? Nem pensar. E você tendo de vender aquele casaco de lã pesado e grosso. Vai ser difícil, não é mesmo?

 

O melhor caminho para uma bem-sucedida negociação em vendas é colocar o cliente no ambiente em que ele reconheça e perceba os benefícios que você tem a oferecer. O caminho para isto passa, necessariamente, pelo uso de palavras que ajudem na aproximação com o outro lado, procurando quebrar as barreiras da primeira impressão. As palavras, dentro de frases bem construídas, podem levar o interlocutor a, rapidamente, perceber os efeitos propostos e que ajudam na difícil tomada de decisão do acordo.

 

Das etapas do processo de negociação é importante um bom estudo de palavras para a abertura e exploração. É aqui que o "clima" necessário para a apresentação é preparado. É aqui que na verdade começa a preparação para o acordo. Se você dedicou um bom tempo para o estudo do "que move" seu interlocutor para a tomada de decisão, será fácil então colocar um "jogo de palavras" poderosas para auxiliar na venda.

 

No caso da venda do casaco de lã você terá de levar seu cliente a perceber a baixa temperatura, os efeitos que ela causa e, só aí então, se conseguiu passar a baixa sensação térmica, poderá propor a venda. Provavelmente as palavras "imagine, conforto e resultado" compondo a sua abordagem para vender esta peça de vestuário ajudem. Mais ou menos assim: "Imagine você em Bariloche com aquela temperatura abaixo de zero, neve caindo, aquele vento frio. Com certeza, estará mais confortável se tiver um casaco de lã, aconchegante, e que o deixará pensando apenas na maravilha que é passar momentos vendo a paisagem sem se preocupar com a temperatura daquele momento! Quando você tem um bom agasalho de lã o resultado é muito maior que a contribuição estética que ele pode oferecer. Está diretamente relacionado com o conforto que ele proporciona, deixando suas sensações focadas apenas para o que está em sua volta naquele momento!". É claro que este é um diálogo simples de uma preparação para negociar e que depende de quem é o interlocutor, sua experiência em relação a esta temperatura, o ambiente, etc. Mas também fica clara a força que as palavras "imagine, conforto e resultado" influem nesta abordagem de negociação em vendas. Prepara perfeitamente o campo para o acordo. Só não haverá um acordo se esta pessoa não estiver indo para Bariloche ou qualquer outra região com temperaturas próxima a zero.

 

Você pode ter o melhor conjunto de conhecimentos em relação à negociação em vendas: ter a capacidade em saber identificar um problema, diagnosticar com clareza as causas que têm gerado este problema, discernir sobre a melhor possibilidade para solucionar o problema, saber dar prioridade ao que deve ser priorizado para a busca da solução e saber claramente os cuidados que devem ser tomados para a efetiva implementação do que for acordado. O conjunto de palavras que podem e devem fazer parte de sua abertura e exploração da negociação é na verdade restrita. Algumas são mais "poderosas" que outras. Veja alguns exemplos:

 

IDENTIFIQUE COM QUEM ESTÁ FALANDO: Quando uma pessoa cita o seu nome numa conversa tenho certeza você gosta, não é mesmo? Então o nome da pessoa é fundamental. Se você tem dificuldade em lembrar, anote num papel assim que começar o encontro.

MAIS: É uma palavra muito boa para dar continuidade e assertividade à argumentação de abertura e à exploração. "O que mais o senhor gostou?". É uma pergunta com a palavra mais que, bem colocada, faz o oponente manifestar as áreas obscuras ou permite você ligar vantagens expressas na resposta com os benefícios com o uso de seu produto. Mais, neste caso soma e este deve ser o sentido. Procure utilizar somar, multiplicar, adicionar em seu vocabulário de negociação e aumente os resultados de seus acordos de vendas.

REDUZIR (e seus sinônimos): É uma tão mágica quanto a palavra grátis para uma oferta de venda de uma loja qualquer. Quanto você diz que seu produto reduz perdas, diminui encalhe no ponto de venda, elimina problemas na relação com o mercado você está indo em linha com as necessidades de seu cliente. Não há quem não precise reduzir ou eliminar algo. Trabalhe bem a pré-negociação e descubra claramente o que seu cliente necessita em termos de redução. Tenha uma atitude de consultor na hora da negociação em vendas.

COMO: Use o como na forma de dar mais força às suas justificativas. "Vou mostrar como meu produto reduz as perdas no transporte", "Este software pode dar as indicação de como obter melhores resultados através do melhor conhecimento do cliente". Coloque "o como" no início de uma pergunta para dar uma boa continuidade e fechamento ao negócio. "Como desejar pagar: com cheque ou cartão de crédito?".

IMAGINE: O exemplo do casaco de lã, do início deste artigo, procura colocar a pessoa no ambiente para fazer a venda. Ajude seu cliente a imaginar os benefícios que seu produto oferece. Deixe a imaginação de seu cliente ajudar em seu favor, pois é um caminho seguro para um acordo mais sólido: Peça a ele para imaginar o resultado que terá comprando o que você está oferecendo, ou mesmo a ausência de problemas pela solução que está apresentando ou ainda o quanto será elogiado pela decisão que tomará.

RESULTADO: Demonstre o que seu produto poderá oferecer para os resultados financeiros do negócio do cliente, o desempenho do equipamento para a produção ou até mesmo o resultado que outros compradores estão obtendo quando utilizam seu serviço ou produto. É fatal: a referência prática de um resultado é um argumento poderoso.

FÁCIL: Esta palavra tem o sentido direto de aproximar o outro lado para o acordo: fácil de comprar, fácil de fazer, não requer prática, fácil de usar. Ajuda a decisão de compra. Facilita a argumentação na negociação em vendas.

COMPROVADO: É uma forma de dar credibilidade a seus argumentos. Está muito próxima da palavra resultado, por exemplo: resultado comprovado pelas pessoas que já concordaram em utilizar este plano de saúde. Comprovado também pode ser utilizado como referência de dados que você apresenta, da mídia em geral: este assunto é matéria constante nos jornais e revistas, como o senhor poderá comprovar nas edições da revista tal e tal.

RETORNO: Quem compra quer retorno do que está investindo. Enfatize isto utilizando frases como: "o retorno do capital virá em 1 ano e meio", "este é um produto que promove um retorno imediato em número de clientes compradores e lucratividade", "seu retorno será pela rapidez de revenda deste produto".

ECONOMIA: Uma palavra com sentido muito próximo ao de redução, mas com uma amplitude maior e mais adequada a certas argumentações. "Com a compra deste produto o senhor terá economia de mão-de-obra", "quanto mais o senhor utilizar este serviço maior será sua economia". Economia soa muito bem para quem tem problemas a resolver e não tem muito capital a investir. Economia junto com ""comprovar"" formam uma dupla imbatível. Qualquer uma das duas frases pode ser complementada com "posso comprovar através dos seguintes documentos, experiências, cálculos".

Estas são algumas das palavras poderosas para negociação em vendas. Você pode encontrar outras como, por exemplo, grátis, qualidade, rende, aperfeiçoa, lucro, status, prestígio, dinheiro, dentre outras. O importante é você saber que, em negociação em vendas algumas palavras são mais poderosas que outras e que, se bem colocadas em sua exploração do assunto, potencializam mais rapidamente o acordo. Experimente!

 

 

Material retirado do Pocket MBA Desenvolvimento de Gestores e Profissionais de Vendas.

 

 

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QUESTIONAMENTO

 

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JOSÉ AUGUSTO WANDERLEY

Autor do Livro Negociação Total Ed. Gente, 10ª Edição

 

 

 

NEGOCIAÇÃO GERENCIAL: O ENGODO DOS 17 CAMELOS

 

 

Outro dia, recebi um e-mail com o título, "VOCÊ É UM BOM NEGOCIADOR?", e subtítulo, "Analise com atenção a seguinte história. Responda a pergunta".

 

Li e analisei com atenção e tirei conclusões que são bastante distintas das apresentadas. A história, com suas conclusões, é aparentemente profunda, mas em termos de negociação é superficial e piegas, ignorando questões essenciais das competências de um negociador. Assim, uma das competências fundamentais de um bom negociador é ter cuidado e discernimento para não ser manipulado e não cair em sofismas, armadilhas e conclusões equivocadas.

 

Vejamos o caso e outras conclusões que tirei:

 

Um homem morre e deixa para seus três filhos uma herança de 17 camelos, com a condição de que eles os repartam da seguinte forma:

  • para o filho mais velho a metade dos seus camelos;

  • para o do meio, um terço;

  • e, uma nona parte para o filho mais novo.

Os três filhos começaram a negociar, mas não conseguiam entrar em acordo. Como dividir os 17 camelos conforme as regras que impunham à herança, sem cortar nenhum animal ao meio? E para que servia um camelo morto e despedaçado?

 

A discussão começou a ficar séria e a relação se tornou difícil. Desesperados os irmãos recorreram à ajuda de uma sábia anciã. Após pensar durante um tempo, a anciã fez uma proposta.

 

A anciã não chegou diretamente à solução, mas como podia se concentrar no problema, afastando-se das posições, conseguiu compreendê-lo e oferecer um recurso para que os irmãos pensassem juntos. A anciã ofereceu um camelo de sua propriedade e os incentivou a achar uma solução. Com 18 camelos para repartir, a solução foi a seguinte:

  1. o filho mais velho levou a metade: 9 camelos;

  2. o filho do meio, um terço: 6 camelos;

  3. e o filho mais novo, a nona parte: 2 camelos.

Então, sobrou um camelo, e eles o devolveram à anciã.

A partir desta história foram tiradas três conclusões:

1) Muitas negociações se parecem com a situação da atividade anterior. Se os irmãos se limitassem à opção de ter 17 camelos não teriam conseguido seguir as regras estabelecidas pelo pai.

 

A proposta implicou em encontrar o camelo nº 18.

2) Sobre toda mesa de negociação, os camelos representam o ganho que cada um pode obter caso se chegue a uma meta comum.

 

Sem dúvida, muitas vezes, abandona-se a negociação deixando todos os acordos que não são exatamente adequados (nota: não está perfeitamente explicitado o que isto quer dizer).

 

3) Para alcançar uma meta conjunta é necessário reunir-se e buscar idéias criativas.

Inventar e criar opções.

Analisei esta história e tirei conclusões radicalmente distintas:

  1. O pai não sabia matemática;

  2. Os filhos eram estúpidos;

  3. As conclusões da história são superficiais, piegas e enganosas, ignorando questões básicas de negociação.

Vejamos por que:

 

1) Este pai não entendia de matemática, posto que 1/2 + 1/3 + 1/9 não dá 1 inteiro (ou seja, o total de camelos) e sim 17/18. Se dividirmos os 17 camelos, obedecendo literalmente a regra estabelecida pelo pai, vamos encontrar: 8,5 camelos para o mais velho; 5,66 para o do meio e 1,89 para o mais novo, o que dá um total de 16,05 camelos. Portanto, há uma sobra de 0,95 camelos.

 

2) Os filhos eram estúpidos, pois além de não perceberem o equívoco matemático cometido pelo pai, tentavam encontrar uma solução sem se aprofundarem no problema que precisavam resolver. Não foram capazes de pensar e ignoraram um princípio fundamental de negociação: primeiro compreenda e só então procure e encontre a solução. Se tivessem feito isto, teriam reformulado o problema. Agora a questão não era mais como dividir 17 camelos, obedecendo à regra estabelecida pelo pai, mas sim, o 0,95 de camelo restante, de tal modo que cada um recebesse um número inteiro de camelos.

 

Com esta reformulação, teriam constatado que, obedecendo rigorosamente à regra estabelecida pelo pai, o problema não tinha solução. Portanto, eles teriam de fazer algum tipo de ajustamento, ou negociação e, chegariam facilmente à conclusão de que os únicos números que resolveriam a questão eram: 0,5 para o mais velho, 0,34 para o segundo e 0,11 para o mais novo. Assim, o mais velho receberia 9 camelos o segundo 6 e o terceiro 2, divisão que importa em pequena modificação da regra estabelecida pelo pai.

 

Agora vamos à verdadeira lição do caso. Quantas vezes, uma pessoa, por não ter seguido o princípio do "primeiro compreenda e só depois encontre a solução", não faz o que sozinha mesmo poderia ter feito com inteligência e competência e acaba apelando para soluções mágicas ou auxílio de terceiros, que algumas vezes até podem ajudar, mas que em outras tantas acabam induzindo aos tremendos equívocos?

 

Registre: esta deveria ter sido a verdadeira conclusão. Ou seja, só depois que se efetuou o diagnóstico da situação, é que se deve buscar uma solução, aí sim, apelando para a criatividade, para o pensamento lateral, para o brainstorming, para a boa vontade ou o que for preciso. Caso contrário é abrir mão da própria inteligência e competência.

 

Agora, por favor, chame a sábia anciã, e proponha o mesmo problema para um pai que tivesse deixado 19 camelos em vez de 17, e espere pela resposta. Com toda certeza ela terá que apelar para o espírito do Malba Tahan.

 

Portanto, este caso, da maneira como é apresentado, está baseado num sofisma matemático. Em termos de negociação, é escolhido sob encomenda para conclusões que já se tinha. E conclusões tiradas com base em sofismas podem ser aparentemente corretas, mas profundamente equivocadas na sua essência e consistência.

 

3) A conclusão da história é superficial e enganosa, baseada em soluções mágicas, do tipo "sábia velhinha", ignorando três questões essenciais. Vejamos quais são:

  • Toda negociação é um processo, ou seja, um conjunto de passos ou etapas, que vão desde o início até o final da negociação. Estas etapas começam pela preparação, passam pela abertura, exploração, apresentação, clarificação, ação final e terminam no controle/avaliação. Os irmãos pularam duas etapas, quais sejam a preparação e a exploração, passando diretamente para a etapa de apresentação ou de solução do problema, isto é, buscavam uma solução sem entenderem a natureza do problema.

As conclusões tiradas do caso passam ao largo desta questão essencial reforçando este erro bastante comum que é buscar a solução sem entender direito, ou mais profundamente, o que se está tentando resolver. Não que não se deva ser criativo e usar o hemisfério cerebral direito. Mas tudo tem o seu momento. Assim, quem quer ter resultado superior, deve ter compreensão superior. Como negociação também é um processo decisório compartilhado, podemos consultar Peter Drucker e ver o que ele diz a respeito dos erros que são cometidos:

 

Nós também aprendemos porque as pessoas cometem esses erros. O primeiro, e talvez o principal motivo, é que elas não organizam a sua tomada de decisões. Elas tendem a fazer, intuitivamente, aquelas partes do processo que melhor podem ser feitas, racionalmente; tendem a ser racionais e basear-se em fatos naquelas partes que deveriam ser uma questão de julgamento.

 

O segundo motivo, para uma tomada de decisões deficiente, é a distribuição errada do tempo. Muitas pessoas gastam tempo procurando a resposta e muito poucas gastam procurando qual é o problema.

 

Contudo a definição certa do problema é tanto a mais importante quanto a mais difícil tarefa na tomada de decisões. Na maioria das decisões, uma vez que o problema é definido as respostas tornam-se fáceis.

Portanto, deve-se sempre ter presente que tudo o que se faz numa negociação está dentro de um processo. Se você pular ou se equivocar numa etapa deste processo, a probabilidade de chegar a conclusões falsas ou a impasses aumenta significativamente. Assim, uma capacidade que um bom negociador deve ter é de interpretação e cuidado para não ser enrolado, sobretudo, com números, isto porque, de acordo com Disraeli, há três tipos de mentiras: as mentiras simples, as mentiras deslavadas e as estatísticas. Outra é não tirar conclusões precipitadas.

  • Existem duas formas de se negociar, que são a barganha de propostas e a solução de problemas. Os irmãos estavam negociando na base da barganha. Algumas vezes é possível encontrar solução na base da barganha. Outras não, pois a barganha pode levar ao perde/perde. E era isto que estava acontecendo na negociação entre eles. Portanto, uma das primeiras questões que um negociador deve responder é se a negociação deve ser conduzida com base na barganha ou na solução de problemas. Em geral, por volta de setenta por cento das negociações podem ser conduzidas na base da barganha. Exceção para as negociações internas de uma empresa, ou seja, entre seus diversos setores, departamentos e equipes, que devem ser cem por cento conduzidas na base da solução de problemas. Mas para que você possa conduzir com propriedade uma negociação na base da solução de problemas é fundamental que se conheça consistentemente sobre o processo decisório e de solução de problemas e todas as armadilhas existentes, como o pensamento grupal, valência da solução e pressão social.

De qualquer forma, quem negocia com base na barganha de propostas, não está interessado em conhecer a fundo o que está sendo negociado. Procura defender seus interesses sem se preocupar com os da outra parte. Tem uma proposta ou solução para a questão e se preocupa em defender a sua posição. Não se propõe a chegar a um entendimento comum e compartilhado da questão com o outro negociador. Mas é preciso salientar que existem três formas de barganha de propostas que são a suave, a manipulatória e a agressiva.

Já a solução de problemas tem outro enfoque. Tem como princípio: primeiro compreenda e só depois encontre a solução. Portanto antes de se chegar a um acordo é preciso entender a questão, pelas várias óticas das pessoas envolvidas.

 

Qual a melhor forma de condução de uma negociação? Depende de cada situação. Existem situações em que a barganha de propostas pode ser perfeitamente válida. Por exemplo, quem for comprar uma roupa ou eletrodoméstico pode utilizar a barganha. Não é preciso agir como um solucionador de problemas. Existem situações, entretanto, como salientado anteriormente, em que a única forma correta de procedimento é a solução de problemas. Imaginemos as divergências entre dois setores de uma mesma empresa. Procedimentos do tipo barganha de propostas costumam levar ao perde/perde, ao enfraquecimento e destruição da própria organização. Não é possível haver sinergia organizacional se as negociações internas não forem conduzidas com base na solução de problemas. A barganha de propostas não é necessariamente antiética ou imoral. Tudo depende da forma como é feita. É apenas uma forma limitada de conduzir uma negociação, bastante utilizada e com freqüência suficiente para se chegar a um acordo.

  • A nossa capacidade de perceber, compreender, decidir e agir está baseada nos modelos mentais que adotamos. Uma das razões para desempenhos equivocados está na adoção de modelos limitados e destituídos de consistência. Para fazer face a esta questão, desenvolvi o MIN – Modelo Integrado de Negociação.

O MIN é um modelo, ou mapa, que revela todas as áreas presentes em qualquer negociação. Existem cinco áreas que são os cenários, o conhecimento do assunto, o processo de negociação, os relacionamentos interpessoais e a realidade interna dos negociadores. Todas as vezes que você negociou, ou venha a negociar, estas cinco áreas sempre se fazem presentes.

 

Numa negociação existem três cenários. O primeiro, diz respeito ao local e às pessoas que estão diretamente envolvidas na negociação. O segundo é o que está por trás destes negociadores, tal como pessoas que consideram importantes ou têm como modelo, e pessoas que definem seus limites de autoridade e lhes dão os parâmetros aos quais devem se ater. O terceiro trata dos aspectos macroeconômicos, sociais e culturais.

 

O conhecimento do assunto, objeto da negociação, importa, entre outros, em conhecimentos técnicos, econômicos, financeiros, fiscais, sociais, administrativos, jurídicos, contabilidade de custos e matemática financeira. Este ponto é de extrema importância, pois quem não conhece o assunto não tem condições de saber o que é uma boa e uma má negociação e quais as implicações e conseqüências da sua negociação.

 

O processo de negociação compreende aspectos tais como etapas, estratégias, táticas e a forma de se efetuar concessões e superar impasses. Ter a consciência de que negociação é um processo que só acaba com o cumprimento do acordo é fundamental, pois de nada adianta um acordo que, quando foi formalizado se constituía num verdadeiro sucesso, mas que na sua implementação, por má fé ou incompetência, acaba se transformando num doloroso desastre.

 

O relacionamento interpessoal começa com a capacidade de separar as pessoas dos problemas que ocorrem na negociação. Esta área também diz respeito ao processo de comunicação, à capacidade de identificar os estilos comportamentais dos negociadores e de negociar de forma apropriada com os estilos dos outros.

 

Finalmente vem a realidade interna dos negociadores que importa em aspectos como: estados mentais e emocionais, crenças e valores.

 

Saber identificar e trabalhar com competência em todas estas áreas é fundamental para quem quiser ser um negociador de alto impacto.

 

Se você quer conhecer a efetividade de um negociador, entenda como funciona o seu OCDA, quer dizer, sua capacidade de observar, compreender, decidir e agir. No fundo é isto que faz a grande diferença de desempenhos e para isto, os três pontos que apresentamos antes, isto é, o processo, as formas de negociar e os modelos mentais, são essenciais. Fora disto é cair na banalidade e na superficialidade de conceitos. Portanto, você jamais saberá o que é ser um bom negociador a partir de conclusões simplistas e simplórias tiradas a partir de metáforas equivocadas.

 

E, se você se deixou encantar quando leu, inicialmente, a história dos 17 camelos sem ter muita visão crítica, saiba que, muito freqüentemente, negociador que se deixa encantar pode acabar virando sapo.

 

 

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DORVAL MALLMANN

Consultor Sênior do Instituto MVC em Negociação, Compras e Coaching

 

 

NEGOCIAÇÃO EM COMPRAS: A PARÁBOLA DOS PÃES

 

 

Negociação apesar de ser uma arte possui princípios sólidos e bem desenvolvidos alicerçados na psicologia, na economia, na teoria das decisões, na comunicação e na sociologia. É uma das habilidades mais importantes dos executivos e apesar de possuir princípios gerais, tem peculiaridades que devem ser utilizadas em cada área de aplicação. A negociação em compras, onde o negociador lida com os profissionais de vendas, que talvez estejam entre os que mais passam por programas de treinamento no Brasil, requer um preparo específico.

 

Entender os fundamentos do que está sendo negociado é crítico para a condução de qualquer processo de negociação. Descobrir os aspectos importantes de cada situação deve ser preocupação de todo o negociador. Isto é principalmente válido nas negociações de compras, em que milhares, ou mesmo dezenas de milhares, de itens estão envolvidos. Além disso, o problema da área de compras não se restringe apenas ao número de itens, mas, principalmente, aos seus valores. Entre 60 e 80% dos custos totais de uma empresa são representados por matérias-primas, componentes, conjuntos e outros itens adquiridos. O presente artigo apresenta mais algumas características da Matriz de Posicionamento de compras que já foi discutida de forma preliminar em edição anterior. Esta matriz possibilitará a criação de políticas de negociação diferentes de acordo com a importância dos itens. Isto ajudará o negociador bem preparado a colocar seus argumentos de forma construtiva e convincente. Para demonstrar a forma como os direitos podem ser reivindicados vamos nos socorrer em um conto de Malba Tahan.

 

A parábola dos pães

Dois mercadores haviam terminado de realizar suas vendas e estavam voltando à sua cidade. Um deles era um negociador eficiente e eficaz, que sempre procurava obter o máximo possível para si, mas sempre com justiça. O menor caminho que existia até sua cidade passava por um deserto. No meio do caminho encontraram um xeique que havia sido assaltado e estava faminto. Assim que os avistou foi logo dizendo: "Vocês têm algo que eu possa comer? Vou retribuir em ouro tudo o que me fornecerem". Um dos mercadores disse: "Tenho comigo cinco pães, mas preciso comer ao menos parte deles até chegar à próxima cidade". O outro complementou: "E eu possuo apenas três, mas também posso reparti-los". "Ótimo, disse o milionário, quando chegarmos à cidade darei oito moedas de ouro em troca dos pães". Assim foram andando até que finalmente atingiram o seu destino. Assim que lá chegaram os dois foram recompensadas. Ao que fornecera três pães foram entregues três moedas de ouro, ao outro cinco.

 

Peço ao leitor que faça uma pausa agora.

Em sua opinião, a divisão foi justa? Se considerar que não foi, o que está errado?

 

_______________________

1- SE EU TIVER DE FAZER TUDO ISTO ANTES DE NEGOCIAR NÃO TEREI TEMPO PARA COMPRAR, Insight, Edição 83, julho de 2005.

2- Malba Tahan é o pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza, original matemático brasileiro, escritor de diversos livros, entre eles "O homem que calculava", publicado originalmente em 1937.

 

 

Pois bem, aquele que entrara com cinco pães, o negociador eficiente e justo, não concordou. "A divisão não está correta. Eu tenho direito a sete moedas e meu companheiro de viagem a apenas uma", afirmou. Nem o xeique nem o outro mercador entenderam a lógica da nova divisão. Ambos exigiram uma explicação, pois se um entrara com cinco pães e o outro com três era justo que este fosse o número de moedas destinadas a cada um. A nova divisão proposta à primeira vista parecia um despropósito. Calmamente o primeiro mercador explicou ao xeique e ao outro viajante. "Enquanto andávamos pelo deserto, cada vez que queríamos comer dividíamos os pães em três partes. Destinávamos então uma a cada um de nós. Pois bem, o meu companheiro que possuía três pães, ao dividi-los contribuiu na realidade com nove pedaços. Eu que estava de posse de cinco, contribui com quinze. Os nove pedaços fornecidos pelo nosso companheiro, mais os quinze que forneci totalizaram vinte e quatro pedaços. Como sempre que um de nós comia um pedaço de pão, todos os demais também os consumiam, na realidade tocou a cada um, um terço dos vinte e quatro pedaços, ou oito pedaços de pão. Pois bem, nosso companheiro de viagem que entrara com três pães, ou nove pedaços e comera oito, na realidade somente contribuiu com um pedaço para o consumo do xeique. Eu que possuía cinco pães ou quinze pedaços também consumi oito. Por isso, na realidade, forneci sete para saciar a fome do xeique. É justo, portanto, que as moedas sejam divididas desta forma, ou seja, a mim tocam sete moedas e ao meu companheiro de viagem uma". Fascinado o xeique entregou as sete moedas ao matemático. Como forma de não frustrar o outro viajante deixou-o ficar com as três que lhe destinara originalmente.

 

Se o problema não tivesse sido analisado de forma correta, facilmente o primeiro negociador aceitaria as cinco moedas; ou seja, para encontrar a lógica que existe por trás da negociação é fundamental para que nossos objetivos sejam alcançados. Este história obviamente é uma parábola. Obter as sete moedas em negociações reais teria sido muito mais complexo. Esperar que alguém lhe desse as três quando na realidade mereceria apenas uma, mais complexo ainda. O que mostraremos a seguir é uma ferramenta que pode ser utilizada para entender melhor os mercados nos quais atuamos e talvez aumentar a probabilidade de alcançarmos as sete moedas.

 

A matriz de posicionamento de compras

Em artigo anterior apresentamos um modelo que sugeria formas diferentes de negociação de acordo com a situação dos itens comprados pela empresa. Este modelo gerou o que chamamos de matriz de posicionamento de compras. A matriz, como pode ser vista no quadro a seguir, possui duas dimensões. Uma representa o impacto que os itens têm nos custos totais da empresa. A outra diz respeito aos riscos. Dependendo da combinação de custos e riscos, foram recomendadas políticas diferentes, que conduzem a diferentes formas de negociação. Vamos então analisar os componentes do risco.

 

Risco

Participação nos custos

Estratégia de compras

Preocupação fundamental

Baixo

Baixa

Compras táticas

- Minimizar a atenção.

- Reduzir o tempo necessário para comprar.

- Automatizar as compras.

- Reduzir outros custos associados a compras como contas a pagar, qualidade etc.

Baixo

Alta

Lucro tático

- Conhecer todas as alternativas de mercado.

- Realizar concorrência para redução de custos.

- Procurar fornecedores alternativos.

Alto

Baixo

Segurança estratégica

- Garantir o suprimento.

- Aceitar pagar preço diferenciado.

- Avaliar novas alternativas tecnológicas

Alto

Alto

Críticos estratégicos

- Acompanhar permanentemente os itens.

- Desenvolver novos fornecedores.

- Gerar sistemas de acompanhamento de preços.

- Negociar, negociar, negociar.

Matriz de Posicionamento em Compras

 

Os ganhos mais significativos se encontram nos itens que fazem parte dos grupos cujas estratégias recomendadas são: lucro tático e crítico estratégico.

O risco de fornecimento foi caracterizado por uma combinação de:

  • Disponibilidade de fornecedores – os insumos para os quais existem diversos fornecedores são considerados de baixo risco para a empresa;

  • Requisitos de qualidade – os insumos que não são fundamentais para a qualidade são de alto risco para a empresa;

  • Requisitos relativos à segurança pessoal ou ambiental os insumos que podem gerar impactos ambientais e que representem ameaças à segurança das pessoas são de alto risco para a empresa.

O problema mais significativo é que estes três fatores normalmente aparecem associados. Insumos que apresentam altos requisitos de qualidade tendem, devido às possíveis dificuldades de produção, a ser fornecidos por poucas empresas. Da mesma forma, itens que podem gerar impactos ambientais significativos também costumam possuir poucos fornecedores.