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Carlos Legal
Consultor Sênior do Instituto MVC
Gandhi: valores, ética e
qualidade de vida na liderança
Qualquer
organização (família, empresa, cidade, país, planeta) é um
aglomerado de indivíduos e cada um é co-responsável pelo seu
êxito ou fracasso. Entender isto seria suficiente para nos
mobilizar a refletir sobre que tipo de resultados nossas ações
individuais estão gerando para nós mesmos, para o nosso próximo
e para as gerações futuras?
Para falar sobre
liderança e valores no contexto organizacional é necessário
considerar essas questões. Considero a base de qualquer
liderança a qualidade que a pessoa busca ser, pois somos seres
inacabados, estamos evoluindo o tempo todo (física e
intelectualmente). Temos de nos comprometer a melhorar a
qualidade do que somos antes de melhorar a organização onde
atuamos. Antes de melhorar a organização à qual pertence,
melhore a organização que você é. Se liderança é a capacidade de
influenciar pessoas, qual a qualidade da influência que você tem
sobre si mesmo, seus próprios pensamentos e atitudes? Como vou
lidar com o outro se não consigo lidar adequadamente comigo
mesmo? Falamos com muita eloqüência sobre as relações que
devemos construir com os outros, no poder da influência que o
líder tem de ter sobre os outros, mas falamos pouco sobre a
intimidade que devemos ter conosco. A mudança sustentável na
organização começa pelo indivíduo, não há outro caminho.
O PROBLEMA
A fonte da crise
de valores que vivemos atualmente é atribuída a uma falta de
equilíbrio entre os direitos e deveres e ao excesso de
expectativas da maioria das pessoas na obtenção de seus
direitos. Culturalmente fomos condicionados a enfatizar os
direitos e negligenciar os deveres. Um bom exemplo disso são
alguns hábitos da cultura norte-americana, como o individuo
negligenciar o seu dever de cuidar da própria saúde, fumando
dois maços de cigarros por dia e, quando adoece, abrir uma ação
judicial contra a empresa de tabaco, pleiteando seu direito à
saúde. É uma grande inversão de valores. Em minhas palestras,
tenho o hábito de perguntar às pessoas: “Quantos neste auditório
gostariam de ver um mundo com menos violência? Por favor,
levantem a mão”, sendo a manifestação unânime. Mas quando
pergunto “Então, quantos de vocês praticam a não-violência no
seu cotidiano, nos mínimos detalhes da vida, tratando as pessoas
com justiça e respeito, cultivando pensamentos de compaixão e
cuidando de sua saúde com disciplina?” e não sobra um com a mão
para o alto. Gandhi dizia “seja você a mudança que quer ver no
mundo”.
INTEGRIDADE:
FAÇA O QUE FALO E O QUE FAÇO
E onde repousa
minha excelência? Na minha integridade. E o que nos leva à
integridade? Os valores assimilados e praticados, ou seja, o
discurso coerente com a prática. Os valores nos ajudam a criar
um padrão de conduta, criam sustentação e retidão na vida e nas
ações, sobretudo na prática dos chamados valores universais. Os
orientais chamam a prática desses valores de Dharma (do
sânscrito Dhri, que significa trama, urdidura e tem o
sentido de sustentação, limites e “reto agir”) e sua função é
balizar e dar sustentação às ações.
VALORES
UNIVERSAIS
Então o que é um
valor? É a consideração por uma atitude apreciada ou estimada
pelo dono do valor. Valores são apropriados quando demonstram
certas atitudes éticas. Um valor ético é um padrão de conduta
apropriado originado na maneira pela qual eu desejo que os
outros me vejam ou me tratem. As normas éticas não são
exatamente regras arbitrárias feitas pelo Homem, mas originadas
de uma consideração inerente e comum ao seu próprio interesse e
conforto. Por isso, valores éticos são naturais e universais.
Os valores
universais devem ser universais no conteúdo e relativos na
aplicação, pois existem situações onde o que é considerado ético
torna-se não ético, dependendo do contexto. Por exemplo, sou
capaz de aplicar um valor pela verdade (um valor universal) de
forma muito consistente e absoluta em relação às palavras dos
outros, mas em relação às minhas próprias palavras, a aplicação
será menos consistente e bastante relativa à situação. Porque
isso? Afinal, a fonte dos meus valores é encontrada na maneira
pela qual desejo que os outros me tratem. É fácil exigir que os
outros observem padrões éticos de modo que eu possa ser o
beneficiário (foco no direito). Parece-me menos fácil ser
coerente na aplicação desses padrões no meu próprio
comportamento.
Não podemos fugir
dos valores porque ninguém, vivendo neste mundo, pode fugir dos
relacionamentos. Desconsiderar um valor me coloca em conflito
comigo mesmo, pois quando pratico uma ação que é um não-valor
para mim, crio uma semente de culpa, que é tudo que preciso para
produzir insônia. Na presença de conflito sua qualidade de vida
fica comprometida (arrependimento, culpa, sentimento de
fracasso) e culmina com o enfraquecimento do próprio caráter. Os
conflitos aparecem quando sou incapaz de viver de acordo com um
determinado valor que, consciente ou inconscientemente aceito.
No entanto, o conteúdo universal dos valores só pode ser negado
se não houver em mim qualquer preocupação pela forma como a
outra pessoa me trata. Se eu desejo que a outra pessoa tenha uma
determinada conduta comigo, então estou preso a um sistema de
valores.
·
Satya
(do
sânscrito Satya – verdade) não se limita apenas à
palavra, mas a autenticidade. A verdade é fundamental
para se conquistar a credibilidade e confiança dos seus. Não é
somente a abstenção da mentira, mas a busca de uma perfeita
coerência entre os pensamentos, as palavras e os atos. Também
diz respeito ao compromisso de não iludir os outros, criando
falsas expectativas com aquilo que não pode ser cumprido.
Há uma passagem da
vida de Gandhi onde, numa reunião com colaboradores na África do
Sul, ele deveria ler um documento. Um dos presentes se
manifestou, pedindo que Gandhi não lesse o texto, pois ele não
concordava totalmente com seu conteúdo, por um motivo particular
bastante forte. Gandhi então perguntou se havia mais alguém na
sala que se opunha à leitura do texto e nenhum outro membro se
manifestou. Surpreendentemente, Gandhi decidiu que não leria o
texto. Questionado sobre sua decisão, ele afirmou que se tivesse
mais alguém que se opusesse à leitura, ele teria lido, pois
seria excessivamente humilhante para apenas um membro do grupo
ser excluído. Se quisermos nos manter no caminho para um padrão
de liderança mais elevado, teremos de expandir a aplicação da
melhoria continua de modo a incluir a prática da ética. Temos de
considerar a prática de valores universais no estilo de gestão.
Gandhi lançava mão
de votos para se impor à disciplina necessária para manter seu
compromisso. Na vida prática, isso equivale à “decisão
irrevogável”. Por exemplo, quando um indivíduo toma a decisão de
jamais tomar drogas, ele não tem de passar pelo processo de
decisão a cada oportunidade que se apresente – a decisão já foi
tomada.
COMO
DESENVOLVER VALORES UNIVERSAIS NA ORGANIZAÇÃO?
Nunca de forma
autoritária ou baseada na moral. Somente quando reconheço o
valor dos valores universais em minha vida e estou disposto em
assimilá-los, aí sim eles se tornam valores pessoais. A
diferença é que o valor assimilado não exige escolha da minha
parte, torna-se espontâneo. Para um valor não-assimilado
tornar-se valor assimilado preciso:
-
Exercitá-lo
deliberadamente até que esteja convencido de seu valor. Para
se tornar espontâneo devo considerar seu valor em minha vida
pessoal.
-
Reconhecer os
resultados danosos (médio e longo prazo) do meio-valor.
Material
retirado do Pocket MBA Gestão de Pessoas e Negócios.
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