Os valores
influenciam o trabalho em equipe?
Movida pelo forte
sentimento da realização pessoal, pela recente defesa de minha
Dissertação de Mestrado, não poderia deixar de compartilhar com
os leitores estas idéias, até porque o tema está relacionado à
gestão de pessoas.
Trabalho
principalmente com as empresas privadas e públicas, mas sempre
atuei como voluntária em algumas organizações do Terceiro Setor,
por ter especial interesse pelo setor social e pela consciência
das contribuições que poderia dar como cidadã. Este fato, somado
à constatação da escassa literatura ainda existente referente á
essa área que tanto vem crescendo a cada dia no Brasil e no
mundo, motivou o tema de minha pesquisa: Como os valores
pessoais influenciam o modo de trabalhar em equipe em
organizações do terceiro setor?
Considerando o
fato de que vivemos num contexto sócio-econômico e empresarial
que demanda novas soluções para os problemas, novas perspectivas
de análise, novas ferramentas de trabalho, não poderia me eximir
deste compromisso com a inovação e fazer uma pesquisa que não
fosse convencional, de fundamentação positivista e com
métodos estatísticos. Decidi ousar, e partir para um estudo de
caráter qualitativo. Utilizei entrevistas (apenas com gestores)
e a técnica de construção com fotografias em workshops
com grupos de oito profissionais, que atuam nos projetos sociais
de três ONG’s ( no Rio de Janeiro), organizações que gozam de
grande credibilidade, cujos indicadores de gestão são positivos
e demonstram comprovado impacto social.
A fotografia
parece ser pouco utilizada como técnica nas pesquisas acadêmicas
em administração, aqui no Brasil, e especialmente quando se
trata de trabalhos em grupos, e só existe registro de seu uso
como técnica complementar às entrevistas individuais. A
aplicação de uma técnica essencialmente projetiva em grupo, deu
ao trabalho um caráter bastante inovador e interessante, que
permitiu analisar muito além do conteúdo do discurso dos
sujeitos de pesquisa, possibilitando uma compreensão do
implícito nas escolhas das fotos, nas interações entre as
pessoas, enquanto desenvolviam a tarefa proposta nos
workshops, e em todo gesto, que acaba por ser um gesto
comunicativo em sua essência.
O referencial
teórico utilizado foi da Teoria da complexidade (CAPRA,1981), (MORIN,2004),
(RITTO,2005), que possibilita uma compreensão holística,
interdisciplinar, multicausal de todos os fenômenos, inclusive
da formação do sujeito e de seus valores, entendendo o Sujeito
como AUTOR, mais do que um ATOR social. em recíproca e profunda
interação com seus ambiente, por meio de um dialogo criativo e
em permanente transformações.
Construí ,ao longo
dos capítulos, uma trama entre as referências bibliográficas
utilizadas, os dados da pesquisa de campo e a minha análise como
pesquisadora, e compartilho a seguir os principais pontos
ressaltados:
- A noção de
sujeito e seus princípios de formação (egocentrismo,
auto-referência, exclusão-inclusão, e a incerteza), segundo
Edgar Morin, foram claramente identificados.
- Valores foram
entendidos como constructo motivacional (Schwartz,2005), ou
seja, como padrões de conduta que estão relacionados às
necessidades universais e que norteiam a vida das pessoas.
- Os valores
pessoais influenciam as escolhas, as ações e especificamente a
forma de as pessoas trabalharem em equipe ,de acordo com a
amostra pesquisada.
- Dentre os
valores pessoais identificados na amostra pesquisada alguns
foram comuns e, portanto, merecem ser destacados: Solidariedade,
Cidadania, Paixão pelo que fazem, Participação, Comprometimento
e Liberdade.
- A liberdade de
escolhas e, no sentido mais amplo, racionalidade substantiva
depende da liberdade instrumental ( política, de expressão,
igualdade de oportunidades, direitos assegurados, e outros),
conforme defende Amarthya Sen, Prêmio Nobel da Economia.
- Ficou
evidenciada a importância que a participação em grupo tem na
vida mental e emocional e na satisfação das pessoas, ratificando
a idéias de Chanlat (1996) de que “é por meio do outro que o
Sujeito “se constitui, se reconhece, sente prazer e sofrimentos,
satisfaz ou não seus desejos e suas pulsões’.
-
O modo de
trabalhar em equipe, observado nas três ONGs pesquisadas,
encontra respaldo na literatura mencionada em particular em
Katzenbach & Smith (1994). Merecem destaque: a clareza de
propósitos, o forte sentido de identidade, o alto grau de coesão
grupal, a complementaridade das competências, e a
co-responsabilidade e comprometimento com resultados e
princípios.
- As culturas
organizacionais dessas instituições são essencialmente
participativas e informais.
- A eficácia das
equipes pesquisadas, não se refere a uma visão idealizada sobre
o funcionamento das mesmas, ou a idéia de ausência de conflitos
ou de dificuldades de natureza comportamental, como por exemplo,
competição, vaidade, ciúmes, intrigas, e outras. O dito (e o não
dito) dos entrevistados sugere que tais atitudes são próprias do
ser humano e suas manifestações independem do contexto no qual
as pessoas estejam inseridas. Os autores pesquisados não fazem
qualquer referência à possibilidade de inexistência de conflitos
e dificuldades pessoais ou interpessoais nas relações da equipe
consideradas eficazes. Apesar da recíproca e profunda relação
indivíduo-grupo-sociedade, não se deve desconsiderar a
singularidade de cada SER, e que, para compreender alguns fatos,
é preciso olhar apenas para o individual e aceitar que a forma
como cada um lida com suas percepções e sentimentos é
diferente, e que existe o livre arbítrio para as nossas
escolhas.
- Nos três casos,
o papel da liderança foi determinante neste processo evolutivo.
Tais líderes podem ser considerados empreendedores sociais de
acordo com a literatura pesquisada, especialmente em Melo e
Froes (2002). Todos tiveram uma função de mobilizadores e
facilitadores de suas equipes, adotando estilos bem
participativos de gestão, o que muito contribuiu para que, neste
momento, suas equipes funcionem de forma articulada, autônoma e
criando redes, que expandem as fronteiras de atuação de seus
respectivos projetos, tendo duas das ONGs pesquisadas seu campo
de atuação até no exterior.
Pelas limitações
do método, pela intencionalidade da amostra de pesquisa e por
ter analisado os dados numa perspectiva fenomenológica, não cabe
dizer que os resultados podem ser entendidos como verdades
absolutas e, muito menos, podem ser generalizados. Essa pesquisa
destacou os desafios que as próprias organizações do Terceiro
Setor, os estudiosos da Administração e das outras Ciências
Sociais e a sociedade de modo geral têm de enfrentar, com o
objetivo de contribuírem para a profissionalização da gestão do
Terceiro Setor e da maximização de seus resultados, garantindo
assim, o cumprimento da missão do “negócio social”, que é
promover o desenvolvimento sustentável e a consolidação da
verdadeira democracia, por meio da igualdade de oportunidades e
da liberdade para todos.
Material
apresentado no 32º Congresso Nacional de Gestão de Pessoas.
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