|
Voltar
JOSÉ PAULO MOREIRA DE OLIVEIRA
Consultor Sênior do MVC e autor
dos livros Como Escrever Melhor e Como Escrever Textos Técnicos
SOMOS NOVOS
BÁRBAROS
Que ainda não
sabem o que fazer com seus novos brinquedos
Se o rádio levou
38 anos para atingir 50 milhões de usuários, a Internet
conseguiu igual façanha em apenas quatro anos. Hoje, o mundo
fala com desenvoltura sobre robótica, transplante, teste de DNA
e realidade virtual.
Para a educação
brasileira, este é o maior desafio: formar pessoas capazes de
acompanhar de perto a intensidade e a rapidez como se processam
as intensas mudanças tecnológicas. A impressão geral é de que
não estamos fazendo o dever de casa.
Os dois
cases a seguir ilustram a questão.
Receita de
Cheeseburguer
O hotel, novinho
em folha e up-to-date, disponibiliza toda a
sofisticação tecnológica, capaz de fazer seu afortunado hóspede
sentir-se como passageiro de uma nave interestelar.
Resolvi embarcar
nessa aventura e cheguei justo no dia do Brasil e França. Cinco
horas de viagem do Rio a Natal – a esculhambação aérea já vem de
longa data – e meus cem quilos exigiam algo mais substantivo do
que as míseras barrinhas de cereal, oferecidas pela Gol.
Como Galvão Bueno
já berrava o início da batalha, procurei com sofreguidão o ramal
da copa – a fim de providenciar os nutrientes necessários para
temperar meus nervos e ansiedade.
Pedi uma coca
light, para acalmar minha consciência, e um cheeseburguer, para
pacificar meu estômago.
Vai daí que: jogo
vai, jogo vem; Roberto Carlos ajeita as meias, Zidane come a
bola e nada de o meu pedido chegar. Final do primeiro tempo, e o
estômago já pedia clemência.
- Room Service,
boa tarde.
- Olha, eu pedi um
sanduíche há mais de meia hora – e até agora nada.
- Ah! O senhor é
que fez o pedido do Xbúrgui? Eu já ia mesmo ligá pro sinhô e
dizer que não tem Xbúrgui. Nós só faz hambúrgui, queijo quente e
misto quente. Xbúrgui que é Xbúrgui mesmo, nós num faz.
Como a situação
demandava raciocínio rápido, disparei sem demora:
- Vocês têm
hambúrgui? OK! E aquele pão redondinho de hambúrgui, vocês
também têm? Maravilha! Pois então eu vou te ensinar uma receita
genial: pega duas carnes de hambúrgui, acrescenta quatro fatias
de queijo, põe tudo na chapa e esquenta aquele pão redondinho,
que você usa pra fazer hambúrgui.
Em quinze minutos,
estava comendo o cheeseburguer mais gostoso e reconfortante da
minha vida.
Conheço um
lugar...
Um simples
programa de computador é capaz de armazenar todas as informações
suficientes para levar o cliente a se sentir no paraíso. Resta
apenas saber como utilizá-las.
Conheço um hotel
que leva a sério o fator humano como diferencial competitivo.
Sempre que nele me hospedo, sou recebido com um: Boa Noite,
professor. Na recepção, minha ficha já foi digitada; basta
assinar (Vocês têm idéia de quantas fichas um Consultor tem de
preencher na vida?). Ato contínuo, a recepcionista me entrega a
chave com um: Seja bem-vindo à sua casa (A frase me faz
economizar horas de sessão de análise).
No frigobar do
quarto, bananada sem açúcar, muita água mineral, sucos e
refrigerantes light (Chocolates, bebidas alcoólicas e outras
delícias são prazeres interditos a um diabético).
Quanto é que o
hotel gastou, com tanta “mordomia”? Quase nada, se comparado ao
retorno maravilhoso que esses simples agrados são capazes de
proporcionar.
Se a tecnologia
nos dá condições de reunir informações valiosas sobre o cliente
e se o processo já não é mais nenhuma novidade – as pessoas, no
geral, sabem disso – por que muito poucos passam da teoria à
prática?
A escola
brasileira nesse contexto
Por enquanto, a
escola brasileira ainda não percebeu – honrosas exceções – que o
mundo mudou radicalmente nos últimos dez anos e que o processo
educacional vai muito além de sala de aula, quadro, aluno,
professor e giz.
As ferramentas
digitais estão aí mesmo, para que delas possamos tirar o maior
proveito. Hoje, é facílimo criar um banco de dados, com todas as
informações sobre alunos, família, professores, funcionários,
fornecedores, o que facilitaria enormemente a comunicação – e a
integração – entre todos os participantes da comunidade escolar.
Partindo da
premissa que o correio eletrônico é uma realidade, por que não
utilizá-lo na comunicação entre escola e pais, em substituição
aos surrados recursos do recadinho na agenda ou do telefonema da
mãe representante?
Falar nisso, não
seria interessante usar o e-mail para informar periodicamente
como seu filho vem se saindo nas notas, quais as atividades
extracurriculares do mês, e outras tantas informações
absolutamente necessárias ao dia-a-dia da escola?
Seria tão
revolucionário assim pensar na troca de informações entre pais e
professores? Quantas vezes você recebeu um e-mail dizendo que
Seu filho vai muito bem, obrigado ou então que Seu filho anda
meio disperso nas aulas. Algum problema de que devemos tomar
conhecimento?
Por que está fora
de cogitação enviar um e-mail – com o resumo dos assuntos
discutidos – aos pais que infelizmente não puderam comparecer à
reunião? Por que não se pensar em criar um site da escola
verdadeiramente interativo, que seja um espaço onde pais, alunos
e professores possam discutir, opinar e sugerir os melhores
rumos para a escola?
O uso do
computador deve ir muito mais além das tarefas administrativas
de secretaria: cadastro de alunos, boletins, folha de pagamento.
Agir dessa forma não é inteligente.
Devemos sepultar
de vez o sistema de outorga, por meio do qual nosso direito se
restringe à escolha da instituição a quem confiaremos cegamente
a educação de nossos filhos, sem que nos seja dada a
oportunidade de participar democraticamente dos rumos do projeto
pedagógico.
Este talvez seja o
melhor da era digital: permitir a comunicação rápida,
instantânea e imediata, por meio da qual a sinergia entre os
agentes dos diferentes processos revele o comprometimento de
todos.
A escola deve
entender que a excelência só se conquista com a contínua
capacitação das pessoas e a melhoria de produtos e serviços.
Quem souber
incorporar com inteligência as novas ferramentas tecnológicas ao
seu dia-a-dia terá enfim conseguido seu diferencial competitivo.
Caso contrário ficará impotente como nosso atônito cozinheiro de
hotel: com todos os ingredientes à sua disposição, mas sem saber
como prepará-los.
Material do pocket MBA
Comunicação Integrada.
|