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FRANCISCO BITTENCOURT
Consultor Sênior do Instituto
MVC
Negociar Pelo
Telefone – Do que se trata?
As técnicas de
negociação, de um modo geral levam as pessoas a procurar formas
de confronto produtivo, onde, por meio de atitudes,
comportamentos, sinais verbais e não verbais possam transmitir
aos interlocutores a segurança necessária ao fechamento de
processos negociais, mais ou menos complexos.
Os recursos da
tecnologia, entretanto, vêm trazendo novas opções, pelas quais
se possam fechar acordos, estabelecerem contratos, aprofundar
discussões e gerar resultados, em negócios, de maneira a não
considerar obstáculos à distância, ou mesmo à visualização dos
interlocutores negociais.
Embora se possa
contar, na atualidade com recursos que permitam a visualização
dos interlocutores – videofones, skype,
videoconferências, e outros mecanismos contemporâneos, boa parte
das negociações se faz ainda por meio do velho, incansável e
sempre disponível telefone.
O que se apresenta
aos negociadores é: de que maneira superar a barreira da não
visualização, diante da possibilidade de enfrentar um
interlocutor exigente, ou indeciso, hostil ou amigo, e ainda
assim, lutar para que o acordo se faça presente?
Será interessante,
à luz das técnicas conhecidas aplicáveis a processos de
negociação, encontrar o caminho da superação, nos casos em que o
instrumento de contato é o telefone, em todas as suas variações
– fixo ou celular. Senão, vejamos:
PREPARAÇÃO
-
A definição de objetivos, prioridades e real interesse
permanecem e prevalecem, quando se faz necessário estabelecer,
previamente, quais são os limites e os caminhos a serem
trilhados na negociação;
-
O que se quer na negociação, o que é importante dentro daquilo
que se quer e o que efetivamente importa na negociação deve
estar claro antes de se pensar em “levantar o gancho”, mas
antes de digitar o número do interlocutor;
-
O que sei sobre meu interlocutor, qual a experiência anterior
em relação a negociações feitas;
-
Qual o objetivo, qual a prioridade e o real interesse deste
meu interlocutor na negociação a ser realizada?
-
O que efetivamente interessa a mim e ao meu interlocutor nesta
negociação; provavelmente é neste ponto, ou nestes pontos que
nossa conversa telefônica vai se tornar mais tensa e objetiva;
-
O que efetivamente interessa a mim, mas não interessa a ele na
negociação; provavelmente será um ponto que tentarei manter à
tona e provavelmente o meu interlocutor tentará fugir da
discussão;
-
O que efetivamente interessa a ele, mas não interessa a mim na
negociação; seguramente será um ponto que ele tentará manter à
tona e eu tentarei escapar do assédio;
-
O que não interessa a mim nem a ele não deve ser problema na
negociação, mas deve ficar guardado no “freezer mental”, para
quem sabe usar como moeda de troca no futuro da negociação;
-
Definir de forma enfática, qual a “moeda” da negociação, tanto
para mim, como para ele. Este é o ponto pelo qual a negociação
fluirá mais ou menos rapidamente (dependendo de sua
clarificação e sua homogeneidade entre as partes envolvidas).
O CONTATO TELEFÔNICO
-
Antes de se dirigir para o telefone, alguns cuidados devem ser
tomados, de maneira a não comprometer o processo negocial;
-
Quais seriam as
perguntas que o meu interlocutor provavelmente me faria, a
respeito de nossa negociação;
-
Quais seriam as
respostas adequadas que eu deveria dar a ele, de maneira a não
comprometer o processo negocial;
-
Quais seriam as
perguntas que eu deveria estar preparado para fazer, no
sentido de agilizar o provável acordo, ou fechamento do
negócio;
-
O tom de voz, o cuidado na expressão verbal a ser adotada, o
caminho a ser levado durante a conversa. O tratamento a ser
dispensado leva o negociador a dois caminhos: a conversa
baseada em apelos emocionais, permitindo ao interlocutor fazer
uma idéia fantasiosa do que está sendo dito, ou à conversa
argumentada, com fundamentos mais lógicos e um foco mais
conceitual dos temas a serem abordados.
-
Fontes comuns de conflitos:
-
Falha na compreensão do que foi dito, ou
seja, o receptor da mensagem entende de forma diferente
daquela que o emissor desejaria; neste caso será importante
questionar o interlocutor sobre a forma como entendeu a
mensagem, e não perguntar simplesmente se ele a entendeu;
-
Desonestidade, quando percebida deve ser
desarticulada de imediato, de uma forma questionadora e não
agressiva, mostrando ao interlocutor que a situação exposta
por ele não encontra respaldo em sua visão do problema;
deixar passar o fato pode representar um obstáculo maior
mais tarde, durante a negociação;
-
Negligência, cujo tratamento deve ser
semelhante ao proposto para a desonestidade; se a negociação
pressupõe compartilhamento de responsabilidades, compactuar
com um ato negligente pode levar a conseqüências
desagradáveis no processo negocial;
-
Apego exagerado às próprias opiniões e
posições sobre o assunto indicam que os interlocutores devem
rever sua linguagem, sua abordagem e sua forma de se
comunicar com o outro. A manutenção de posições firmes, mas
contraditórias leva a um impasse; rever sua posição no
momento da descoberta da dificuldade pode ajudar a desatar o
nó criado;
-
Inexistência de limites a serem considerados
na negociação, deve indicar uma necessidade, no momento
inicial da conversa, de clarificação de todas as situações
que não devem ser ultrapassadas; este “contrato de
desempenho” pode ser delineado no momento inicial da
conversa e relembrado, sempre que se fizer necessário;
-
Falta de disposição para enfrentar o
conflito surgido durante a conversa não levará a um bom
resultado. Atacar as pessoas que “estão do outro lado da
linha”, ou aceitar passivamente um ataque pessoal leva a uma
situação de submissão, incompatível com a negociação. Será
necessário, nestes casos, se não for possível reverter à
situação, chamando o outro lado para uma atitude mais
tranqüila, interromper o contato e reiniciá-lo mais tarde;
-
Medo do interlocutor, ou incapacidade de
utilização de argumentos eficazes, em face de diferenças
tais como hierarquia, desníveis de poder, autoridade ou
falta de empatia entre os participantes da conversa. Nestes
casos será interessante, antes do contato verificar as reais
condições de confronto entre os interlocutores, para que a
negociação não se transforme num ganha–perde desnecessário e
incompatível com o que se propõe.
RESPOSTAS ÀS TÁTICAS DE ABORDAGEM DO INTERLOCUTOR:
-
Ignorar uma tática decorrente de uma investida mais forte do
seu interlocutor pode ser eficiente, quando ele sinta que não
surtiu efeito; é bom lembrar que uma tática ignorada é,
essencialmente, uma tática derrotada;
-
Chamar a atenção do interlocutor para esta tática, permitindo
aos seus interlocutores perceberem que você identificou o que
está sendo feito. Esta atitude poderá levar os interlocutores
a perceberem que um bom caminho será abandonar a tática;
-
Responder à tática de forma compatível com a abordagem adotada
pelo interlocutor; há necessidade de que se tomem alguns
cuidados, no sentido de que esta resposta não intensifique
potenciais conflitos;
-
Propor abordagens e atitudes mais objetivas, que levem aos
resultados, ao invés de acirrar conflitos. Esta forma de ação
pode levar o interlocutor a perceber que a continuação com uma
tática ineficaz leve a um impasse.(1)
A negociação pelo
telefone tem um perfil que exige do negociador uma atenção
especial sobre a impossibilidade de enxergar seu interlocutor.
Neste caso “a sabedoria budista nos guia nessa direção, através
dos seguintes conselhos”:
-
Ouça mais as palavras que a pessoa;
-
Ouça o conteúdo mais que as palavras;
-
Ouça mais o verdadeiro significado que o conteúdo;
-
Ouça mais sua
experiência interna que o significado intelectual.(2)
A negociação por
telefone deve levar em consideração a inexistência deste sentido
importante que é a visão e, portanto leva o negociador a
otimizar, quando não maximizar a eficácia dos outros sentidos.
Vale lembrar a
matriz do relacionamento, utilizada em negociação quando da
abordagem a ser utilizada:
•
MENTIRA COM DESRESPEITO
–
DANOS IRREPARÁVEIS AO
RELACIONAMENTO, GERANDO PROVAVELMENTE UMA POSTURA AGRESSIVA, QUE
COMPROMETERÁ, SEM DÚVIDA, TODO O PROCESSO NEGOCIAL;
•
VERDADE COM DESRESPEITO
– COMPROMETE
O RELACIONAMENTO, ENVOLVENDO UMA POSTURA AGRESSIVA POR PARTE DO
INTERLOCUTOR EMISSOR DA MENSAGEM;
•
MENTIRA COM RESPEITO
– COMPROMETE
O RELACIONAMENTO, POIS GERA UMA PROVÁVEL CONSEQÜÊNCIA FUTURA
PARA O PROCESSO NEGOCIAL;
•
VERDADE COM RESPEITO
– RELACIONAMENTO
CONSTRUTIVO, SEM DÚVIDA A MAIS ADEQUADA FORMA DE ABORDAGEM.
LEWICKI, Roy, SAUNDERS, David. M. & MINTON,
John. Fundamentos da Negociação. RS: Bookman,
2002.
FERGUSON, Marilyn. O Tao na negociação.
RJ: Record, 1996.
CONCLUSÃO
As técnicas
negociais tradicionais utilizadas nas diversas formas de
negociação existentes são aplicáveis na negociação pelo telefone
– quer sejam gerenciais, comerciais, sindicais, familiares,
dentre outras. Esta forma, entretanto exige um cuidado especial.
Torna-se
fundamental que não sejam esquecidas algumas regras importantes,
para que a negociação não se perca pela falta de sensibilidade
dos interlocutores:
a) não
dispor de uma única proposta, para se entender, pelo telefone,
com seus interlocutores;
b) compreender
claramente os interesses dos interlocutores;
c) despersonalizar
ou não emocionalizar o processo negocial;
d) ter
a certeza de sempre poder dizer não, quando necessário;
e) confiar
no processo construído para negociar e ter cuidado com alguns
desvios, ou atalhos;
f) entender
que algumas negociações pelo telefone, por suas características,
podem apresentar resultados melhores do que outras;
g) estar
sempre aberto a flexibilizar as posições, e deixar claro que
esta atitude é esperada dos interlocutores;
h) ter
uma idéia geral do que se propõe globalmente a negociação e não
fragmentar a discussão, para que não haja perda de substância na
conversa;
i) evitar
estratagemas de força, truques sujos ou ciladas e táticas de
manipulação em relação aos interlocutores;
j) perceber
se há concessões excessivas de sua parte, quando esta postura
enfraquece a posição em relação ao interlocutor.(3)
É importante ser
competitivo na negociação: saber usar as informações para obter
bons resultados; saber trabalhar as diversas manifestações
advindas do interlocutor ou do ambiente negocial, sem se deixar
levar pelas pressões; estabelecer um diálogo produtivo, voltado
para a cooperação e não para a competição; usar uma comunicação
fluida e transparente; usar a flexibilidade como instrumento
negocial; estar seguro que cada negociação é diferente da
anterior e identificar pontos de aprendizado, enquanto mantém
seu diálogo.
Ao final desta
demonstração de competência negocial, se o negociador atinge o
resultado esperado terá atingido a fase da eficácia negocial –
conhecimento, habilidades e atitudes provocando resultados
esperados.
ALBRECHT, Karl & ALBRECHT, Steve. Agregando valor à
negociação. SP: Makron Books, 1998.
Material
retirado do Pocket MBA Competência Organizacional em
Negociação.
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