Pesquisando a Motivação: A Pesquisa de Clima Organizacional

 

Por Flávia Kahale

 

Atualmente torna-se cada vez mais necessário à área de RH mensurar suas ações através de procedimentos técnicos que possam respaldar ao máximo sua atuação nas organizações. O lema aqui é transformar a área em um centro de lucro tendo uma participação ativa e eficiente. Mas, em se tratando, de motivação, como medi-la? Como mensurar algo que nos parece tão abstrato e de âmbito essencialmente pessoal?

Bem, parece que quantificar a "motivação em si" é uma tarefa realmente complicada. Entretanto, hoje já contamos com alguns instrumentos que podem nos ajudar a nos aproximar um pouco mais deste conceito, através da sua operacionalização em outros mais tangíveis (avaliando o nível de satisfação do colaborador com a empresa, com as lideranças, com o ambiente de trabalho, etc.). Um destes instrumentos é a Pesquisa de Clima Organizacional e é sobre ela que vamos nos deter um pouco neste capítulo. Procurarei aqui expor o seu uso como uma importante ferramenta motivacional e algumas observações nossas, fruto de alguns anos de trabalho na Área de Pesquisa do Instituto MVC.

Em primeiro lugar, o que é uma pesquisa de clima organizacional? É um instrumento voltado para análise do ambiente interno a partir do levantamento de suas necessidades. Objetiva mapear ou retratar os aspectos críticos que configuram o momento motivacional dos funcionários da empresa através da apuração de seus pontos fortes, deficiências, expectativas e aspirações.

 

Mas por que pesquisar?

Geralmente, quando nos é solicitada um pesquisa dessa natureza, Sempre fazemos algumas perguntas-chaves para os nossos clientes: quais são seus objetivos com os resultados recolhidos? O que estará por trás desse levantamento? Será feita alguma ação específica em relação aos resultados? Sabemos que uma pesquisa de clima, por si só, já funciona como um agente motivador em sua execução, pois dentro desta ação está intrínseco a frase "estamos querendo ouvir você", "você e sua opinião são muito importantes para nós".

Esta atitude da empresa eleva bastante o índice de motivação dos funcionários. Sentem-se participando, sentem-se ouvidos e respeitados em suas opiniões. A crença na empresa se eleva sensivelmente. Mas, se nada for feito com os resultados, a pesquisa terá efeito inverso: a descrença na empresa tende a aumentar e a relação dos colaboradores com a empresa passa a ser de grande desconfiança.

Frente a estas perguntas-chave, o que sempre ouvimos de nossos clientes são: precisamos mapear o ambiente interno da nossa empresa para assim atacar efetivamente os principais focos de problemas melhorando o clima de trabalho de nossos colaboradores. Então voltamos a perguntar: "mas por que melhorar o clima?" e a resposta é simples: "porque precisamos"

Sim, precisam e precisam muito. Hoje, neste mundo tão cheio de transformações, em meio à globalização, onde a competição dentro dos setores se tornou marca registrada deste momento, as empresas devem, cada vez mais, melhorar seus índices de competitividade e para isso ela depende quase que única e exclusivamente de seus Seres Humanos - motivados, felizes e orgulhosos dos valores compartilhados com a organização. Caso contrário, aquilo que poderia ser feito em apenas 1 hora com alto grau de qualidade, chega a demorar até 2 dias para ser concluído.

Pesquisas indicam que colaboradores com baixos índices de motivação, utilizam somente 8% de sua capacidade de produção. Por outro lado, em setores/áreas/empresas onde encontramos colaboradores motivados este mesmo índice pode chegar a 60%.

Em nosso banco de dados, algumas empresas parecem apresentar uma nítida correlação entre um baixo nível de motivação e um alto índice de doenças psicossomáticas. O resultado é um elevado gasto com assistência médica com seu quadro de pessoal.

Assim, as empresas precisam manter o índice de motivação de seus colaboradores o mais elevado nível possível de forma que este valor passe a ser um dos seus indicadores de resultado.

 

Mas... E o que eu vou fazer com isso?

Já definimos a pesquisa, explicamos seus objetivos. Mas, com seus resultados nas mãos podemos muitas vezes simplesmente não saber o que fazer com eles. É importante dizer que a pesquisa de clima - quando bem feita - deve sempre estar coerente com o planejamento estratégico da organização pesquisada, propondo sempre, em seu fechamento, um Plano de Ação, que traçará as principais diretrizes de ação frente aos dados obtidos. Este será, portanto, específico, uma vez que todas as variáveis já estarão claramente definidas pelo levantamento realizado.

Assim, podemos dizer que este "diagnóstico" realizado pela pesquisa de clima organizacional pode auxiliar a organização a efetuar diferentes ações, como:

  • Potencializar os Propulsores - com base na apuração dos pontos fortes da organização, poderemos ter uma ação específica para sua valorização e melhoria, tirando proveito de seus efeitos ;

  • Balizar Programas de Treinamentos Específicos - através da identificação de seus pontos críticos, poderemos produzir resultados orientados às reais necessidades dos colaboradores;

  • Obter a Sinergia dos Colaboradores - esta atividade faz com que os colaboradores tenham a oportunidade de refletir sobre suas realidades – seu desenvolvimento profissional e pessoal. Temos verificado, em todos os nossos trabalhos anteriores, que uma simples participação em pesquisas já promove entre os colaboradores uma considerável elevação dos seus níveis de motivação.

  • Sinergia das Lideranças - A apresentação dos resultados é uma ótima oportunidade de avaliação e reorientação das lideranças em torno dos mesmos objetivos - propicia um clima adequado à realização de outros trabalhos no nível de comando da organização. Dentre eles destacamos uma revitalização do Planejamento Estratégico da organização, especialmente no que tange à Reorientação e Redefinição das Diretrizes Estratégicas.

 

Resultados: afinal, como motivar os colaboradores?

Está é uma pergunta que geralmente nossos clientes nos fazem. Consideram, muitas vezes, que exista uma fórmula mágica que traga com eficiência este resultado. Entretanto, nossas experiências de pesquisa mostram que esta fórmula não existe. É uma pena...

O primeiro erro que boa parte das empresas comete é pensar que a única coisa que motiva os colaboradores é dinheiro. Ledo engano. Salário, quando muito baixo, age como agente desmotivador mas o oposto não leva a melhores resultados. Se fosse, seria extremamente fácil. Em nossas pesquisas observamos que o fator melhoria salarial está em oitavo lugar para a maioria das pessoas.

É muito fácil você comprovar isso. Imagine se hoje você duplicasse o salário de cada um de seus colaboradores. Na hora seria a maior alegria, certo? E daqui a dois meses? Como será?

Já tivemos experiências com empresas, onde o salário é bem acima da média de mercado, onde a maioria se considerava bem remunerada e o grau de motivação era baixíssimo, muito aquém de empresas com salários inferiores à média de mercado.

Partindo da premissa "salário", muitas empresas costumam criar sistemas de reconhecimento somente baseado em melhoria salarial (cumprimento de metas, participação nos resultados, premiações trimestrais, etc.). Não que esses sistemas não funcionem, mas pela nossa experiência, já vimos que ele sozinho não conseguirá aumentar o nível de motivação dos funcionários por muito tempo.

Muitos líderes chegam a dizer, "o problema aqui é salário. Se a empresa der aumento salarial, todos ficarão felizes" e com essa atitude se eximem do problema maior. Como se a responsabilidade fosse somente da empresa e não mais de cada um de seus componentes.

 

Então, o que motiva?

Uma premissa básica deve ser sempre considerada: Ninguém motiva ninguém.

Cada ser humano se motiva por razões diferentes. O que é muito importante para organizações é que estas razões devem ser coerentes com sua cultura interna e atitude perante os funcionários, que vai desde a contratação, passando pela manutenção do colaborador na empresa e no seu desligamento.

Como resultado geral de todo nosso banco de dados (o que deve contar hoje (2002) com aproximadamente 60.000 pessoas (incluindo lideranças), onde pelo menos cerca de 10% foi entrevistado pessoalmente), podemos dizer que se apresentam da seguinte forma:

 

O que motiva os Colaboradores

O que desmotiva os Colaboradores

  • Desafios

  • Integração

  • Oportunidade de crescimento profissional

  • Estabilidade

  • Oportunidade de Desenvolvimento profissional

  • Benefícios

  • Valorização e Reconhecimento

  • Imagem da empresa frente ao mercado

  • Visão de Futuro

  • Salário

  • Participação (Sentimento de ser ouvido pela empresa)

  • Acesso às novas tecnologias

  • Falta de desafios

  • Pouca oportunidade de crescimento e desenvolvimento profissional

  • Falta de clareza nos critérios utilizados para avaliação. Feedback

  • Falta de valorização e reconhecimento pela empresa

  • Relação com a liderança

  • Falta de autonomia

  • Falta de visão do todo - Baixo sentimento de participação. Sentimento de pouco acesso à informação

  • Salário

  • Processos internos difíceis / excesso de burocracia

(*) os dados acima englobam respostas de colaboradores e lideranças.

 

Este conteúdo está assentado sobre algumas dimensões-chaves, consideradas como impactantes sobre a motivação, apresentadas a seguir:

  1. Desafios

  2. Realização / Satisfação

  3. Valorização / Reconhecimento

  4. Crescimento Profissional

  5. Participação / Utilidade

  6. Liderança

  7. Integração

  8. Reconhecimento Financeiro

As Dimensões-chave pesquisadas:

Desafio

Na maioria de nossas pesquisas esse fator é o que está sempre em primeiro lugar quando perguntamos o que os motiva.

Quanto maior o nível hierárquico de uma empresa, maior iremos encontrá-lo como mola propulsora dessas pessoas.

Todos precisam sentir que suas funções ainda contenham desafios a serem vencidos para que ainda possam ter motivação para executá-las.

Quando sentem que já não há mais desafios nas atividades que executam, ou na empresa que trabalham, se não há uma mudança passam a perder o pique e a vontade de fazê-lo bem feito.

Realização / Satisfação

Ninguém quer trabalhar o mês inteiro apenas para ganhar dinheiro. É preciso gostar do que faz. É preciso uma boa dose de realização pessoal naquilo que está fazendo. 81% do universo pesquisado considera que para fazer bem feito é preciso gostar do que está fazendo. Quando encontramos pessoas que não vêem sentido no que fazem, não gostam elas apenas entregam à tarefa aproximadamente 10% de sua capacidade de produção, mesmo que estejam com todos os focos de motivação sanados.

Valorização / Reconhecimento

Pessoas entusiasmadas, valorizadas e felizes, que vêem seu trabalho reconhecido, aumentam a produtividade da organização. O ambiente interno da empresa deve prover as condições necessárias à sua realização, em todos os sentidos. A valorização é entendida como uma necessidade humana suficientemente forte para criar um clima adequado à superação dos desafios nesta época de grandes mudanças e competitividade.

Sentir que é reconhecido pelo que faz está intimamente ligado ao sentimento de realização. 72% respondem enfaticamente que gostariam de ser valorizados pelo trabalho que executam. E ser valorizado significa: receber maiores desafios, receber feedback, ser ouvido, ser tratado com igualdade, crescer profissionalmente e etc.

O sentimento de reconhecimento está vinculado ao papel da liderança, pois é ele que demonstrará este fator. Quando a liderança não se sente reconhecida a tendência é:

não sou reconhecido

â

não reconheço

à

não sou reconhecido

â

não reconheço

à

não sou reconhecido

â

não reconheço

à


Pela ilustração acima, quanto menor o grau na cadeia hierárquica da empresa, menor será o sentimento de reconhecimento. Isto se agrava bastante no momento em que por vícios culturais leva a falta de reconhecimento até mesmo de seus pares.

Participação

É um fator extremamente importante. Qualquer projeto que venha ser implantado na empresa precisará contar com um alto grau de participação e comprometimento dos seus colaboradores.

Quando perguntamos o que fariam se fossem presidentes de suas organizações, para melhorar a motivação dos funcionários, cerca de 62% considera que "deveriam ouvir mais os funcionários".

A própria pesquisa já age como um fator motivador nesta área. Sentem que há seriedade da empresa na forma com que são ouvidos

Empresas onde o processo participativo vem sendo bem trabalhado, os índices de motivação tendem a se encontrarem em patamares bastante altos, pois os colaboradores se sentem co-responsáveis pela empresa.

Colocamos participação junto com utilidade pois em diversas empresas encontramos este sentimento é muito prejudicado, pois não conseguem ver suas funções fazendo parte de um todo maior.

Perspectiva de Crescimento Profissional

O sentimento de perspectiva de crescimento profissional na empresa é um grande alavancador e proporciona forte motivação a seus colaboradores.

Muitas vezes, nas entrevistas, ouvimos que os colaboradores preferem esta perspectiva real a terem no momento salários altos. O sentimento de que há investimentos em sua vida profissional, faz com que crie dentro dele uma alavanca. O Sentimento de que existe interesse da empresa em investir nele faz com que sinta-se muito motivado.

A possibilidade de crescimento é um fator que se expressa não apenas em uma ascensão dentro do organograma da empresa, mas na quantidade de desafios e no aumento de responsabilidades.

Liderança

O papel do líder e seu estilo de liderança são fundamentais para desenvolver a satisfação dos funcionários no trabalho. Contribuem para a motivação da equipe, o comprometimento dos funcionários, a confiança na empresa, a segurança e o sentimento de valorização do funcionário conquistado através de feedback , respeito e credibilidade.

É muito importante que as lideranças de uma empresa sejam conscientes de seu papel perante a motivação de seus subordinados. Ele não os motivará diretamente, mas será o responsável direto por criar as condições básicas para que o subordinado possa encontrá-la.

Em nossa experiência vimos que por diversas vezes existe uma certa fuga desta responsabilidade. Colocam-na diretamente na empresa.

Hoje, a preocupação em preparar as lideranças para agirem como um agente propiciador de motivação é grande, pois historicamente nunca foi tão necessário sua ação junto aos colaboradores.

Integração

A partir do momento em que o colaborador é reconhecido como fator importante dentro do quadro de competitividade da empresa, surge a necessidade de formar equipes ligadas, de forma profunda e madura, ao pensamento e à massa crítica maior da empresa. Torna-se impossível estabelecer uma diferenciação competitiva sólida com pessoas não engajadas, sem comprometimento em nível integral e completo com o destino da organização

Comprometer a equipe significa, portanto, inserir na personalidade de cada indivíduo a grandeza do trabalho, dos propósitos mais nobres da empresa, da missão que ela tem.

Ambientes feudalizados são extremamente desmotivadores. Em muitas entrevistas ouvimos "cada unidade um empresa, cada área uma empresa, cada departamento ma empresa, cada sala uma empresa, cada mesa uma empresa". Isso para o ser humano em geral é muito ruim. Ninguém gosta e nem sabe viver sozinho e mais do que tudo o que as empresas estão precisando hoje é da sinergia das atividades em equipe.

Equipes integradas ajudam a criar e manter ambientes motivadores e de grande poder competitivo.

Reconhecimento Financeiro

A questão salarial é importante para a motivação, pois está ligada diretamente à satisfação das necessidades básicas do funcionário. Por si só, não é suficiente para motivá-los. Em empresas onde a remuneração é muito abaixo do mercado esse fator tende a ser o primeiro, mas isso só deve ser comprovado quando for constatado um turne over alto. Satisfeita as necessidades básicas, esse fator se torna cada vez menos importante na cadeia de valores de motivação.

Geralmente, em quase todas nossas pesquisas costumamos criar uma pergunta aberta (para que todos possam explanar um pouco mais sobre o que sentem) criando um situação lúdica, onde ele coloque-se na posição do presidente da organização para que possa criar ações que tragam maior motivação para os funcioná

Como nosso resultado geral temos

Ouviria mais os funcionários

62%

Valorizaria mais os funcionários

52%

Aumento salarial

42%

Daria maiores possibilidades de crescimento

40%

Treinamento para as lideranças para serem melhores líderes

40%

Treinamento para os funcionários

38%

 

Volto a afirmar que esses resultados são médias de empresas nas quais já trabalhamos. E é importante ressaltar que estamos utilizando-os em termos genéricos, somente para termos uma idéia de como anda o nível motivacional nas empresas brasileiras. Entretanto, o resultado de cada empresa é fruto de um conjunto de variáveis bastante específico e pontual (correspondente a um dado momento), intimamente ligado à história e a cultura da organização.

Enfim, baseado nessas reflexões, talvez valesse a pena um esforço de auto-avaliação:

Como anda o meu nível de motivação?

O que é que me motiva, hoje, em meu trabalho / empresa?

Quais os fatores mais importantes atualmente os mais importantes para manter seu nível de motivação em patamares elevados?

Que nota (entre 0 e dez) de motivação eu daria para meu nível de motivação no desempenho das funções que executo?

Que atitudes pessoais venho tendo em função de melhorar a minha satisfação com o trabalho que executo?

A partir dessas questões, bastante simples e básicas, tente fazer um acompanhamento da sua motivação, conhecendo e identificando seus pontos fortes e fracos, não só na vida profissional como também na pessoal.

(Texto publicado no Livro Motivação Liderança e Lucro - Marco Aurélio Ferreira Vianna)