FAMÍLIA &
FÉRIAS:
O QUE ISTO
TEM A VER COM A GESTÃO?
Sou incansável na busca do aprendizado. Inspirada pelas
férias decidi refletir sobre o que essas experiências podem nos
ensinar sobre a gestão. Certamente, podemos passar nossas férias
sozinhos, mas, como a maioria de nós aproveita este período para
estar mais com a família, é fundamental para nossa reflexão
considerar este contexto, pois mesmo que fiquemos em nossa
própria casa, isso já provoca alguns questionamentos.
A família, além de ser a nossa primeira organização, é a
mais primária no sentido de sua complexidade, porém seu
componente afetivo pode, paradoxalmente, tornar tudo mais
complexo do que nas organizações do trabalho, onde os vínculos
são mais superficiais.
É, ou pelo menos deveria ser, na família onde aprendemos a
lidar com a diversidade apesar da constante busca de unidade que
permeiam as famílias, de modo geral. Todos desejam ter e fazer
parte de uma família unida e harmoniosa. Em família, descobrimos
que, mesmo quando fomos educados com base nos mesmos princípios,
valores e crenças, na interação com o mundo, cada um percebe,
assimila, reforça aspectos diferentes desta base comum. Somado a
isto, as diferenças de personalidade e as experiências que são
singulares a cada um, deparamos com uma enorme diversidade que,
no cotidiano, nem sempre nos damos conta, mas que, no convívio
das férias, emergem de forma divertida ou não, dependendo do
nosso maior ou menor preparo para lidar com a situação.
Geralmente é no momento das escolhas, das decisões entre o que
comer/fazer/ir/... , onde as diferenças se evidenciam.
Nesse momento, como nas empresas, é preciso alinhar
expectativas, buscar consenso e, dependendo de quem são as
personagens (crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos) é
necessário que “alguém” decida, dê a direção, assuma os riscos,
enfim, que seja assertivo.
É natural que em família nos sentimos mais amados, seguros,
aprovados e, por isso, nossa capacidade de exposição aumenta,
nossos “feedbacks” são mais diretos (e nem sempre
seguimos as regras, que aprendemos em nossas empresas, para
torná-los mais eficazes e construtivos), gerando situações de
conflito. Talvez, por termos a garantia dos vínculos sanguíneos,
descuidamos um pouco do afeto e não cuidamos tanto das palavras.
Ou, ao contrário, queremos proteger tanto o outro, que não
expressamos aquilo que desejamos e precisamos, tornando as
relações muito frágeis, por não estarem pautadas na verdade e na
franqueza.
Também na família, como ocorre nas empresas, pode-se perder
o foco da missão, da visão de futuro de todos, dos valores e
agirmos impulsionados pelos interesses pessoais dos mais
influentes e de objetivos que nem sempre estão alinhados com a
missão de “Ser a família Tal” e “realizar um projeto de vida”,
“contribuir com algo que seja mais essencial que as conquistas
materiais”. Isto corresponderia nas empresas a visar somente o
lucro e não entender que ele é apenas a condição para que a
missão se concretize, não o fim em si mesmo. Toda a família
precisa de dinheiro porque garante, em primeira instância, a
própria sobrevivência, a qualidade de vida, e a possibilidade de
realização de outras necessidades de ordem sociais e
psicológicas. Mas qual é a medida?
Os apelos do mundo moderno são tantos que, nem sempre,
percebemos que nossos filhos, e até nós mesmos podemos estar nos
distanciando de valores que são proferidos em nossos discursos,
mas que, nem sempre, são manifestos em nossas ações. Muitas
vezes, não fazemos “as coisas erradas” que tanto criticamos, mas
ficamos passivos diante delas, e não reforçamos, na educação
familiar, as conseqüências disso para a sociedade e os antídotos
para essas atitudes inadequadas. Permitimos que se construam as
crenças de que os fins justificam os meios, ou que vale tudo
para se realizar os desejos individuais, em detrimento do
bem-estar coletivo. Exemplos simples: pessoas jogando lixo pelas
janelas dos carros nas estradas, burlando as normas de trânsito,
levando animais e praticando esportes proibidos nas praias,
tomando atitudes inadequadas durantes os jogos e atividades
competitivas e de lazer, e por aí vai...
Por comodidade preferimos as crianças vendo TV e ficando
horas diante dos computadores, ao invés de estimular, o “ócio
criativo”, a busca das novidades, de explorar os ambientes, de
fazer novos amigos, de cantar, brincar resgatando o lúdico.
Assim como nas empresas, muitas vezes preferimos liderar
pessoas que se adaptam bem às rotinas, apenas as cumprem, não
questionam, não incomodam, não cobram, não propõem mudanças,
enfim “ficam na delas” e com isto não nos tiram da nossa zona de
conforto.
Quando estamos trabalhando, devido ao corre-corre, não
temos tempo para fazer tudo o que gostaríamos para nos divertir,
informar, descobrir mais. Quando estamos de férias, se não
cuidarmos, acabamos reproduzindo o mesmo padrão, indo para os
mesmos lugares, fazendo exatamente as mesmas coisas. As férias
são oportunidades para conhecermos novos lugares, novas pessoas
ou fazer coisas diferentes na própria cidade onde vivemos. É
muito comum conhecermos mais museus e pontos interessantes fora,
do que onde vivemos. Até mesmo as conversas em família, a
“contação de estórias e casos” interessantes, tudo fica
esquecido, devido à televisão e aos computadores. Não se
exercita a expressão, o saber ouvir, o diálogo.
Talvez porque fiquemos mais relaxados nas férias, idéias
borbulham em nossa mente. Quando elas dizem respeito ao nosso
trabalho, devemos apenas anotá-las, para quando retornarmos,
recuperá-las e aproveitá-las, se for esse o caso. Aquelas que
dizem respeito à vida pessoal, esse é momento de aproveitá-las,
de repensar e recarregar nossas energias para os novos desafios.
Nas férias também podemos descobrir, frente às
oportunidades que surgem, novos talentos em nós mesmos e nas
pessoas que estão convivendo conosco: cozinhar, dançar,
fotografar, cantar, e tantos outros.
Enfim, não aprendemos somente quando aproveitamos as férias
para fazer cursos, assistir palestras e filmes, ir a museus, ler
livros, ouvir músicas, mas quando estamos abertos a viver novas
experiências! Isto também pode nos tornar melhores gestores, de
nós mesmos, do tempo, das pessoas... Você, leitor, concorda?
Então, pense sobre tudo o que já aprendeu ou que poderá aprender
em suas férias!