TPM ou
Treinamento por Mixaria
JB Vilhena
Presidente do Instituto MVC,
Autor do Manual das Universidades Corporativas,
Coordenador Acadêmico e Professor dos MBAs da
FGV
As três letrinhas
que dão título a esse artigo imediatamente
remetem a um período do mês em que a maioria das
mulheres – e homens, pelo efeito cascata –
detesta. Mas obviamente não é disso que queremos
falar.
Aqui no Instituto MVC nós chamamos de TPM o
famoso Treinamento por Mixaria. Uma síndrome que
contamina as organizações e que, infelizmente,
não se mostra apenas alguns dias por mês.
Acreditamos que o fato do TPM organizacional ter
se tornado uma doença crônica, seja
responsabilidade tanto das áreas de RH/T&D
quanto das próprias consultorias.
Verifiquemos porque as consultorias ajudam a
tornar a TPM aguda:
a) Com o acirramento da concorrência muitas
consultorias partiram para a guerra de preços,
uma vez que não tinham diferenciais competitivos
para oferecer;
b) Muitas consultorias são empresas de um só
dono/empregado. Nesse caso os custos
operacionais são diminutos, o que pode implicar
em preços aparentemente (explico já porque) mais
baixos;
c) As grandes organizações - com todo o seu
prestígio, competência e tradição - vem
enxergando nos nichos antes ocupados pelas
consultorias um mercado a ser conquistado. Aos
pequenos, que não conseguem se diferenciar, só
resta tentar sobreviver cobrando mais barato;
d) Muitas consultorias preferem “ganhar um
dinheirinho do cliente” ao invés de deixar claro
que determinadas formas de treinar são
absolutamente inócuas.
Agora vamos ver o outro lado da moeda. Por que
as organizações chegam a se orgulhar quando
contratam Treinamento Por Mixaria?
a) Muitas vezes as áreas de RH/T&D não têm
consciência da sua importância estratégica e
passam a acreditar que a única relevância que
podem ter é na hora de “espremer” o budget.
Trata-se do popular – e às vezes tremendamente
ingênuo – fazer mais por menos;
b) Muitos profissionais de RH/T&D são
despreparados para comprar treinamento. Isso
ocorre porque esses profissionais não possuem
visão sistêmica de negócio e acabam acreditando
que treinamento é uma atividade que tem início e
fim em si própria;
c) É muito comum que a área de RH/T&D não
pratique uma “postura consultiva”. Isso se
traduz no compromisso de pura e simplesmente
atender às demandas dos clientes internos, sem
procurar adotar uma postura que permita que
esses clientes reflitam sobre a propriedade da
adoção da solução originalmente pensada;
d) É comum que a área de RH/T&D não possua as
ferramentas necessárias para mensurar o retorno
do investimento em treinamento. Nesse caso é
melhor ficar com a ilusória sensação que fizemos
“muitas horas de treinamento por empregado”. Não
importa que essas horas todas tenham sido um
desperdício de tempo, paciência e recursos.
e) A essa altura do campeonato Você já deve
estar se perguntando: e o que eu posso fazer
para evitar o TPM?
Vão aqui algumas dicas:
a) Procure conhecer profundamente a consultoria
que está contratando. Para quem ela já
trabalhou? Que resultados pode comprovadamente
apresentar? Quais são seus diferenciais
competitivos? Que tipo de garantias ela oferece
em relação aos seus serviços?
b) Assegure-se que a consultoria de fato detém o
conhecimento – prático e teórico – daquilo que
está vendendo. Muitas “empresas de uma só
pessoa” são obrigadas a fazer de tudo para
sobreviver. Nessas micro-organizações treina-se
do presidente ao faxineiro, em qualquer área e
sobre qualquer competência. Desconfie.
c) Analise detidamente a conveniência de pagar
mais caro por uma marca. Muitas vezes apenas as
grandes organizações têm envergadura para
enfrentar projetos muito grandes de treinamento.
Não as divinize, mas também não as satanize;
d) Assegure-se que a consultoria que está
contratando não está apenas interessada em
“ganhar um dinheirinho” com você. Uma forma de
fazer isso é verificar qual o grau de sinergia
entre a oferta da consultoria e a sua cadeia de
valores. Faça isso antes de discutir preço.
e) Conscientize-se que o papel da área de RH/T&D
é cada vez mais estratégico. Gastar menos não se
traduz em gastar melhor;
f) Entenda que a relevância do treinamento só
pode ser percebida se exercitarmos uma visão
sistêmica das atividades da organização. Do que
adianta treinar vendedores se a área de produção
não tem capacidade de entrega?
g) Adote uma postura consultiva em relação ao
seu cliente interno. É você – e não ele – quem é
especialista e, portanto, está capacitado para
dizer se treinamento é ou não a melhor forma de
superar um determinado gap de desempenho;
h) Jamais contrate um treinamento cujo retorno
não possa ser medido. Mais cedo ou mais tarde
você terá que prestar contas do que fez. Dizer
que sempre contratou treinamentos por uma
mixaria não vai justificar o dinheiro que você
gastou.
Se você julga que pensar e conversar sobre esse
assunto pode te ajudar a se tornar um
profissional melhor, eu acabei de encontrar uma
alma gêmea, pois é assim que penso. Nesse caso,
não hesite em mandar um e-mail para
vilhena@institutomvc.com.br com suas
observações e experiências. Tenho absoluta
certeza que temos muito a aprender um com o
outro.