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José Augusto Wanderley
Autor do
livro Negociação Total: Encontrando Soluções,
Vencendo
Resistências, Obtendo Resultados
Ed. Gente
(10ª Ed.)
COMO NEGOCIAR BEM
COM PESSOAS DIFÍCEIS
Negociar com pessoas difíceis
costuma ser um grande problema. Para negociar bem nestas
situações, é preciso realizar que existem vários tipos de
pessoas difíceis e várias razões para que isto aconteça. Assim,
é fundamental não colocar todos os gatos no mesmo saco e,
portanto, diagnosticar com competência qual a verdadeira
situação que se está enfrentando. Devemos ter em vista um
princípio básico inerente à boa condução de uma negociação:
"cada caso é um caso". Portanto, não acredite que o que deu
certo numa negociação fatalmente dará certo em toda e qualquer
negociação. Há casos em que pode acontecer justamente o oposto,
ou seja, os procedimentos que levaram ao sucesso no passado
podem ser a razão do fracasso no presente.
CATEGORIAS DE PESSOAS DIFÍCEIS
Existem três categorias de
pessoas difíceis: (1) as incompetentes que conhecem pouco, ou
mesmo desconhecem o que estão negociando, bem como os
fundamentos do processo de negociação; (2) as com distorções e
disfunções do seu estilo comportamental; e (3) as que só querem
levar vantagem, centradas unicamente em seus próprios interesses
e que se valem de todos os meios, inclusive os não éticos, para
atingir seus propósitos. Portanto, o ponto de partida é
identificar com precisão em que categoria a pessoa difícil com
quem você está negociando se encaixa.
Pessoas que por conhecerem pouco,
ou mesmo desconhecerem, o que estão negociando bem como os
fundamentos do processo de negociação, podem ter expectativas
irrealistas e estabelecerem objetivos completamente
inatingíveis. Algumas vezes são muito rígidas, em suas posições.
Noutras tornam-se extremamente desconfiadas, suspeitando de
qualquer coisa e de tudo e de todos. Tem dificuldades ou são
incapazes de formular novas alternativas ou mesmo de avaliar as
alternativas que lhes são propostas.
Certa vez, um gerente de uma
grande empresa estava muito interessado em comprar uma casa e já
havia feito ofertas acima do que seria razoável. O vendedor,
entretanto, continuava a se manter intransigente em seu preço
absurdo. O gerente, em vez de prosseguir no jogo de ofertas,
resolveu parar para analisar e compreender melhor a situação.
Acabou descobrindo que um outro parente do proprietário havia
vendido, e muito bem, uma casa semelhante por um valor
correspondente à sessenta por cento do valor ora solicitado. O
que estava acontecendo é que, por uma questão de vaidade e
competição familiar, o vendedor desejava obter um valor bem
acima daquele que foi obtido por seu parente. O que fez o
comprador? Aceitou o valor solicitado, condicionando esta
aceitação ao pagamento à prestação, o que foi aceito pelo
vendedor. Este, entretanto, por desconhecer matemática
financeira, não soube identificar que o valor presente das
prestações negociadas era bem menor que o de outras ofertas
feitas anteriormente. Enfim, o que de fato interessava e atraía
o vendedor era o valor nominal e a aparência, posto que não
sabia como calcular o valor real da venda.
DISTORÇÕES DOS 4 ESTILOS
Para que possamos compreender a
questão das distorções e disfunções do estilo comportamental,
mencionadas na segunda categoria de pessoas difíceis, devemos
considerar que existem 4 estilos comportamentais, que são
controlador, apoiador, catalisador e analítico.
Os controladores têm uma grande
necessidade de realização. Quando desenvolvem o lado positivo
são
decididos, objetivos, eficientes, rápidos e assumem riscos.
Entretanto, quando desenvolvem o lado negativo, e tornam-se
pessoas difíceis, são críticos, superexigentes, mandões,
impacientes e insensíveis. São os chamados "Átila, rei dos
Hunos". Por onde passam não nasce mais grama. São super
competitivos e pessoas cujas opiniões e pontos de vista devem
sempre prevalecer.
Como negociar com um
controlador difícil? Saiba ser firme sem ser grosseiro.
Eles gostam de competir. Mas quem fica intimidado diante de um
controlador dá margem a que ele fique cada vez mais agressivo ou
então passe a desprezar esta pessoa. Quando você está diante de
um destes tratores e ele começar a zangar-se ou gritar com você,
pare por um momento, espere que ele diminua ligeiramente o
ataque e faça o seu movimento posicionando-se. Caso ele o
interrompa, diga em voz firme e alta: "Você está me
interrompendo". Se ele não parar diga novamente e continue com a
sua argumentação falando do seu ponto de vista e de uma maneira
assertiva. Chame-o de uma forma clara e alta pelo nome. Procure
mantê-lo sentado e sente-se também. De qualquer forma, tenha
cuidado para que seus movimentos não sejam interpretados como um
ataque. Estas pessoas quando enfrentadas em seus ataques, mas
sem se sentirem derrotadas, podem fazer aproximações amigáveis
com você. Neste caso aproveite a deixa e responda de uma forma
amigável. Mantenha o contado olho a olho. De forma alguma
procure fazer com que ela se sinta por baixo. A não ser que você
queira entrar num longo conflito.
Os apoiadores, em certo sentido, são o oposto dos
controladores. Têm como necessidade principal a aceitação,
inclusão e pertencimento. Quando desenvolvem o lado positivo são
amáveis, compreensivos, bons ouvintes, prestativos
e jogam para o time. Entretanto, quando desenvolvem o
lado negativo tornam-se
supergentis e superagradáveis e precisam e fazem tudo para serem
aceitos por todas as pessoas o tempo todo. Eles procuram fazer
com que os outros se sintam amados e gostados. Por não gostarem
de ferir as pessoas, evitam conflitos, são extremamente
dissimulados, ineficientes e não dão as suas opiniões
sinceras. Prometem com o único intuito de agradar. Assim, acabam
concordando com coisas que posteriormente não cumprem. Portanto,
alguém pode fechar aquilo que considera um ótimo acordo com um
apoiador e constatar posteriormente que nada foi cumprido. Ou
pode sair de uma entrevista para admissão em um novo emprego
crente que obteve a vaga para depois verificar que nunca mais
foi contatado. Como negociar com um apoiador difícil? Eles devem
se sentir realmente aceitos para emitirem suas verdadeiras
opiniões. Caso contrário, você estará tirando conclusões ou
tomando decisões baseado em informações falsas. Eles gostam de
ser vistos como pessoas em quem você está interessado. Se for
possível, fale sobre aspectos pessoais dos supergentis, tal como
alguma coisa da família ou da roupa que estão vestindo. Mas isto
deve ser autêntico, pois eles são muito perceptivos e estão
atentos aos sinais não verbais. Quando começarem a elogiar
alguma coisa que você tenha feito, se você quiser a opinião
verdadeira, agradeça e pergunte pelo que está bom, mas que pode
ser melhorado, não pelo que está mal. Diga que embora esteja
bom, sempre existem coisas que podem ser melhoradas. Não permita
que se comprometam, irrealisticamente, como prometendo realizar
tarefas cujo prazo você sabe de antemão que não podem ser
cumpridos. Procure ser específico e amarrar bem as coisas, de
modo que fique evidente a impossibilidade do cumprimento da
tarefa no prazo previsto. Procure fazer negociações em que fique
claro o que cada um está recebendo de modo que deixe a ambos
satisfeitos. Finalmente, esteja atento ao humor com que podem
dizer as coisas. Como não têm por hábito falar diretamente o que
pensam de negativo, freqüentemente usam de um humor de duplo
sentido. Assim, esteja muito atento às sutilezas.
Os catalisadores são pessoas
orientadas para idéias, cuja necessidade principal é
reconhecimento.
Quando desenvolvem o lado positivo possuem qualidades bastante
apreciadas. São criativos, empreendedores, persuasivos,
estimulantes e entusiásticos. Porém quando desenvolvem o lado
negativo, de forma a se tornarem pessoas difíceis, tornam-se
exclusivistas, impulsivos, difíceis de crer e inconstantes.
Quando têm necessidade de serem super reconhecidos, estes
aspectos negativos se exacerbam e tornam-se pessoas bem
difíceis. Tendem a vender demais a si mesmos e não cumprir o que
prometem. São os chamados ego-inflados. Ocupam todo o espaço.
São capazes de frases como "bendito é o sol que tem a mim para
iluminar". Ficam tão entusiasmados com suas idéias, sobretudo
quando percebem que estão causando um efeito positivo, que se
tornam absolutamente estratosféricos, perdendo vínculo com a
realidade. Quanto mais efeito suas idéias causam, mais exageram.
Não podem se conter. Costumam pular de galho em galho e estão
cheio de projetos maravilhosos, mas totalmente inconclusos. São
os tipos que vendem geladeira para esquimós. Quando fazem um
trabalho em conjunto querem ter todos os méritos, mesmo que as
suas contribuições sejam mínimas.
O que fazer para tratar com um
catalisador difícil? Tenha um grande cuidado para não se deixar
envolver pelo grande poder de persuasão do catalisador difícil.
Procure ser objetivo sem ser detalhista. Seja firme e esteja
preparado para enfrentar as reações de explosão que são
freqüentes quando ele está sob tensão. Procure dados de
realidade e acima de tudo tenha presente o seu foco. É preciso
encontrar uma forma de trazê-lo para a realidade. Caso você o
perca, poderá embarcar numa viagem às nuvens. Quando ele começar
a pular de galho em galho, saiba trazê-lo para o seu foco.
Procure encontrar formas efetivas de elogiá-lo. É preciso
cuidado para que este elogio não tenha qualquer tom irônico,
pois poderá botar tudo a perder. Se você está num trabalho de
grupo defina tudo muito bem definido: atribuições e créditos.
Como freqüentemente não cumprem os prazos, por estarem
envolvidos em mil atividades e com suas idéias maravilhosas,
você, para que o trabalho seja concluído no prazo, poderá ter de
fazer tudo sozinho e na hora de apresentar o trabalho, acabar
numa posição periférica. Assim, seja firme, com pés no chão e
não deixe que o seu espaço seja invadido.
Os analíticos têm como principal
necessidade a segurança. Quando desenvolvem o lado positivo são
organizados,
sérios,
cuidadosos, pacientes e controlados. Entretanto, quando
desenvolvem o lado negativo tornam-se meticulosos, teimosos,
procrastinadores e perfeccionistas. Sempre querem mais
informações e em função disto tornam-se indecisos ou acabam se
perdendo em mil detalhes. Um outro ramo de analíticos difíceis é
o dos negativistas. Com alguma freqüência, são pessoas
competentes, que respondem a qualquer sugestão produtiva com
"isto não vai funcionar", "nós já tentamos isto antes" ou
"esqueça, eles nunca vão nos deixar fazer". É preciso não
confundir o analítico saudável, que diante de uma nova proposta,
cuidadosamente considera as razões para não se seguir um
determinado curso de ação, do negativista que, por princípio, é
contra. É importante considerar que muitos projetos falharam
porque ninguém se perguntou o que poderia sair de errado. Assim,
se diante de uma análise negativa você perguntar o que se
poderia fazer a respeito, e receber algum tipo de sugestão para
superar a situação, você está diante de um analítico saudável.
Se como resposta você ouvir um "não há nada que possamos fazer",
você está diante de um negativista.
Como
negociar com um analítico negativista? Primeiramente não se
deixe abater e não se torne pessimista. Tenha presente que o
negativismo é contagiante. Construa suas defesas emocionais
através de um otimismo realista e o manifeste ao negativista,
mais de uma vez se for preciso. Procure contar exemplos que
mostrem que já houve casos de superação da situação. Na pior das
hipóteses, apele para a sua fé ou crença de que há uma solução.
Não tente persuadir o negativista, pois isto é praticamente
impossível. Vai ser uma perda de tempo. Procure fatos que
permitam conhecer melhor a situação. É fundamental as perguntas,
o que, quem, como, quando e onde. Cuidado com os porquês
precipitados, pois o negativista vai saltar para a sua conclusão
negativa. E nisto eles são bons. Não se apresse
em conclusões. Quando as alternativas de ação
forem finalmente geradas, você pode usar o negativista
construtivamente, procurando que digam quais as possíveis
conseqüências negativas e riscos, caso um determinado curso de
ação seja implementado. Assim, tenha paciência e saiba que o
negativista pode ser utilizado positivamente no processo de
solução de problemas.
A terceira categoria de pessoas
difíceis são as que só querem levar vantagem, centradas
unicamente em seus próprios interesses e que se valem de todos
os meios, inclusive os não éticos, para atingir seus
propósitos. Neste caso, a primeira coisa a fazer é conhecer as
suas alternativas de ação que são: retirada, tornar-se difícil
também, na base de responder na mesma moeda ou seja do olho por
olho e dente por dente, ou tentar converter a situação,
inclusive buscando o desfecho ganha/ganha. Para isto é preciso
que você levante as oportunidades existentes, as possibilidades
de satisfazer os seus interesses, necessidades e expectativas e
o quanto você vai ter de pagar, inclusive em termos de desgaste
emocional, ou seja, a relação benefício/custo. Sempre que se
dispõe da possibilidade da retirada, ou seja, poder dizer para o
outro lado, "até logo, não quero mais participar deste jogo", se
está numa situação forte e confortável, pois é possível
estabelecer as condições e regras para se voltar a negociar, se
isto for do interesse do outro lado. A linha de ação do "olho
por olho" acredita que é possível converter uma situação através
da sinalização para o outro lado de que se ele for agressivo e
intolerante terá uma resposta agressiva e intolerante. E se ele
mudar, tratando a situação com respeito e consideração terá a
mesma resposta, ou seja, respeito e consideração. Algumas vezes
é possível alterar a situação adotando-se esta linha de ação.
Outras vezes, entretanto, este procedimento faz aumentar a
escalada de conflito, fazendo que se chegue, inclusive, a um
resultado perde/perde. A terceira linha de ação, tentar
converter a situação, inclusive, buscando o desfecho
ganha/ganha, é a mais difícil e a que demanda maior competência.
Os lucros de se seguir esta linha de ação, entretanto, podem
compensar significativamente os custos e os riscos de adotá-la.
ALGUMAS DICAS
Eis os principais pontos a serem
considerados:
-
Tenha clareza de seus objetivos
e procure manter o foco;
-
Conheça todos os truques e
ardis existentes para que você não seja vitimado por algum
deles. Estes negociadores têm como padrão obedecer a 1a.
Lei de Roger, um consultor europeu, especialista em pirataria
e trambiques ingleses, que é: Não pecar contra o 11o.
mandamento, isto é, não seja pego. Assim, vale tudo. O
importante é não ser flagrado. Existem duas categorias de
táticas ganha/perde: as falcatruas e as de fragilização do
estado mental. São exemplos de falcatruas os dados falsos, a
criação de dependências, as posições iniciais extremadas, os
falsos acordos e a surpresa final. Entre as táticas de
fragilização do estado mental estão os esquemas de sedução e
encantamento, as ameaças, a provocação de situações
estressantes, o coitadinho, o menosprezo e o bom sujeito-mau
sujeito;
-
Separe as pessoas dos
problemas, isto é, não permita que os comportamentos das
pessoas difíceis e as táticas ganha/perde utilizadas, façam
com que você se perturbe emocionalmente e perca de vista o seu
foco bem como a substância do que está sendo negociado.
Existem alguns comportamentos que podem acontecer nestas
situações e que são extremamente negativos, tais como
agressão, regressão, fixação, racionalização, resignação e
compensação;
-
Siga as etapas do processo de
negociação. Estas etapas são: preparação, abertura,
exploração, apresentação, clarificação, ação final e
controle/avaliação. Tenha presente os seguintes pontos: a
maioria das negociações é ganha ou perdida de acordo com a
qualidade da preparação. Assim, leve na devida conta os
aspectos relacionados à informação, tempo e poder. Procure
primeiro compreender depois ser compreendido. Identifique os
interesses comuns complementares e opostos. Identifique ou
construa alternativas de ganho comum. Apresente sua proposta
em função dos interesses e necessidades do outro lado,
sobretudo em termos de soluções e benefícios. Tenha sempre em
vista que a negociação não acaba quando o acordo foi firmado e
sim quando foi cumprido;
-
Considere a negociação com uma
pessoa difícil, inicialmente, como uma oportunidade e não uma
ameaça. Procure verificar se ela de fato existe;
-
Considere que o importante não
é o que se faz, mas a resposta que se obtém pelo que se faz.
Assim, se o que você está fazendo não está produzindo os
resultados que você deseja, mude. Encontre outros caminhos.
Tenha flexibilidade.
Assim, o fundamental para o êxito
é o entendimento total de todos os fatores indispensáveis para o
sucesso. E isto não importa com quem se esteja negociando.
Para finalizar, um último mas
importante aspecto: é preciso que você se pergunte se, de fato,
a pessoa difícil é o outro e não você, pois você pode estar
projetando no outro as suas dificuldades, padrões
comportamentais e maneiras de ser. Pode ser que o outro esteja
se dizendo mentalmente: "puxa, mas que sujeitinho difícil e
complicado".
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MBA Mudando o Comportamento Organizacional nas Negociações (10
Módulos, incluindo Coaching).
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