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Mitos e
Inverdades sobre ROI em Treinamento
JB Vilhena
Presidente do Instituto MVC,
Autor do Manual das Universidades Corporativas,
Coordenador Acadêmico e Professor dos MBAs da
FGV
O PROBLEMA
Nesses tempos de crise, todas as áreas das
organizações estão preocupadas em comprovar “de
maneira inequívoca” sua contribuição para os
resultados financeiros do negócio. Para algumas
– vendas, finanças, produção - isso é fácil.
Para outras, produzir evidências dessa
contribuição se traduz em um enorme desafio. A
área de RH se encontra no segundo grupo.
O famoso cálculo do retorno sobre investimento
em RH teve seu apogeu a mais de 30 anos atrás. É
possível encontrar textos sobre o assunto
escritos a partir da década de 60 do século
passado (embora nos pareça que o primeiro
trabalho sobre o tema tenha sido escrito em
1935). Em outras palavras, já faz muitos anos
que se defende a tese que RH pode,
eventualmente, provar ser um Centro de Lucros.
Mas é nos períodos de “vacas magras” que a
questão volta a tona com maior vigor.
Preocupados em poder expressar financeiramente o
resultado de suas ações, gestores de T&D tiram a
poeira de suas prateleiras e relêem clássicos
como Hamblin, Magger, Kirkpatrick e Jack
Philips. É comum que muitos voltem a se
entusiasmar com as idéias do Dr. Jac Fitz-enz,
autor de alguns dos mais conhecidos trabalhos
acadêmicos sobre cálculo de ROI em treinamento.
Vejamos o que Fitz-enz afirma sobre avaliação de
resultados de treinamento:
"O objetivo de um esforço de avaliação, válido e
confiável, que atribui um valor específico ao
resultado de um programa de treinamento é
simplesmente este: demonstrar que há uma
provável correlação entre o evento de
treinamento e uma subseqüente mudança de
qualidade, produtividade, vendas ou serviço.
A metodologia deveria implicar o seguinte:
‘Dadas as condições estabelecidas, e assumindo
que os outros fatores são iguais, o efeito
observado é, muito provavelmente, resultado do
treinamento’.
Antes de começar a censurar previamente o
assunto, observe que o princípio de ceteris
paribus (todo o resto sendo igual) é a
fundamentação básica para todas as tentativas de
‘prova’. E é precisamente a pressuposição que
sustenta todos os planejamentos de negócios e
sua conseqüente avaliação."
Ou seja, para provar a tese que é possível medir
resultados de treinamento em termos estritamente
financeiros, o autor propõe um artifício
bastante utilizado nos exercícios de modelagem.
Criar um sistema fechado, isolado da influência
de qualquer outra variável que não seja aquela
que se está estudando. Funciona na teoria, mas
na prática é fruto de uma inferência que
dificilmente merecerá crédito.
Não quero, com isso, dizer que seja impossível
medir a taxa de retorno financeiro de algumas
ações de T&D. Se somarmos todos os custos de um
treinamento de vendas (diretos e indiretos) e os
dividirmos pelo resultado adicional obtido em um
determinado período após o treinamento, talvez
possamos atribuir o efeito gerado ao trabalho
feito. Mas como fazer isso com um treinamento
sobre “Ética e Responsabilidade Social”? Somar
os custos é fácil, mas como avaliar
financeiramente o produto gerado por esse
treinamento?
Baseado em Borges-Andrade (na minha opinião o
melhor pesquisador brasileiro sobre o tema)
afirmo sem medo que as experiências realizadas
para determinar o valor final das ações de T&D
são escassas e inconclusivas. Muito se evoluiu
na avaliação de processos, mas pouco se fez de
concreto para medição de resultados.
POSSÍVEIS ALTERNATIVAS DE SOLUÇÃO
Tenho defendido que sempre será possível medir o
resultado de uma ação de treinamento. Mas nem
sempre esse resultado poderá ser expresso
financeiramente. O que fazer então? Desistir de
medir? É claro que não.
Em primeiro lugar é preciso pactuar internamente
o que se está procurando medir. Uma interessante
pista sobre como fazer isso nos é fornecida pela
área de marketing. Para medir a efetividade de
suas ações mercadológicas, uma empresa utiliza
vários indicadores: participação de mercado,
retenção da marca, preferência e satisfação dos
clientes e outros mais. Fazendo há anos um
trabalho messiânico de catequese, os
profissionais de marketing já provaram para as
organizações que esse conjunto de indicadores
expressa a eficácia do marketing. Volume de
vendas expressa a eficiência da ação comercial.
Para ser muito sincero, poucas vezes vejo a área
de T&D pactuando com seu cliente interno o
resultado esperado da ação que vai empreender. O
que queremos obter ao final de dado treinamento:
a) Mudanças no desempenho de cada participante?
b) Mudanças no desempenho do grupo de
treinandos?
No primeiro caso a avaliação deverá tomar por
base o conteúdo do programa. No segundo, deverá
procurar observar o comportamento coletivo. Esse
é apenas um exemplo daquilo que T&D deveria se
preocupar em discutir antes de pensar em medir
resultados.
Em termos práticos sugiro que, antes de iniciar
um processo de medição de resultados das ações
de treinamento, você procure responder as
seguintes questões:
a) Por que medir?
Se a única motivação é tentar salvar seu pescoço
de um possível corte, cuidado. Pode ser que o
tiro saia pela culatra e você acabe convencendo
seus superiores que o investimento em
treinamento não tem efetivamente dado
contribuição financeira ao negócio. Isso não
seria problema em tempos normais, afinal não é
para apenas para isso que as empresas treinam
seus colaboradores. Mas em tempos de crise pode
ser uma excelente justificativa para um corte
mais profundo e uma economia aparentemente mais
substancial.
Como diz o Costacurta Junqueira – meu sócio e
mentor – “vale a pena, ainda, lembrar que a
imagem da área de treinamento nem sempre é das
mais positivas. Programas voltados
exclusivamente para “diversão”, entretenimento,
congraçamento ou criação de redes de
relacionamento certamente não contribuem para a
melhoria dessa imagem”. Pense bem no que você
andou fazendo antes de começar uma campanha
interna pela medição dos resultados.
b) O que medir?
Como já dissemos, em alguns casos é possível
associar uma ação de treinamento a indicadores
financeiros. Mas nem sempre. Apenas para fazer
uma analogia, pense no seguinte: qual o valor
financeiro da felicidade? Sendo esse o objetivo
maior do ser humano, será que seu atingimento
pode ser medido em dólares ou reais?
É por isso que, novamente inspirado por
Borges-Andrade, proponho 5 dimensões para serem
medidas:
- Reações
- Aprendizagem
- Comportamento no cargo
- Mudanças provocadas na organização
- Valor final
Essas dimensões compõem aquilo que o autor –
inspirado por Hamblin – chama de MAIS (modelo de
avaliação integrado e somativo). Kirkpatrick
fala de 4 níveis, Jack Philips lhes acrescenta
um quinto. Se você preferir utilizá-los, não há
problema. Não dá é para começar um processo sem
saber o que se quer mensurar.
c) Como medir?
Que tudo pode ser medido, não há dúvida. Embora
inexista uma tabela ou régua para tal, não é
difícil medir o grau de satisfação dos clientes
com nossos produtos e serviços. Isso é feito
utilizando-se indicadores que todos concordam
expressar a grandeza que se busca avaliar.
Trocando em miúdos, medir significa comparar o
resultado obtido com o objetivo planejado.
Em treinamento também é assim que se deve
trabalhar. Dependendo da intenção da ação, é
possível escolher indicadores que expressem se
os objetivos foram ou não alcançados. Mas é
preciso que haja consenso quanto a esses
indicadores, senão sua validade será questionada
e ele poderá cair em descrédito. Também é
fundamental que não caiamos na tentação de medir
“a” com intenção em “b”. Gostar de um produto
não significa que você tenha a intenção de
comprá-lo. Eu adoro sorvete, mas no regime que
estou fazendo agora não posso nem pensar em
consumi-lo.
É importante lembrar que existem dois tipos de
medição: de processo e de produto. Como em quase
tudo na vida, medir os dois é fundamental para
avaliar a eficácia de um treinamento.
Mas não esqueçamos a “regra de ouro”: são os
resultados desejados que definem as formas de
medição. O contrário não funciona.
d) O que fazer com os resultados?
Minha sugestão é pragmática.
Proclamá-los aos sete ventos. Mostrando que não
somos necessariamente um Centro de Lucros, mas
que estamos dando uma efetiva contribuição para
que a organização possa gerar resultados
positivos, preferencialmente de maneira
eticamente defensável e socialmente responsável.
Mas e se os resultados não forem tão positivos
quanto imaginamos? Lembremo-nos que só há uma
razão para medirmos as coisas: melhorá-las. Se
não estamos performando do jeito que
pretendíamos, é importante investigar o que
precisa ser feito para reverter a situação.
e) Existem riscos envolvidos?
Sempre existem. Mas o risco de manter a área de
T&D sendo vista como uma caixa preta é muito
maior. O mais importante aqui é “vender
internamente” a idéia que as contribuições de
T&D não se expressam necessariamente em termos
financeiros. Muitas são as moedas utilizadas
pela organização para avaliar eficiência,
eficácia e efetividade de suas ações. Não se
deixe cair na armadilha de que “tudo que importa
são os cifrões”. Lembremos sempre de Peter
Drucker que dizia que lucro é apenas uma das
medidas da competência de uma empresa.
Acho que responder a essas cinco perguntas é
essencial para a se começar a pensar em
implementar um sistema de medição de resultados
de ações de T&D. Mas vale a pena colocar aqui
uma questão muito simples. Você, profissional de
treinamento, já pesquisou junto ao seu cliente
interno o que ele entende ser “resultado” de uma
ação de treinamento? Será que a moeda que seu
cliente utiliza para avaliar seus serviços é o
retorno financeiro? Desconfio enormemente que
não!
O que você pensa sobre tudo isso? Tenho outras
idéias sobre esse assunto e gostaria muito de
discuti-las. Caso seja do seu interesse, me
ligue para marcarmos uma conversa pessoal. Tenho
certeza que podemos aprender muito um com o
outro.
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